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“Anna”, a sacrificada

Vidas napolitanas asfixiadas

Ontem, dia 4 de Abril no Cinema São Jorge, agarrei-me à cadeira ao ver “Anna”, o filme de Giuseppe Gaudino exibido no decurso da 8 ½ Festa do Cinema Italiano a decorrer até à próxima quinta-feira.

Lembrei-me logo de quando cedo na minha vida o meu pai me contou da sua reacção ao ver nos anos 60 “As noites de Cabíria” de Frederico Fellini.”Fiquei agarrado à cadeira” conta-me sempre. E foi essa a reacção que experimentei ao ver as cenas do filme “Anna – Per amor vostro”. O que significa que o realismo do filme mais os elementos mágicos da tradição do cinema italiano lá estiveram em toda a sua pujança.

“Anna” conta a estória de uma mulher interpretada pela conhecida Valeria Golino, de cerca de 40 anos que, mais do que ter uma vida trágica, não tem qualquer réstia de auto-estima perante o violento marido e uma sociedade napolitana plena de crueldade. O coro fúnebre acompanha-a por onde quer que ela vá com cânticos que sublinham a negação de uma vida sã, por amor aos 3 filhos adolescentes, por amor a todos os que vai encontrando pelo caminho; em último caso, uma mulher que se sacrifica pelo amor a nós todos que ficamos boquiabertos perante tamanha coragem face a uma vida de desespero.

A negação de si própria é-nos então mostrada por símbolos típicos da cinematografia italiana em que somos confrontados com cenas hiper-realistas de violência conjugal e pelo suspeito oposto através da vida que leva no emprego que conseguiu na Televisão onde escreve as falas dos actores para ficção em enormes cartazes. O galã italiano da série faz as suas investidas numa aproximação que à partida reveste a forma de sonho na vida daquela mulher. Mas tudo se precipita para um fim surpreendente tal como no filme “As noites de Cabíria” de Frederico Fellini.

E a estética e simbolismos do filme são conseguidos pelo preto-e-branco da vida madura de Anna em contraste com as cores da infância onde esta se mostra uma corajosa e feliz criança até ser separada dos pais para um internato religioso. O contraste mostra-nos que Anna deixou a felicidade para trás faz muito tempo, que nem sequer vê nada senão as trevas quando vai à janela da cozinha ou quando viaja no autocarro.

Estabelecendo uma relação afectiva com todos, sendo altruísta e sensível à tragédia alheia, não consegue sair da sua própria condição, estabelecendo um relacionamento profundo sobretudo com o filho que é autista, como se o diálogo silencioso dos dois constituísse o mais forte símbolo da asfixia daquelas vidas napolitanas.



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