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Ao sabor do swing

A História e as histórias do Jazz.

O sentimento é comum a quem faz e a quem ouve: apetece entrar na música e deixar que nos conduza os sentidos… O jazz, ontem e hoje.

Os corações aceleram, o ritmo da canção muda e ao coração respondem os instrumentos. A fórmula que se encontra é a da instantaneidade. E o que se pretende é satisfazer essa vontade de acompanhar o ritmo. E assim se fazem os improvisos, o swing, o jazz. O ‘balanço’ toma balanço nessa vontade e de vontades novas se faz acelerar de novo essa canção… Que já não é só uma canção, mas uma forma de comunicar, um diálogo ou uma conversa, entre o cantor e os instrumentos. Já não é só uma canção, mas uma comunhão de feelings, uma deliciosa junção de tudo o que o ritmo pede e esse swing deixa transparecer. E sempre foi assim. Podem reinventar-se os objectivos, mudar-se as letras e as mensagens das canções ou até criar-se sub-géneros, mas a fórmula mantém-se: o improviso ganha corpo nesse swing que nasce da tal vontade… E a vontade, de fazer música e de a sentir, é sempre a mesma. O jazz, ontem e hoje.

O nascimento

As origens do jazz são controversas. Classificado como uma manifestação artístico-cultural originária dos Estados Unidos, por volta de inícios do século XX, não se sabe ao certo o ano em que o jazz terá nascido, como refere Nana Sousa Dias, saxofinista: “O Jazz nasceu no Delta do Mississipi, por volta do princípio do sec. XX. Pensa-se que por volta de 1900 mas, a primeira gravação de que há registos, foi em 1917. Nasceu da fusão entre vários estilos de música popular, nomeadamente, o Ragtime, o Blues, os Espirituais Negros e ainda alguns estilos de música popular americana e europeia. Nessa época, o jazz não quebrou fronteiras, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, era uma manifestação cultural perfeitamente localizada e circunscrita. Só muito mais tarde o Jazz quebrou fronteiras dentro dos Estados Unidos, alastrando-se a todo o país e, mais tarde à Europa, começando por Paris, tendo depois alastrado ao resto da Europa e finalmente a todo o planeta. Não me parece que o Jazz fosse ou seja ainda hoje uma forma de afirmação, como é algumas vezes indicado, pelo menos por parte dos músicos. Essa foi uma ideia criada por outros agentes envolvidos na actividade musical, com outro tipo de interesses. Muitos dos clubes onde se tocava Jazz eram os chamados “speakeasy”, bares que, durante a lei seca, eram mais ou menos clandestinos, talvez por isso fossem instalados em caves ou lugares pouco visíveis. No entanto o Jazz não era nem nunca foi ofensivo e em muitos salões de dança elegantes, a música que se tocava era o Jazz. De 1920 a 1950 a música de dança, por excelência, era o Jazz. Por volta de 1945 surgiu o Bebop, pela mão de Charlie Parker e Dizzy Gillespie o que “abriu” um outro caminho ao Jazz, esse bem menos comercial.” Uma ideia partilhada por Laurent Filipe: “Tal como tantas outras manifestações culturais de raiz afro-americana o Jazz desenvolve-se através do tempo de uma forma contínua. A ideia, por exemplo associada ao jazz de que se tocava em caves, um pouco ‘às escondidas’, ou como forma de afirmação, é um falso mito. As grandes figuras como Louis Armstrong ou Bessie Smith nunca se esconderam do imenso público que tiveram, pelo contrário.”

Na sua origem estão expressões como ‘all that jazz’, o que em português significa: ‘o que está na rua’, ‘o que vai para ali’. Atribui-se a inauguração da palavra ao grupo de Nick la Roca, tendo sido ele a gravar o primeiro disco com a sua Original Creole Jazz Band…” Com um conteúdo rico, o jazz enquanto corrente musical, trouxe a associada a interessante mistura de utilização dos mais variados instrumentos, como acrescenta o saxofonista Nanã Sousa Dias: “Por volta de 1900 havia 2 tipos de grupos de Jazz, os que actuavam em clubes e salões, por um lado, e por outro, as “Marching Band”, bandas itinerantes que tocavam enquanto caminhavam nas ruas, nomeadamente, em funerais e também casamentos, festas, etc.

Violino, trompete, trombone, clarinete, saxofone, contrabaixo, piano, banjo, guitarra, contrabaixo, tuba, flauta, bateria, etc. podiam ouvir-se com frequência nestes dois grupos.”

As ligações à música africana

Fruto de vários géneros, o jazz encontra na música africana algumas das suas influências, como adianta o saxofonista: “Há, de facto, ligações entre a música africana e o Jazz, principalmente da costa ocidental africana, pois era de lá que ia a maioria dos escravos para trabalhar na zona do Delta do Mississipi. A componente rítmica do Jazz tem, sem dúvida nenhuma, raízes tribais africanas, disso ninguém tem dúvida. As origens artísticas são muitas, pois o jazz é hoje um imenso território musical com influências variadíssimas. No entanto, nos primórdios, os Blues, o Ragtime e os Espirituais Negros foram as maiores influências. A partir de 1920, a música sinfónica teve, igualmente, um papel importante no Jazz. Orquestras (Big Bands) como a de Fletcher Henderson e a de Duke Elligton passaram a incluir, nos seus arranjos, elementos musicais influenciados pela música sinfónica e estas Big Bands anunciavam mesmo um novo estilo, o Symphonic Jazz.”

Os sub-géneros

Outras sub-correntes ou outros sub-géneros musicais terão, então, nascido, tendo o jazz como progenitor, como explica Nana Sousa Dias: “Existem hoje em dia muitos estilos dentro do Jazz. Desde 1900, temos o Ragtime, o Blues, New Orleans Jazz, Dixieland, Symphonic Jazz, Swing, Bebop, Hard Bop, Free Jazz, Cool Jazz, Latin Jazz, Bossa-Jazz, Electric Jazz, Jazz-Rock, Fusão, Ethnic Jazz, Acid Jazz.”  Uma ideia partilhada por Laurent Filipe: “Toda a música “moderna” pos segunda guerra mundial é subsidiária do blues e do Jazz, a começar pelo rock´n roll.”

A capacidade de improvisação

Aqui e agora, o jazz faz-se de uma vontade que surge num momento próprio e encontra no mproviso a sua principal ferramenta. “O Jazz é “improvisação” organizada e a improvisação é uma das bases de negociação do tempo e do espaço: acontece agora, ali e não é repetível. Sem uma forte componente de improvisação não temos Jazz. É isso que o diferencia de outras músicas.”, refere Laurent Filipe. E hoje, será que essa capacidade se mantém? “Sem dúvida que se mantém, Jazz sem improvisação não é Jazz, pelo menos, até agora tem sido assim e espero que não mude. O Swing continua a ser um ritmo bastante usado no Jazz, embora tenha evoluído bastante relativamente ao ritmo usado na época do “Swing”, ou seja, por volta de 1930-1940. Swing significa em inglês “balanço” mas, o termo também é usado para definir um estilo de ritmo desde sempre associado ao Jazz e ainda para referir a época das Big Bands de Jazz que tocavam em salões de dança. Quanto à improvisação, ela é, muito provavelmente, a verdadeira essência do jazz e o que o distingue da maioria dos outros estilos de música.” E será esta capacidade associada à antiga ideia de quem toca jazz, tem ‘bom ouvido’? “isso é um mito. O que acontece, na realidade, é que o Jazz é um estilo de música onde o poder de improvisação é muito importante. O músico de Jazz não tem, necessariamente melhor ouvido do que um músico de outras áreas musicais. O que, normalmente, acontece é que o músico de Jazz tem o ouvido musical bastante treinado porque uma parte importantíssima dos estudos necessários para se tocar Jazz é exactamente o treino de ouvido.

O ouvido musical é um ‘instrumento’ que precisa de ser ‘tocado’ ou seja, desenvolve-se, praticando. Muitos músicos de outras áreas musicais em que não é necessário improvisar tanto ou mesmo nada, têm um ouvido muito melhor do que pensam, apenas está em bruto, pouco ‘polido’.” Uma ideia partilhada por Laurent Filipe: “Qualquer músico seja de que musica for tem que ter bom ouvido se quiser ser um bom musico.  Os músicos de Jazz estão treinados para inventar (improvisar) no momento e isso implica ouvir tudo o que os rodeia. Um chefe de orquestra tem que conseguir ouvir tudo o que se passa na orquestra tal como um bom mecânico tem que perceber o trabalhar de um motor… Estas são faculdades que se desenvolvem com o tempo…e demoram muito tempo!  Faz parte do nosso instinto de sobrevivência aprendermos a ouvir o que nos rodeia. Esse instinto é que está cada vez menos aproveitado!”

Hoje…

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… Será hoje a vontade de fazer boa música igual à que era quando surgiu o jazz? Estará o jazz de ‘boa saúde’? “O Jazz é uma “força viva”, em constante evolução. Existem hoje em dia músicos fabulosos, como sempre existiram. Ao nível da composição, o Jazz “Main Stream” tem-se afastado, ao longo dos anos da componente mais comercial, o que é perfeitamente natural, sendo actualmente considerado um estilo de música bastante evoluído e erudito. Não tenho dúvida nenhuma de que o Jazz continuará a evoluir e é um facto indesmentível que começou no século XX a ser tocado nas ruas e nos clubes e entrou no Século XXI a ser tocado nas melhores salas de concertos de todo o mundo, sem nunca ter abandonado completamente as origens, ou seja, os clubes. Essa é uma característica única do Jazz, o facto de podermos ver um músico de alta craveira a tocar numa sala de concertos em Paris hoje e vê-lo a tocar daqui a uns dias num clube de Nova Iorque onde não cabem mais de 150 pessoas. Penso que o que está a acontecer é a evolução natural, inevitável e, do meu ponto de vista, desejável. Eu continuo a considerar que existe uma ‘Main Stream’ que, apesar da evolução, é perfeitamente identificável. Se ouvirmos um disco do Bill Evans gravado em 1965 e o compararmos a um disco do Brad Meldhau gravado em 2006, claro que vamos notar diferenças mas, conseguiremos sentir que há um fio condutor, a tal Main Stream’. Acho que o Jazz em Portugal nunca esteve de tão boa saúde, apesar do incêndio no Hot Clube, o nosso clube mais antigo que, penso, voltará a abrir, muito brevemente.

Temos muitos novos nomes, músicos com excelente formação, o que se deve em grande parte às muitas escolas de Jazz um pouco por todo o país. Destaco, no entanto, o excelente trabalho que vem sendo desenvolvido pela Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. As autarquias têm também sido muito importantes no desenvolvimento do Jazz, pois têm apostado em concertos, festivais e workshops, incentivando, deste modo, a prática do jazz junto das populações locais. Os nomes que fazem o Jazz actualmente, em Portugal, são muitos. Além dos consagrados Mário Laginha e Maria João, Carlos Barreto, Carlos Bica, Bernardo Sassetti, Mário Delgado, Claus Nymark, Carlos Martins, Laurent Filipe, irmãos Moreira, Carlos Azevedo, etc. existem hoje muitos músicos de uma nova geração tal como Bruno Santos, Afonso Pais, André Fernandes, Júlio Resende, Zé Maria, Desidério Lázaro, etc.”, refere Nanã Sousa Dias. Para que público se faz hoje o jazz? Felizmente que hoje temos cada vez mais gente a interessar-se, graças aos festivais, centros culturais e ao “passa palavra”.  A mediatização de um artista, tal como me aconteceu com o “Ídolos” ajuda muito a despertar a curiosidade do publico em geral e isso é muito bom.  Espero que esse publico se continue a interessar pela musica que faço há mais de trinta anos, que gostem, que transmitam a outros e que nos continuem a apoiar, percebendo que esta é a nossa voz, que não tem cor nem fronteiras e que são precisos muitos anos de esforço, dedicação e sacrifício, para se chegar lá…mas vale a pena!”, uma ideia partilhada por Nana Sousa Dias. “O Jazz, fruto da sua constante evolução, tem público de todas as idades. Em 1945, poucos eram os que gostavam do jazz de Charlie Parker, hoje são muitos os que ouvem os seus discos. Em 1960 poucos eram os que ouviam John Coltrane, hoje são muitos. O Jazz moderno é, sem dúvida, um pouco difícil de entender para quem não está por dentro do assunto mas, daqui a alguns anos já não será. Nessa altura, provavelmente, o Jazz moderno da época, será também só para algum público mais esclarecido enquanto outros estarão ouvindo com prazer aquele que é o actual Jazz moderno. O que é um facto é que o Jazz é um estilo de música em constante evolução, bem como o seu público.”



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