Antibalas Afrobear & T.Kanyembe

Casa da Música, 13 de Julho.

Foi no final de um tórrido dia de Verão que a cidade Invicta recebeu os norte-americanos Antibalas Afrobeat Orchestra e os portuenses Tchakare Kanyembe para dois concertos marcados pelas sonoridades afro-beat. O facto de este ser um género musical ainda bastante desconhecido em Portugal, sobretudo em matéria de concertos ao vivo – o ponto alto terá sido, recordemo-nos, a passagem de Femi Kuti pela edição de 2004 do Festival de Músicas do Mundo de Sines – terá ditado uma lotação a meio gás da Sala 2 da Casa da Música. Ainda assim, e perante um público bastante eclético, o ambiente para a estreia dos Antibalas em palcos nacionais foi claramente de festa, num misto de curiosidade face à novidade musical e de anseio pela libertação dos corpos, entregando-os à dança.

A abrir “as hostilidades” estiveram os Tchakare Kanyembe que, muito embora existam desde 2004, certamente viram neste concerto um momento alto na sua (ainda) curta carreira – oportunidade que souberam “agarrar” convenientemente. De facto, ao longo de cerca de uma hora este combo de oito elementos apresentou uma série de temas originais fortemente marcados pelas estruturas musicais afro-beat, apostando na construção de musculadas bases rítmicas, sobre as quais ganharam notoriedade a sua secção de sopros e, sobretudo, o enérgico vocalista Simonal.

Face ao desafio de abrir a noite para os Antibalas, a banda nortenha apostou fortemente em dar um verdadeiro concerto, mais do que cumprir a função de simplesmente realizar o “aquecimento” do público para a banda principal – e, em grande medida, esta foi uma aposta ganha! Simonal desceu do palco para a plateia, apelando aos movimentos de dançar por parte do público, entoando “gritos de guerra” e dançando entusiasticamente com algumas das raparigas que estavam na fila da frente. Muito embora se note que alguns aspectos possam ser ainda melhorados, sobretudo no que toca às melodias de voz e à perceptibilidade das temáticas das letras, esta é uma banda promissora no panorama nacional, com bons temas e com uma óptima postura ao vivo.

Já bem perto da uma da manhã, entram em palco os Antibalas Afrobeat Orchestra, nesta noite reduzidos apenas a onze dos habituais catorze elementos. Esta não foi, contudo, uma condicionante, tendo o combo norte-americano demonstrado uma competência irrepreensível. De facto, se para quem conhecia os discos e a reputação da banda em formato live as expectativas eram bastante elevadas, a verdade é que elas foram superadas: ao longo de quase duas horas de concerto o público presente na Casa da Música teve direito a um concerto absolutamente magnífico.

Extremamente coesos enquanto banda, os Antibalas souberam-se sólida e progressivamente impor ao longo do primeiro terço do concerto, construindo uma actuação que terminou em quase absoluto delírio por parte do público, que os obrigou ao obrigatório encore. Com um grande à-vontade em palco, os norte-americanos exploraram sobretudo o seu mais recente longa-duração “Who Is This America?”, havendo tempo ainda para uma belíssima versão a três vozes de «Rat Race» (Bob Marley) e pontuais revisitações de repertório mais antigo.

Oriundos de Brooklyn, os Antibalas constituem uma excelente amostra do enorme melting pot de múltiplas referências culturais que constitui a Big Apple: podemos encontrar, entre os seus membros, elementos de origem latina, africana, outros ainda indiciando um passado familiar proveniente da Escócia ou de Itália e ainda aqueles com uma aparência do que associamos ao estereótipo do nova-iorquino. Assumindo o principal papel de front man, o percussionista e cantor Ernesto Abreu, que dividiu as vocalizações dos temas com o percussionista Duke Amayo – o aniversariante da noite, com direito a “parabéns a você” e tudo – e o saxofonista Stuart Bogie. De resto, foi Bogie, com «Indictment», o responsável por um dos melhores momentos da noite e aquele que acabou por constituir o momento-chave na “conquista” do público nortenho, arrebatando-o finalmente e prosseguindo em completa festa até ao final do concerto.

Recriando um Tribunal de Popular, o “colectivo de juízes” Antibalas – liderados por Bogie – procederam à apresentação dos factos que incriminam George W. Bush e a sua equipa governamental, entre outros, enquanto criminosos de guerra, apelando ainda ao público para a “denúncia” dos opressores existentes em terras lusas. Se inicialmente a resposta não foi totalmente satisfatória, a banda acabou por conseguir, de facto, envolver o público no concerto, tendo surgido alguns nomes de políticos bem conhecidos e pondo, por fim, toda a gente a mexer-se. Na mais pura das tradições afro-beat, com os Antibalas a música, a dança e a consciência política parecem genuinamente articular-se – mais do que tratando-se de uma mera pose estética.

A partir deste momento, estavam criadas as condições para o desenvolvimento dos momentos musical e fisicamente mais enérgicos do concerto, com os Antibalas a demonstrarem plenamente as razões da sua reputação de verdadeiros “animais em palco”. Foi particularmente impressionante ver a eficácia da sua secção rítmica, especialmente o baterista Philip Ballman – absolutamente irrepreensível, ao longo de duas horas non-stop –, bem como o poder da sua famosa secção de sopros, – cujos membros, e percebeu-se bem porquê, já colaboraram com artistas tão diversos como Burning Spear, TV on the Radio, Sinead O’Connor e Medeski, Martin and Woods.

Musicalmente apostando sobretudo numa linha mais afro-beat, os Antibalas relegaram para segundo plano alguns dos seus temas de influência latina (como «Che Che Cole», por exemplo), tendo o envolvimento político da banda ficado ainda bem patente em temas como «Pay Back Africa» ou «Big Man», justamente na veia do activismo político que tanto marcou o legado do criador do estilo, o nigeriano Fela Kuti.

No final da noite, e para as duas ou três dezenas de espectadores que persistiram em continuar a festa na escadaria exterior de acesso à Casa da Música, houve ainda direito a um prolongamento do concerto, com o “endiabrado” Stuart Bogie e o seu saxofone a indicarem a todos o caminho até aos camarins, após uma brevíssima actuação em plena Rotunda da Boavista, já passava das três da manhã. Nos camarins, houve a oportunidade para novamente cantar os parabéns a Amayo e partilhar alguns breves momentos com estes simpáticos nova-iorquinos que, esperamos, regressem brevemente ao nosso país.



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