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Arquitectura com pronúncia do norte

Que o Porto tem os seus encantos, todos sabemos, mais que não seja porque não são de agora. Contudo, linguagens arquitectónicas contemporâneas de excepção têm vindo a pontuar aqui e ali a cidade. Da dinâmica Casa da Música à multifacetada sede da Vodafone, não esquecendo as perspectivas longitudinais do Museu Serralves, o Porto é um “destino arquitectónico” obrigatório.

É conhecida como a Cidade Invicta e reconhecida pela gastronomia, pelo vinho, pelo centro histórico catalogado pela Unesco como Património Mundial, pela Ribeira, ou pela ponte D.Luís. É a cidade de grandes nomes da arquitectura nacional, tais como Siza Vieira, Eduardo Souto de Moura ou Fernando Távora, e está hoje nos roteiros da arquitectura contemporânea mundial. Falamos do Porto, a cidade para onde Rem Koolhaas projectou a Casa da Música, Siza Vieira o Museu Serralves, e a dupla Barbosa & Guimarães a nova sede da Vodafone.

Uma Avenida e tanto!

Em plena Avenida da Boavista, a nova sede da Vodafone assume-se como um marco arquitectónico e como um elemento de ruptura com a sua envolvente. De betão branco e linhas dinâmicas e arrojadas, o volume foi projectado por José António Barbosa e Pedro Guimarães, do gabinete Barbosa & Guimarães, e foi o escolhido de um universo de vinte propostas porque, como referiu o júri aquando o concurso de arquitectura lançado pela operadora, transmite “uma ideia de movimento e dinamismo que reflecte a imagem de referência da Vodafone”. Erigido num lote de 1970 metros quadrados, a nova sede da Vodafone conta com 19 metros de altura, cinco pisos acima do solo e três no subsolo. Os quatro últimos pisos foram pensados e concebidos em sistema open space, e o piso térreo conta com um auditório e um refeitório, entre outras valências. Concebida no final do século XIX, a ampla Avenida da Boavista tem no seu início outro marco da cidade e da arquitectura contemporânea: a Casa da Música de Rem Koolhaas. Mas os encantos arquitectónicos desta avenida portuense não ficam por aqui; nos seus seis quilómetros de excepção deixaram marca Ginestal Machado, com um edifício de escritórios, Alcino Soutinho com o edifício do BPI e Eduardo Souto de Moura com o Centro de Negócios Burgo.

O Diamante

Será um pássaro? Um meteorito? Um Diamante? Não, é a Casa da Música, a nova casa da Orquestra Nacional do Porto, situada em plena praça pública, no centro da Rotunda da Boavista.

Odiada por uns e amada por outros, esteve no centro de enormes polémicas, foi apontada e até crucificada, mas hoje, é um marco do que de bom se faz em arquitectura, um ponto de referência a norte do País, e um edifício que leva estudantes, arquitectos e curiosos a fazer quilómetros. De acordo com Rem Koolhaas, “nos últimos trinta anos, vários arquitectos fizeram tentativas desesperadas para escapar da denominação de ‘caixa’ para as salas de concertos”, explica o arquitecto na memoria descritiva do projecto. Contudo, “ao invés de lutar contra a superioridade acústica inevitável desta forma tradicional, optámos por revigorar a tradicional sala de concertos através de uma redefinição da relação entre o interior e o exterior”.

Dinâmica, multifacetada e erigida em betão branco e áreas envidraçadas, assim é a caixa musical de Koolhaas. No interior, o Grande Auditório, concebido como uma massa escavada, abre-se à cidade, através de uma fachada em vidro ondulado, e oferece o Porto como cenário dramático para performances.  Mas o espaço também contém áreas menores, cerca de dez salas de ensaio, estúdios de gravação, espaço educativo, restaurante, esplanada, bares, sala VIP, áreas de administração e um parque de estacionamento subterrâneo para 600 veículos. Rem Koolhaas utilizou ainda os materiais de uma forma inovadora, sublinhando mesmo que essa foi uma questão “imperativa”. Entre eles estão as paredes de vidro, as paredes revestidas a madeira compensada com os padrões gravados em dourado, azulejos pintados, azulejos em preto e branco num padrão geométrico que fazem as delícias do terraço, e pavimentos em alumínio. De acordo com o documento descritivo do projecto, Rem Koolhaas caracteriza a Casa da Música como “uma aventura arquitectónica”, nomeadamente porque não existe deliberadamente nenhum hall de entrada, tendo o arquitecto holandês e cabeça dos OMA, optado por uma rotunda contínua que liga os espaços em torno do Grande Auditório através de escadas, plataformas e escadas rolantes.

A simplicidade de Siza

Depois das fachadas dinâmicas e das superfícies multifacetadas, chegamos à simplicidade e horizontalidade de Siza Vieira e do seu Museu Serralves. Uma peça envolvida pelo Parque de Serralves (com cerca de 3,5 hectares), onde obras de arte de vários artistas contemporâneos são expostas ao lado da flora típica da região norte de Portugal. Siza prescindiu de uma fachada monumental deixando a condição do edifício enquanto museu acentuar-se “pelo modo como cada elemento interage entre si, proporcionando ao visitante uma perspectiva harmoniosa do espaço”, pode ler-se no portal do Museu. Construído de forma longitudinal, de Norte para Sul, o edifício compreende um corpo central que se divide em duas alas, que por sua vez são separadas por um pátio, dando origem a uma estrutura em U e a uma construção em forma de L. Num edifício caracterizado pela simplicidade das linhas rectas e longitudinais, as perspectivas ganham destaque. Elas sugerem aos visitantes prolongamentos para o exterior ou fugas para o jardim, e a organização do espaço expositivo permite percursos inesperados e oferece flexibilidade e funcionalidade à realização de actividades. Estes são três dos exemplos que elevam a cidade do Porto a destino cultural obrigatório, uma espécie de turismo arquitectónico que promete ser completo, inesperado e interessante.

Caixa:

Foi no início da década de 90 que Álvaro Siza Vieira foi convidado para conceber um projecto museológico que tivesse em consideração singulares condições de espaço e de integração paisagística, o Museu Serralves. Segundo o sítio da Internet da Fundação Serralves, “os primeiros estudos datam de 1991 e a construção iniciou-se cinco anos depois”.  O edifício nasceu no espaço da horta da antiga Quinta de Serralves, uma zona que, devido ao seu declive, permitiu semi-enterrá-lo, minimizando o seu impacto no espaço envolvente. Uma escolha que, de acordo com a mesma fonte, “permitiu, ao mesmo tempo, evitar o abate de árvores e facilitar o acesso do público ao Museu”. Em 1998 iniciou-se o arranjo paisagístico da envolvente, da autoria de João Gomes da Silva. “Uma das principais premissas na origem do projecto foi a relação que o edifício estabelece com o exterior através das amplas janelas, tendo-se optado pela introdução de vegetação originária do Norte de Portugal”. Esta nova paisagem veio acentuar a importância da luz enquanto elemento potenciador de diferentes perspectivas sobre o edifício e os espaços que o envolvem.



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