Anna da Palma

Conheçam "Sem Ela" pela mão da realizadora.

Criativa, moderna, simpática, dinâmica, engraçada e humilde. Este é o retrato de Anna da Palma, uma realizadora luso-francesa ambiciosa, que promete apaixonar o público português com a sua primeira longa-metragem – Sem Ela.

A viver em Paris desde os 12 anos, Anna desperta para a paixão pelo cinema bastante cedo, não sabendo no entanto qual seria a melhor forma de desenvolver este fascínio. Começa por ingressar num grupo de teatro e pouco depois dá os primeiros passos na direcção de actores. Em 2000 estreia-se com a sua primeira curta-metragem independente e a partir daí nunca mais parou.

Sem Ela é o nome da sua primeira longa-metragem que tem como pano de fundo Portugal. Num filme carregado de simbolismos e onde nada foi deixado ao acaso, assuntos como a discriminação, o racismo e a emigração ganham rosto e agitam a sociedade.

Através de um português afrancesado, Anna conversou connosco adiantando-nos alguns pormenores para o futuro e confessando-nos as suas motivações, sonhos e ambições.

Rua de Baixo – Apesar da paixão que tem por cinema opta por tirar um curso de História da Arte, que nada tem a ver com a vertente cinematográfica. Porque motivo?

Anna da Palma – Quando acabei o secundário, e apesar de ser uma fã de cinema, achava difícil ingressar nesse mundo, até porque a nível familiar não tinha pessoas que se encontrassem ligadas ao meio. Por isso optei por ir para uma universidade em Lille, tirar um curso de História da Arte. Continuava com o bichinho do cinema e com uma paixão pela arqueologia, que encarava como uma forma de reconstrução de histórias através de pequenos pedacinhos para no fim ter uma espécie de argumento de cinema.

RDB –  Quando é que decidiu que queria ser realizadora?

Anna da Palma – Comecei por ingressar num grupo de teatro, através do qual andei em digressão por França, durante dois anos. Considero a experiência teatral muito importante para aprender e saber dirigir os actores, mas também para compreendê-los, caso contrário não conhecemos a realidade do meio em que trabalhamos.

Depois do teatro começaram a surgir convites para participações em curtas-metragens e aos poucos fui descobrindo o que queria ser na verdade. Na primeira curta em que participo desempenhava a tarefa de guarda-roupa (risos), mas aos poucos foram surgindo outros convites para outras curtas e acabei por desempenhar funções de assistente de realização.

RDB – Teve qualquer tipo de formação na área de realização?

Anna da Palma – Quando aceito o convite para ser assistente de realização não tinha experiência nenhuma, nem sabia ao certo o que tinha de fazer. Por isso decidi recolher o máximo de informações acerca desta função. Comprei imensos livros e comecei a ser auto-didacta, aprendendo a dar os primeiros passos na área de realização no terreno.

Mais tarde registei-me numa agência de curtas, onde todos os interessados nesta área se inscrevem, com a finalidade de poder frequentar um curso na La femis para pessoas que se queriam dedicar à escrita de guiões.

RDB – Em que medida esse curso a ajudou a dominar a escrita de argumentos?

Anna da Palma – Ajudou, e muito, a ordenar a minha escrita e ensinou-me a ser mais disciplinada. Através deste curso para jovens realizadores e dedicado à escrita de argumentos, comecei a delinear as linhas mestras para a minha primeira longa-metragem, para o Sem Ela.

RDB – Se lhe pedisse para resumir o seu filme em poucas palavras como o faria?

Anna da Palma –
Um filme acerca de duas partes distintas, duas paixões que jamais conseguirão existitr uma sem a outra.

Escolhi um casal de gémeos para ilustrar a história de dois países e duas culturas para demonstrar que todos somos feitos de duas partes e que não sobrevivemos se não tivermos ambas as partes.

No fundo, acaba por ser a minha história, dividida entre França e as vindas a Portugal durante todos os verões, para ver a família, como é o caso da maior parte dos emigrantes portugueses. Mas é um filme que retrata também as angústias dos jovens de 20 anos,  que vivem sem saber quais os rumos a tomar.


RDB – Qual é a personagem com quem mais se identifica no filme?

Anna da Palma – Com Ela (risos), com a Fanfan (Bérenice Bejo). Ela é uma jovem que gosta de novas experiências e que gosta de explorar sem limites o que não conhece até então. Mas está também dividida entre duas culturas, a portuguesa e a francesa, e quer encontrar um ponto de união entre ambas.

Fanfan lida com as angústias próprias da sua idade e, por isso, enfrenta alguns obstáculos que a fazem amadurecer e aprender a fazer as suas próprias escolhas.

RDB – Recorre a diferentes técnicas de filmagem com um motivo especial?

Anna da Palma – Com certeza. Para mim, a técnica deve estar sempre ao serviço dos actores, para veicular a minha ideia e intenção quando escrevi o guião. Para demonstrar a instabilidade de Jo (Aurélien Wiik), tive a liberdade de ver através dos seus olhos, tudo o que ele sentia, principalmente a sua inquietação, e penso ter conseguido isso ao utilizar a câmara na mão.

RDB – Escolher actores portugueses foi uma tarefa difícil?

Anna da Palma – Foi muito mais complicado do que escolher os franceses, até porque não conhecia muitos actores portugueses. Mas os Filmes Tejo indicaram-me o Vitor Norte como o nome do actor indicado para o papel de Diamantino. Recordo-me que me encontrei com o Vitor e tomei um café com ele numa das ruas da baixa e que quase de 5 em 5 minutos aparecia alguém a pedir um autógrafo. Fiquei perplexa, porque não fazia ideia que era assim tao conhecido e requisitado. É uma pessoa extraordinária, humilde, muito disciplinado no trabalho e com muito boa disposição, o que contribuíu para um grande espírito de grupo entre os actores.


RDB – Atribui um papel de grande importância à música no seu filme. Por algum motivo em especial?

Anna da Palma – Sou apaixonada por todos os géneros musicais e não pude deixar de atribuir um papel de destaque à música. Assim, a acção do filme desenrola-se tendo como pano de fundo a música, principalmente para ilustrar as decisões tomadas pelas personagens. A guitarra surge como um veículo escolhido, para abordar todos os géneros musicais, daí se adaptar às opções das personagens, ora o rock, ora a guitarra acústica, ora a guitarra portuguesa. A guitarra portuguesa e o fado surgem numa tentativa de aproximação das personagens principais (gémeos) como forma de demonstrar que a cultura portuguesa pode aproximar pessoas distantes. Por isso é muito importante, para ilustrar também a minha paixão pelo fado.

RDB – A escolha de temas contorversos foi propositada?

Anna da Palma –
Na realidade sim (risos). Um filme que não reúne críticas e que não cria “barulho”, acaba por passar ao lado e por não ser relevante, e para mim isso é o mais importante.

Eu gosto que as pessoas se sentem no cinema, e que se esqueçam inclusive do sítio onde moram, tudo para mergulharem no filme e resolverem, elas próprias, os problemas que o filme suscita.
Por isso é que interpreto o cinema enquanto local de reflexão, onde as pessoas não são passivas, e que não se limitam a sentarem-se e verem imagens bonitas. Para mim, o cinema enquanto arte deve resultar também da interpretação que cada um faz do filme. Daí a escolha de temas controversos que suscitem interesse e discussão, daí sugerirem interpretações diferentes. Os mais jovens geralmente têm uma visão romântica, enquanto que os mais velhos, ainda com alguns tabus, criticam e muito o filme. Esta múltipla interpretação agrada-me muito.

RDB – Sem Ela, é também sinónimo de Portugal. O que sente pelo nosso país?

Anna da Palma – Eu adoro a forma hospitaleira e querida como os portugueses me recebem e gosto dos “inhos”,  dos mimos e da sua forma de tratamento. Claro que existem coisas que me irritam como meterem-se na vida alheia. Mas quando estou em França, sinto falta de Portugal e quando estou em Portugal sinto a falta de França. São duas coisas diferentes mas parece que não podem existir um sem o outro. Quando estou em França, sinto falta da comida, do peixe, da cultura e do fado português. Em França irrita-me a frieza e a desconfiança do povo francês.

RDB – Pondera a hipótese de um dia regressar às suas origens?

Anna da Palma – Se não tivesse a profissão que tenho (risos)  preferia viver em Portugal, mas uma vez que tenho esta profissão prefiro continuar a viver em França.

RDB – Porquê?

Anna da Palma – Em França o cinema, bem como outros aspectos da cultura, são mais valorizados e beneficiados do que em Portugal. Existem muitos subsídios direccionados para o cinema, o que tem a ver com a tradição cinematográfica francesa.

Em Portugal tudo se passa de forma diferente. Na época de ouro do cinema francês, em Portugal estava instalada uma ditadura. Mas o cinema português está-se a modificar, e encontra-se em expansão, o que se deve sobretudo ao aparecimento de novos realizadores. Daí que a meu ver é cada vez mais difícil classificar o cinema em termos de géneros. Tornou-se mais dificultada a tarefa de diferenciação entre o que é o cinema português e o que é o cinema francês.

RDB – Realizar ou escrever argumentos, o que é mais difícil?

Anna da Palma – Para mim escrever é mais difícil. Tudo porque tenho de obedecer a um determinado ritual, isolar-me do mundo, dedicar-me única e exclusivamente a essa tarefa, esquecendo-me de tudo o resto.

Daí ser um género de trabalho com horários a cumprir, um trabalho onde aprendo a ser disciplinada, para me empenhar a fundo e obter os resultados que desejo. Por isso se não vestir a roupa que uso somente para escrever, se não aquecer a máquina do café, se não fizer estes rituais, algo faltará e não vai correr da forma como planeei.

RDB – Se tivesse de destacar alguns realizadores que admira, quem seriam?

Anna da Palma –
Gosto do trabalho de imensos realizadores, e admiro o trabalho de muitos no seu género particular, como é caso especial de Manoel de Oliveira. Mas admiro o trabalho de outros realizadores como  Pedro Costa (“Ossos”), que tem  o poder de fazer evoluir uma personagem no mesmo plano,  recorrendo a planos gigantescos. Mas tenho como realizadores de referência Emir Kusturica entre outros que admiro.

RDB – Como se sente face às criticas que recebeu até ao momento?


Anna da Palma –
Tenho sido muito feliz na promoção do filme, que atingiu umas proporções que nunca pensei ser possível, ainda por cima por ser o meu primeiro trabalho, a minha primeira longa-metragem.

No geral as críticas têm sido boas e o filme está a ser muito bem recebido. Mas todas as críticas que poderei receber são óptimas porque geram o tal “barulho” que pretendo, para fazer com que as pessoas reflictam acerca do meu filme.

RDB – O que podemos esperar da Anna da Palma para o futuro?

Anna da Palma –
Neste momento, acabei de realizar uma média-metragem, telma demain, que terá como protagonista uma das personagens que participou no Sem Ela. Em projecto encontra-se uma séria de ficção para o canal ARTE.



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