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Animal Bandido

A anti-marca. O duo espanhol apenas quer criar roupas que gostaria de usar, criar arte na roupa e poder viver disso sem ambicionarem ser milionários. Coisa rara...

Já no final dos anos 90, a jornalista norte-americana Naomi Klein lançava o livro “No Logo”, onde se denunciavam todos os horrores do corporativismo, dos quais destaco a hiper-exploração de trabalhadores em diversos países pobres, sobretudo asiáticos, onde fábricas com turnos intermináveis pagos a salários de fome produziam os brilhantes Nikes que exibimos nas capitais europeias enquanto bebericamos um vodka com limão, dançando livremente toda a noite numa qualquer discoteca da moda.

Cada vez mais esclarecidos por um lado, nós, os consumidores do mundo ocidental, somos por outro levados a pensar que o turbilhão de marcas, estilos, universos de design e comunicação e as suas diferentes escalas de preços, nos trazem mais liberdade, felicidade e até mesmo que estamos a olear o motor da economia. Mas se a balança fica leve do nosso lado, há um outro lado que pesa. Pesa literalmente no físico de seres humanos que não têm nem liberdade de escolha, nem vivem a felicidade despreocupada da generalidade dos consumidores ocidentais.

É sobretudo com base nestas premissas, mas também com a missão de revitalizar o mercado têxtil espanhol, que encontramos, como oásis no deserto, a marca catalã “Animal Bandido”. Dois designers apenas constituem a equipa, Zozen, 30 anos e Cláudia, 26. “Barcelona tem uma grande história na indústria têxtil que ficou prejudicada com a produção no mercado asiático e nós queremos fomentar a produção nacional por várias razões: a não-massificação da fabricação, ter produtos com denominação de origem e, mais que tudo, que se paguem uns salários dignos!”.

Posto isto, saiba que estes jovens designers se conheceram não há muito tempo, no verão de 2007, em Berlim e através de amigos comuns. Zozen já é técnico de Artes Plásticas e Desenho desde 2001 e já conta com muitos anos ligado à cultura urbana através de performances, vídeo e – muito importante para o conhecermos – a pintar grafittis. “Também já tinha estampado desenhos em t-shirts, colaborei com designers de moda, mas queria fazer algo mais amplo em que pudesse controlar o processo”. Cláudia, Licenciada em Desenho Têxtil e Moda pela escola ESDi e também com passagem pela ultra-aclamada Central St. Martins College of Art and Design, já desenhava colecções manufacturadas por ela mesma em edições super-limitadas.

Agora nasceu Animal Bandido, assumidamente marginal. Querem fugir ao mainstream, apresentam as colecções em showrooms e galerias que também as comercializam (já estão representados em Nova Iorque, Luxemburgo, Copenhaga, Madrid, Nottingham e Basel) mas também já experimentaram mostrar o trabalho na Barcelona Fashion Week, mas claro, num evento off: mais artístico e menos pretensioso. E quem usa Animal Bandido? “Todo o tipo de pessoas, desde o que quer ser mais fashion até quem quer uma peça mais original de edição limitada”.

Quanto às roupas, este Verão, por exemplo, seguem uma linha de básicos com estampados originais e muito coloridos, em t-shirts 100% algodão, também camisolas com capuz, biquinis e leggings em Lycra para que as cores sejam mais resistentes. “peças-chave são as t-shirts com estampados combinados com uns leggings bem coloridos” Zozen tem influências que vão do surf ao rockabilly e na música todos os estilos do tecno ao funk. Claúdia surpreende mais ao falar de Joanna Newson – um nome a descobrir, “toca harpa e canta com uma voz muito aguda” – e também música clássica, tradicional espanhola e muito rock. Pergunto o que seriam se não fossem designers. Cláudia: ‘Trabalhava num café de pequenos-almoços e lanches, ou cozinheira num restaurante de comida tradicional”. Zozen: ”A carreira de actor sempre esteve presente desde pequeno quando participei em grupos, ou nas minhas performances artísticas”.

Resumindo, uma marca com um espírito muito inconformado, que, através de peças divertidas e coloridas como as desta estação, tem uma missão. Apelam ao consumo ético. “Creio que o colapso do sistema capitalista está muito próximo com todo este desequilíbrio entre o ecosistema e a exploração de recursos naturais. As marcas multinacionais de massas vão continuar a explorar o terceiro mundo porque gera mais benefícios e nós, designer labels, vamos especializar-nos mais em roupa original e exclusiva”.

“A economia de mercado e a sociedade de consumo são uma merda. Só fazem com que se tenham necessidades desnecessárias em coisas materiais e absurdas. Eu [Zozen] não tenho necessidade de coisas materiais, e se não tens amor ou amigos de que servem?”



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