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“Apenas o Fim do Mundo”

Baseado na peça teatral homónima escrita por Jean-Luc Lagarce, o filme de Xavier Dolan debruça-se sobre um tema particularmente incomodativo: a morte anunciada de alguém que amamos.

Uma crua realidade com que todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, nos havemos de deparar, com ou sem pré aviso. O diferencial, neste enredo, é o facto de esta morte anunciada ser um tema palpável, real, e que não pede autorização para entrar no interior da casa de uma família, naquele que tinha tudo para ser um domingo como outro qualquer.

Louis (Gaspard Ulliel) regressa com esta notícia após estar 12 anos desaparecido, onde hoje apenas encontra mágoas e angústias há muito enclausuradas e que em nada se fazem esconder. O interior da casa desta família é o pano de fundo de todo o enredo e este enclausuramento não demora a ser incomodativo para nós, meros espetadores da morte, que aos poucos vamos sentido na pele o mau estar que se instaura e que não parece ter hora para sair de cena.

Toda e qualquer palavra ou situação de empatia parecem sabotadas mesmo antes de serem proferidas e não há qualquer nota cómica capaz de atenuar o pesado drama que cai um pouco por todas as personagens. Talvez Xavier queira, de facto, que sintamos ao que sabe a devastação de guardarmos connosco a notícia de que estamos perante as portas da morte e que nada mais nos resta senão entregarmos essa notícia a quem mais amamos.

Isto porque Juste la Fin du Monde não é um desastre (como foi Mommy [2014], filme anterior de Dolan), mas antes um filme intensamente irregular, caraterísticas que facilmente reconhecemos a este realizador. Quando lhe foi atribuído o prémio do Júri em Cannes, este agradeceu ao júri e admitiu que ao rever a sua obra, sente a sua emoção como se fosse sua. “Nem sempre é fácil dividir as nossas emoções com outras pessoas”, disse, complementando que esperava não ter decepcionado Jean-Luc Lagarce. Dolan disse ainda que tudo que as pessoas fazem na vida, fazem na esperança de ser amadas e aceites. “Pelo menos é assim comigo”, terminou.

Não existe ‘teatro filmado’ em cena, mas sim uma excelente direção de fotografia, levada a cabo pela mão do talentoso André Turdin, onde, dentro da naturalidade do texto, cada situação, expressão e movimento dos personagens ganha dimensão própria e apodera-se de nós por sabermos que podíamos ter sido nós, naquele momento, a sentir a morte do nosso irmão daquela forma. A excelente edição traz-nos cenas com close-ups extremos através dos quais cada personagem aparenta estar sozinha na sua dor, muito embora com plena consciência de que não está.

Na verdade, naquela sala, moram amor e solidão, saudades e angústias, do passado e do futuro, todos unidos por um mal comum: o fim (do mundo).



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