AntiPop Report

Um festival diferente

Nos dias 13 e 14 de Agosto, Viana do Castelo, junto ao Forte de Santiago da Barra para ser mais preciso, recebeu um festival diferente de todos os outros existentes nesta época. Maioritariamente constituído por artistas da música electrónica, desde o techno ao electroclash, passando pelo house e o techno-minimal, quase tudo das novas (e antigas) correntes da musica electrónica se podia ver neste dois dias de festival.

Depois de a primeira edição ter, quase, passado despercebida, a aposta da Ofir Produções foi muito maior este ano. Exemplo disso foi a distribuição de flyers nos restantes festivais e de cartazes afixados nas paredes das principais cidades (na minha opinião a divulgação deveria ter sido mais vasta, dado as potencialidades do festival, tanto em termos de nomes como em termos de espaço). O objectivo “maior” da produção era a recepção de 3.000 pessoas por dia para conseguirem pensar numa próxima edição. Se no primeiro dia o número foi alcançado quase à risca o segundo atingiu claramente a meta traçada.

Falando do recinto, foi montada uma pista gigante ao ar livre, com uma acústica bastante aceitável, tendo em conta a localização. Única critica a apontar era o posicionamento das colunas traseiras que não estavam viradas para o público mas para um local onde este não existia (estamos a falar de uma audiência de cerca de 3.000 pessoas e não de um mega festival).

O facto de não ser uma audiência massiva, como acontece em outros festivais, permitiu que as idas ao bares ocorressem sem qualquer tipo de demora e que em qualquer lado do recinto toda a audiência tivesse espaço para dançar sem empurrões nem nada do género.

Com um primeiro dia com uma faixa etária a rondar os vinte e poucos anos rapidamente se percebeu, pelas vestes da audiência, que a maioria estava para ver o DJ do momento: Tiga. Este artista tem-se tornado um fenómeno para as massas, seja por aquilo que a sua música transmite, seja pela sua maneira de vestir, que serve de modelo para muitos. Daí a sua, cada vez maior, afirmação como popstar.

Mas antes deste novo astro da música electrónica veio a actuação de Trentemoller feat Dj. Tom. Pouco tempo depois de ter actuado no OpArt em Lisboa, este dinamarquês voltou a incendiar terras portuguesas com a sua postura contagiante no palco (dançando e pulando) e em termos musicais, não desfazendo temas memoráveis que passou como é o caso de «Killer Kat». No entanto, Trentemoller acabou por ser, quem sabe, a grande desilusão do AntiPop Festival pois apenas conseguiu puxar pelo público pela sua atitude nos pratos e… quando pôs em cena a «Song 2» dos Blur.

Depois da actuação deste artista, melhor produtor do que DJ, veio então o grande momento da noite para a maioria do público presente, com Tiga. Depois do cancelamento da actuação no Festival Sudoeste, a aguardada aparição do autor de «You Gonna Want Me» finalmente aconteceu. O Dj proveniente de Montreal até nem fez dos melhores sets a que nos tem habituado em casas como o Lux e o Industria, mas ninguém pode pôr em causa a sua qualidade enquanto DJ. Passou muitos do seus remixes habituais, como «Washing Up» de Tomas Anderson; «Suffer Well» de Depeche Mode, super extended «Tribulations» de LCD Soundsystem e muitos dos temas do seu álbum “Sexor”. Nota especial para a abertura com o tema «Mandarine Girl» de Booka Shade e para o tema «E-Talking» dos Soulwax, que conseguiu umas das maiores ovações de todo o festival.

Uma actuação dos Booka Shade é sempre algo de surpreendente. É difícil alguém imaginar como é possível o poder sonoro que apenas duas pessoas conseguem transmitir, realizando um live-act, com uma bateria electrónica, um teclado e dois sintetizadores produzindo em tempo real. Fica a dica para verem um report mais alargado de uma actuação bastante similar a esta no passado mês de Julho no Lux aqui.

Para terminar a noite (para ser mais preciso, começar a manhã, já que o sol já estava bem alto) actuou o nosso Rui Vargas que, pouco tempo depois de ter ficado aquém das expectativas no festival da Zambujeira do Mar, conseguiu um set eclético e  bastante bem conseguido, passando temas que iam desde Kraftwerk a Laurent Garnier.

O dia 14 ficou negativamente marcado na organização pela demora nas entradas e positivamente pelo leque de diferentes estilos dentro da música electrónica que nos ofereceu.

Tiger Skin feat. Dub Taylor foram uma das revelações do festival, deixando no ar a dúvida se não teriam um espaço para actuar um pouco mais tarde quando o recinto estivesse mais composto. Em seguida, chegaram os Freskitos, dupla nortenha que, com um set minimal de grande qualidade conseguiu cativar (e de que maneira) o público nortenho, arrastando por mais uma hora do que o previsto o seu set.

Após estas duas boas surpresas a aquecer o ambiente, vieram os “pesos pesados”. Vitalic, aquele que muitos consideram como o último grande nome da electroclash apareceu em cena e… não perdoou. Sendo sincero, até começou por ser meigo, iniciando o seu set com temas de outros artistas, mas assim que começou a rondar o seus mega-êxitos, com «La rock» à cabeça, seguido de «Poney Part 1», os seus maiores hits, parecia que Viana do Castelo se tinha incendiado de novo, mas era só o princípio. As super-guitarras sintetizadas em «No Fun» e «Newman», terminando com o super contagiante «Valleta Fanfarres», geraram a apoteose do AntiPop deixando em a sensação que, se este francês voltasse para um encore, alguma coisa iria abaixo.

Alexander Kowalski foi a grande actuação deste festival, aparecendo acompanhado de Khan, dos Captain Comatose, um homem com cerca de dois metros que se intitulava de Mick Jagger. A sua performance foi simplesmente genial. Conseguiu aliar na perfeição as fortes batidas, já características, a uma voz explosiva de Khan como se fosse um baixo e uma bateria a tocarem em sintonia. Khan apenas apareceu em cena cerca de quinze minutos depois de Kowalski ter aberto as hostilidades, mas apareceu bem forte. Andou no meio do público com o sol bem alto, fez crowd surfing lembrando Michael Stipe em «Drive». “House of Hell”, EP editado no presente ano, foi mais um dos grandes momentos deste AntiPop Festival, pondo todo o público a cantar bem alto!!

Para encerrar em beleza, Mr. Michael Mayer. O “senhor Kompakt” é um DJ especial. É divertido, tem sempre um sorriso contagiante nos lábios e a capacidade de escolher o disco certo na altura certa. Mayer ficou a tocar até às dez horas da manhã e ninguém conseguiu arredar pé porque, cada vez que uma malha acabava, parecia que a outra ainda entrava melhor. O início do seu set percorreu alguns temas clássicos da música electrónica, como «Coloured City» de Laurent Garnier. Cerca de uma hora depois de ter andado a aguçar o apetite dos resistentes (já eram oito e muito da manhã), a organização retirou os três enormes placares electrónicos existentes nas costas de todos os artistas, onde anunciava quem tocava, quem viria de seguida assim como projecções fantásticas (mais uma nota deveras positiva para o festival) e deixou Mayer no meio do palco com um céu azul de fundo. Foi nesta altura que Mayer mostrou aquilo que tão bem sabe fazer, ao melhor estilo de Berlim, servindo um techno-minimal puro, duro e rude, contratempos atrás de contratempos sincronizados como poucos sabem.

O Sr.Kompakt sabe o que faz e fá-lo muito bem. A escolha para encerramento de um festival deste género, depois de tantas horas, não poderia ser mais acertada.

Esperemos que para o próximo ano haja mais, ficando no ar a possibilidade de ser desdobrado em duas partes (uma de dia e uma de noite), como é feito no Sonar, por exemplo.



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