Antonio Campos | Entrevista
"Realizar filmes é algo muito especial e importante. Concluí-los é uma sorte"
Nomeado no Festival de Cannes em 2008, “Afterschool”, do nova-iorquino Antonio Campos, foi um enorme sucesso no panorama do cinema independente. É agora com “Simon Killer” que Antonio Campos, mais ambicioso, chega a Lisboa. Veio para apresentá-lo e também para falar um pouco com a RDB.
“Simon Killer” integra a Competição Internacional do Festival de Cinema Independente – IndieLisboa e é, sem dúvida, um dos filmes que mais atenção e destaque tem gerado.
Simon (Brady Corbet) é um jovem norte-americano com o coração despedaçado, que decide viajar para Paris. Por lá deambula sem qualquer rumo até encontrar uma casa de alterne, um refúgio para o desespero de alma que o consome, uma fuga para a perdição. É aí que conhece Victoria (Mati Diop), uma prostituta misteriosa. Simon apresenta uma personalidade enigmática, perturbada e aflitiva, com rasgos psicopáticos profundos mas pouco definida. O erotismo e o drama psicológico envolvem Simon numa claustrofobia explícita.
A personagem Simon apresenta uma personalidade misteriosa, perturbada e problemática. Podias fazer uma análise dessa personalidade?
Não, não posso analisá-lo, é muito difícil. O público é que tem que chegar a essa conclusão. Ele não é um sociopata, nem um psicopata, ele é humano, contudo revela rasgos de psicopata. A personalidade problemática é fruto de uma estrutura familiar complicada. Há algo de errado com a química psíquica dele.
A banda sonora do filme é brutal, muito indie e electro-pop. Consegue deixar-nos completamente agarrados à narração sem qualquer possibilidade de fuga. Como surgiu?
A banda sonora deste filme surgiu de uma procura que fiz por Paris, tinha ideia do que é que queria. Algumas das músicas descobri-as em bares, lembro-me que descobri a música “It Takes A Muscle To Fall In Love” dos Spectral Display num bar, numa noite em que um DJ estava a passar som; estive lá toda a noite a curtir, foi muito bom. Houve outras músicas que ficaram pelo caminho porque não havia orçamento. Tive que escolher o som que melhor se enquadrava na história do Simon, e para o qual houvesse dinheiro.
Porque escolheste Paris para desenvolver este drama?
Tinha que ser uma cidade na Europa, fora dos Estados Unidos. Era a primeira vez do Simon na Europa e tinha acabado a relação com a namorada, então tinha que ser uma cidade que estivesse associada às mulheres. Para além disso, o primo dele, na história, vivia lá. Havia muitas associações importantes do filme com a cidade. Eu também conheço bem Paris, as ruas e as cores, é uma cidade que eu gosto e me sinto à vontade.
Qual é a tua opinião sobre a prostituição?
Existe.
O teu grande sucesso “Afterschool” conta a história de duas miúdas que têm uma overdose. Hoje em dia como vês a relação da juventude com as drogas?
Acho que as novas gerações se sentem cada vez mais confortáveis com as drogas, em relação às gerações anteriores. Não sei bem o que os miúdos andam a fazer, mas essencialmente acho que provam cocaína mais cedo e também consomem heroína, pelo menos em Nova Iorque sinto que é assim.
“Puberty” foi o teu primeiro filme, tinhas treze anos. Explica-nos como foi produzir essa curta-metragem
Estava a tirar um curso no Film Academy, eles emprestaram-me os materiais. Realizei e fiz a montagem do filme sozinho, com tesoura e cola, um amigo fez câmara e outro tratou da luz. O filme é a preto-e-branco e sem diálogo, porque foi filmado com uma câmara Arriflex de 16mm. A máquina foi inventada para filmar guerras, sem som, depois da segunda guerra mundial ficou para uso dos cineastas. É uma máquina incrível.
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Quais foram os filmes que te influenciaram?
Os grandes filmes que me marcaram foram os do “Indiana Jones”, “Back to the Future”, The “Wizard”, um filme sobre videojogos. Posteriormente comecei a interessar-me por filmes mais pessoais e reais, como “Stand by Me”, “Cinema Paradiso” ou “The 400 Blows”; todos retratam jovens. Depois vi o “A Clockwork Orange”, marcou-me imenso. Estes filmes, em geral, foram a minha grande influência.
Que conselho darias aos novos realizadores?
Os sonhos são para cumprir. Tem que se errar e experimentar todas as ideias malucas até se ganhar certa força e habilidade. O Cinema é muito complicado e difícil – há momentos em que me pergunto porque estou a fazer isto -, mas se tiveres pessoas à tua volta que amas e te apoiam, são momentos ultrapassáveis. O Cinema exige muito tempo e energia, tem que se ser forte e empenhado, continuar a fazer filmes e, em momentos de dúvidas, pensar que a recompensa é maior que a frustração. Realizar filmes é algo muito especial e importante. Concluí-los é a recompensa e é uma sorte.
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Fotografia por Marisol González
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