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AniComics Lisboa2010

Entrevista a Mário Freitas, um dos nomes incontornáveis da Banda Desenhada nacional e responsável pelo AniComics.

Mário Freitas é um nome que dispensa apresentações no mundo da BD nacional. O dono da “Kingpin Books” tem-se tornado cada vez mais activo também como autor e editor de BD.

Além disso decide criar ainda um novo festival dedicado ao género, o “AniComics Lisboa2010”, que irá decorrer já no próximo fim-de-semana (8 e 9 de Maio), na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro em Telheiras,
A Rua de Baixo esteve à conversa com ele para falar da sua carreira e deste novo festival.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso na BD e o que te fez levar a abrir a loja “Kingpin Books”?

A BD sempre foi uma paixão para mim desde tenra idade, pelo que foi questão de unir o útil ao agradável. Depois de me licenciar em 94, comecei a trabalhar em consultoria de investimentos e 2 anos depois abri a minha própria empresa na área. Em meados de 99, atirei-me de cabeça para uma coisa que estava então a emergir: a internet. Entre a desconfiança e o escárnio sobranceiro de outros, lancei online a então “Kingpin of Comics” e o resto é história: uma primeira loja física em 2002, a segunda em 2005 e, finalmente, o grande salto e o grande boom em finais de 2008, quando adoptámos então a designação “Kingpin Books”.

Mais do que uma mera alteração cosmética, o nome renovado acompanhou o novo paradigma de livraria que pretendi implementar: um espaço confortável, atraente, com boa luz e boa exposição, que complementasse a vertente comercial com outra mais artística, através das exposições de originais, e com uma componente formativa, através da sala de workshops. Já para não falar dos lançamentos de livros e dos eventos com artistas internacionais, como aconteceu com a Tara McPherson, que nos deu a honra de nos seleccionar como uma das 11 lojas ou galerias da sua última digressão europeia. A arte e o design, aliás, estão sempre muito presentes na forma como abordo um negócio tão específico como este, e iniciativas como a linha de roupa de homem, “Kingpin Fashion”, desenhada pela estilista Ana Brito, vão exactamente ao encontro dessa abordagem empresarial.  Não é por acaso que o nosso lema é “Kingpin Books. Nós somos. Eles não.”

A “Kingpin” começou por ser uma loja de BD e hoje é também uma editora. Como teve início esta aventura?

Mais ou menos na mesma altura em que comecei a desenvolver o Super Pig mais a sério, surgiu-me outro projecto em carteira, o C.A.O.S. que me foi apresentado pelo Fernando Dordio e que me pareceu uma excelente companhia para o lançamento do meu estimável porco.

Há uma enorme diferença entre ser-se amador e parecer-se amador e tentámos, desde a primeira instância, demarcarmo-nos do estilo da maioria das pequenas edições que se faziam, e continuam a fazer, em Portugal, todas elas cheias de boas intenções, isso não se discute, mas minadas por amadorismos confrangedores, nomeadamente ao nível do design e package global das edições. As minhas edições tiveram erros e continuarão a ter erros, até porque aquilo que se usa muito num ano se torna rapidamente demodé a seguir. Porém, uma coisa nunca poderão negar a mim e aos meus colaboradores: a evolução. Há um esforço palpável de tornar cada edição melhor que a anterior, com melhores acabamentos, melhor design, melhor papel, melhores histórias, melhor arte, tudo.

Desde Outubro de 2006 que tens vindo a editar o “Super Pig”. Corrige-me se estiver errado mas esta é a única BD em Portugal a sair sob o formato comic americano? Podes contar-nos como nasceu esta ideia e quais os teus planos para o seu futuro?

Como referi atrás, as edições inciais do Super Pig foram acompanhadas pelas do C.A.O.S., igualmente num formato próximo do americano. De qualquer forma, o Super Pig 4, que saiu já há quase 2 anos, terá sido o último número a ser editado sob esse formato. As edições com lombada e maior número de páginas, estilo álbum, tendem a ter um tempo de vinda útil mais longo nas estantes e é esse caminho que estou a seguir.
De resto, o Super Pig foi uma ideia que andou a fermentar na minha cabeça durante mais de 10 anos, mas só depois de passar os 30 anos é que comecei a sentir a maturidade necessária para desenvolver o projecto mais a contento. Algo como o Super Pig exige um dosear adequado entre o escárnio e a paródia, intrínsecas a histórias sobre um porco num mundo de humanos, e uma vertente mais séria que incida sobre o zeitgeist e a crítica de costumes, algo que me é muito “querido”.

Para os que esperam há muito o próximo Super Pig, peço-lhes apenas um pouco mais de paciência. Estou confiante que a espera valerá bem a pena e o próximo Super Pig deixará muito boa gente boquiaberta, a começar pelo salto estratosférico que a arte do GEvan.. deu, sem me menosprezar a mim próprio, que desenvolvi uma trama imaginativa e diabólica que percorre 400 anos da história da humanidade e dará a conhecer ao leitor o verdadeiro significado da expressão “Língua de Shakespeare”.

Recentemente, foste o arte-finalista de “Mucha”, o regresso, esperado por muitos, à BD, de David Soares com desenho de Osvaldo Medina. Como foi trabalhar com estes dois artistas e como tem sido recebido o livro?

Trabalhar com o Osvaldo e com o David é o paraíso dos editores. Primeiro, porque o David é de um rigor e de uma velocidade impressionantes e consegue entregar um guião completo de BD em menos de uma semana. É quase criminoso, aliás, a quantidade de guiões por desenhar que ele tem na gaveta, devido à grande dificuldade em encontrar artistas que se aproximem, sequer, do seu grau de profissionalismo e exigência. Ora uma dessas excepções é precisamente o Osvaldo Medina, que é de certeza o artista português mais profícuo da actualidade, e tem duas coisas que raramente se conjugam: desenha depressa e bem! A decisão de eu fazer a arte-final prendeu-se com a atmosfera que se pretendia conferir ao livro, bastante negra e feita de altos contrastes, coisa em que o Osvaldo não se sente se calhar muito à vontade, mas onde tenho algum conforto. O livro teve uma recepção estupenda durante o lançamento no Festival da Amadora e foi inclusivamente alvo de várias críticas positivas em Espanha e até na Polónia, neste caso motivado certamente pelo título e cenário do livro.

O mês passado, a “Kingpin” editou o 2º volume da “Fórmula da Felicidade”, de Nuno Duarte e Osvaldo Medina. Podes falar-nos um pouco deste trabalho?

A Fórmula da Felicidade quase que já dispensa apresentações, tal a ampla cobertura que tem tido nos mais diversos fóruns nacionais. Ter sido “o grande derrotado” dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada do ano transacto diz bem da qualidade do livro (e mais ainda da qualidade da forma de atribuição dos ditos prémios…). Creio que ninguém sairá desiludido com a conclusão da história, que nos traz um Osvaldo Medina ainda mais inspirado e um Nuno Duarte ainda mais poético. A Fórmula da Felicidade pode não ter ganho (ainda) nenhum prémio, mas não duvido que daqui a uns anos ainda será uma BD lembrada e usada como referência, o que duvido honestamente que vá acontecer com muitas outras agora multipremiadas.

Qual a tua opinião do mercado de BD portuguesa?

Não há mercado de BD portuguesa, nem sequer sei se há mercado de BD em Portugal. Mercado implica a existência de uma massa crítica de compradores, coisa que manifestamente não existe por cá. Quanto muito, há nichos de mercado que se vão conseguindo explorar aqui e ali. Agora, uma coisa é certa: os últimos 4 ou 5 anos viram surgir vários autores talentosos e com ambição, que percebem que só há um caminho possível, que é o da exigência e da evolução, mesmo que à custa de críticas duras. Estamos demasiado enraizados no nacional-porreirismo e na maledicência fácil, algo aparentemente paradoxal, mas que mais não reflecte do que a inexistência de uma consciência crítica real. Tenho de ser franco, tenho de ser frontal: há excelentes autores de BD em Portugal, mas em pequena quantidade, nomeadamente se falarmos de argumentistas.

Depois, a língua portuguesa, tão vasta e diversificada em quase tudo, logo haveria de ter a malapata de usar a mesma expressão tanto para “editor” como para “publisher”. Isto faz com que a maioria das pessoas ache que o editor é a pessoa que publica o livro, ao invés daquela que gere as diversas etapas da feitura de um livro da BD, e que deve ter voz e papel determinantes nas várias opções narrativas e estilísicas a tomar. A maioria dos editores em Portugal limita-se a receber as BDs e a publicá-las, raramente sugerindo ou exigindo melhorias e alterações, em particular no cancro da BD portuguesa, a legendagem, raramente pouco acima de paupérrima.

Além do mercado editorial, também organizas cursos de BD na “Kingpin Books”. Em que consistem?

Estes cursos consistem em workshops integrados de BD, que abrangem todas as técnicas e ferramentas para se fazer BD; ou seja, não pretendemos ensinar ninguém a desenhar ou a escrever BD, pretendemos sim que as pessoas saibam COMO desenhar e escrever PARA BD, o que são duas coisas totalmente distintas. Por cá, há muito quem pense que escrever um argumento para BD é escrever uma história em prosa e esperar que seja o artista a transformar aquilo em arte. Isso talvez possa resultar numa BD, não excluo a hipótese, mas na esmagadora maioria das situações irá resultar decerto numa má BD. Fazer BD implica ter uma história bem arquitectada, mas implica igualmente ter noções rítmicas e das pausas narrativas, ter noções de composição e como as vinhetas se integram entre si, ter ouvido para diálogo, ter olho para design. Em resumo, a BD é interdisciplinar e até pode ser rasca, como o outro dizia (se, por rasca, entendermos que é algo barato de fazer), mas não é, decididamente, fácil.

Dedicando a maior parte do teu tempo à BD, decidiste que ainda não era suficiente e criaste um novo festival, o “AniComics”. Porque o decidiste fazer? E em que vai consistir?

Lisboa tem estado muito parada em termos de festivais da BD e havia aqui claramente um vazio que urgia preencher. Além disso, já levo 11 anos de participações em eventos similares, pelo que já era tempo de tentar pôr em prática a experiência acumulada e aquilo que acho que funciona, e abolir de vez os anacronismos. Com todos os defeitos que tem, continuo a gostar muito do Amadora BD, e jamais faria um evento contra ele ou contra quem quer que seja. De qualquer forma, sinto que posso dotar um evento de cariz e iniciativa privados, como o Anicomics, de um dinamismo e agilidade de procedimentos de que o Amadora BD muito carece. O AniComics Lisboa2010 não visa reinventar a pólvora, porque geralmente quem se põe com esse tipo de verborreia irrealista dá-se mal. Visa, isso sim, ser um evento movimentado, que concentre em poucos dias um programa extenso que possa interessar e motivar vários segmentos de fãs, várias faixas etárias e, até, atrair, potenciais novos leitores. Vamos ter três artistas internacionais, a saber, o espanhol David Lafuente e os italianos Giuseppe Camuncoli e Stefano Caselli, todos eles actualmente na Marvel, e vamos dar grande ênfase aos autores portugueses, muitos deles a trabalhar também no mercado americano. A presença de autores num certame desta natureza pressupõe sempre os tradicionais debates, sessões de autógrafos, workshops e exposições de originais, e o AniComics não vai fugir à regra. A fatia mais explosiva está reservada, claro, para a cultura japonesa, com um grande concurso de cosplay; maquilhagem e hairstyling ao vivo, e até concursos Anime Idol, através da Rádio Animix que estará a animar e a fazer a cobertura exclusiva do evento.

Além da BD, tocas baixo na banda Y NOT DOT? Fala-nos um pouco sobre esta tua outra faceta mais desconhecida.

Entre 92 e 96, compunha e tocava guitarra nos saudosos Ad Eternvm, saudosos pelo menos para mim e para os restantes membros. Os afazeres enfadonhos da vida adulta e as minhas malditas tendinites crónicas afastaram-me da música durante 14 anos, até que o meu antigo baterista, ao ver-se privado do baixista da banda actual dele, se lembrou de me vir desafiar a experimentar tocar baixo. Cinco concertos e vários calos depois, acho que me estou a tornar num baixista decente e já não aquele guitarrista-ritmo que atacava fervorosamente o baixo com uma palheta.

Quais as tuas maiores influências?

O meu falecido pai, pela rectidão de carácter que me incutiu, e a minha mãe, pela vasta cultura. Em termos de BD, admiro a criatividade e a modernidade de Grant Morrison, que não tem qualquer pejo de se assumir como uma espécie de popstar no meio de uma indústria repleta de criadores a precisarem de uma dieta urgente e de um corte de cabelo que pareça ter sido feito depois de 1990. Kirby será sempre Kirby, anos-luz à frente de todos os outros, não tanto pela qualidade artística, mas sim pela imaginação prodigiosa que recusava etiquetas e que se negava a parar e a se auto-limitar. Presentemente, adoro Skottie Young, Sean Gordon Murphy, Darwyn Cooke, Jason Aaron e, claro, o incomparável Frank Quitely, o artista que faz tudo parecer simples.

De qualquer forma, em traços gerais, não me limito a influências endógenas à própria BD e foi, por exemplo, ao ler o Buy-ology, do Martin Lindstrom, que desbloqueei na minha cabeça o que faltava no Super Pig 5. As influências vêm de todo o lado e podem mudar a qualquer momento; a BD influencia a minha música, por exemplo, assim como a música pode influenciar a BD que faço.

E o que reserva o futuro para Mário Freitas?

Trabalho. Edições. Música. Espero que cada vez mais frequentes e, sobretudo, cada vez melhores. Porque acusam-me muitas vezes de ser arrogante, mas devo ser a pessoa que mais escuta as críticas e opiniões alheias e mais as incorpora no que faz a seguir. Conheço muitos ditos humildes e modestos que persistem nos erros e não evoluem um milímetro, porque se calhar são mais teimosos e orgulhosos do que procuram aparentar e julgam-se, se calhar, os maiores criadores da sua aldeia. E são-no, certamente; mas de uma aldeia que nunca crescerá em número de habitantes. É isso que queremos, sermos todos muito simpáticos? Ou queremos evoluir, de facto, mas evoluir aos olhos dos melhores e não apenas dos dos nossos bem intencionados amigos? Deixo isso à vossa reflexão.



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