António Variações

A Rua de Baixo presta homenagem a um dos mais importantes músicos nacionais de todos os tempos. Vinte e um anos depois de “Dar e Receber”.

A recente aventura “Humanos” constitui um momento ímpar, de celebração de um dos maiores mitos da música pop/rock portuguesa de 80.

O disco é um relato vivo daquele que seria o terceiro àlbum de originais de António Variações. A colaboração de pesos pesados do universo musical: Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca, deu nova vida a temas originais do malogrado cantor e consagrou músicas como: “Muda de Vida”, “A culpa é da Vontade” ou “Maria Albertina”.

A vida, no entanto, nem sempre foi fácil para António Joaquim Rodrigues Ribeiro. Nascido a 3 de Dezembro de 1944 em Fiscal, Braga, Variações rumou a Lisboa aos 12 anos e trabalhou num escritório. Mais tarde aprendeu a profissão de cabeleireiro em Amesterdão. De regresso a Lisboa, trabalha no seu ofício de dia e dedica-se à sua paixão, a música, de noite.

Em 1977 assina um contrato com a editora Valentim de Carvalho e as portas do mundo do espectáculo pareciam estar a abrir-se.

Passados quatro anos, Variações surge pela primeira vez na televisão. Estávamos em Fevereiro de 1981 e o artista de Fiscal apresentava o seu “Toma O Comprimido” no programa “Passeio dos Alegres” da RTP. O público e a crítica musical de Portugal rendiam-se às evidências.

A irreverência, a provocação e a urgência de António Variações começavam a dar os seus primeiros passos, numa altura em que já se vivia o boom do rock português: Heróis do Mar, Rui Veloso, Táxi, UHF e Jáfumega.

Pela mão do seu irmão, o advogado António Ribeiro, consegue a edição do seu primeiro disco: “Anjo Da Guarda”. Neste disco destacam-se os temas: “O Corpo é que Paga”, “É P´ra Amanhã” e “Estou Além”.

O álbum, de 1983, e o seu primeiro single, um duplo lado A com “Povo Que Lavas No Rio”, imortalizado por Amália Rodrigues, e “Estou Além”, reflectiam a ideia do artista em relação às suas canções: “fazer um arranjo musical entre a Sé de Braga e Nova Iorque”.

Culto aumenta

A produção acedeu ao desejo de Variações e “Anjo Da Guarda” consagrou o cantor de Fiscal à escala nacional.

O sucessor de “Anjo da Guarda” seria “Dar E Receber, gravado entre 6 e 25 de Fevereiro de 1984. Quatro meses mais tarde, a 13 de Junho, o popular artista viria a morrer devido a um problema brônquico-asmático que se agravou subitamente.

Com o passar do tempo o culto a António Variações foi aumentando. As homenagens, as versões de canções suas e os discos de tributo sucederam-se.

Os exemplos mais significativos foram a excelente versão de “Canção De Engate”, em Abril de 1987, dos Delfins, o álbum “Tu Aqui” de Lena D´Água, com nove inéditos do cantor, e finalmente o disco de tributo “Variações – As Canções de António” que incluía participações dos Mãos Morta, Madredeus e Sérgio Godinho, entre outros.

A identificação com o património musical do artista de Fiscal foi muitas vezes referida: “«É P´ra Amanhã» é uma canção que eu gostaria de personalizar e de fazer passar como se fosse minha”, afirmou Sérgio Godinho à revista TV Guia em 1994. O mérito do autor de “Canção De Engate” residiu precisamente no facto de se reinventar, de mesclar a tradição musical portuguesa com a modernidade e de o fazer com irreverência.

Actualmente encontram-se 43 cassetes, de 60 minutos cada, na posse da editora EMI – Valentim de Carvalho. Nesse espólio residem, provavelmente, verdadeiras pérolas e, quem sabe, futuros alvos de um trabalho de campo digno de “Humanos”. O mais importante, no entanto, é editar essas músicas numa caixa para que as gerações futuras possam conhecer, em toda a extensão, a obra de António Variações.

Poucos foram os artistas que definiram na perfeição o músico minhoto. Coube a Rui Pregal da Cunha, antigo vocalista dos Heróis do Mar, a melhor contextualização do cantor: “O António Variações era genial, tinha uma cabeça completamente aberta, foi um músico não-músico, tinha um amor muito grande pela música e pela tradição musical mas não se fechava em padrões convencionais”.

Para a história ficam dois álbuns brilhantes e um exemplo de vontade de expressão, e de autenticidade, que a música pop/rock nacional só fazia bem em absorver.

– Texto Redigido por Pedro Salgado –



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