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Arranha-céus de J.G. Ballard

Câmara subjetiva

Robert Laing, professor de medicina, é um dos dois mil inquilinos de um imponente edifício de quarenta andares situado nos arrabaldes de Londres e que prima por uma arquitetura arrojada de coração modernista, fruto de uma visionária cultura de meados da década de 1970.

Dentro das muitas paredes do edifício os luxos são muitos e a sua facilidade de acesso, via elevador, faz com que não seja necessário sair para a rua para usufruir de ginásio, piscina ou supermercado.

As rotinas aburguesaram os inquilinos mas o ambiente está longe de ser normal e, aos poucos, as situações caricatas e anormais tendem a ameaçar a tranquilidade aparente desta sociedade vertical. Os primeiros sinais de rutura surgem quando os automóveis são alvos de violência, depois os próprios moradores. Como um autêntico efeito baralho de cartas, os incidentes sucedem-se e surgem as primeiras vítimas.

De forma a entender e registar os bizarros e inesperados acontecimentos, Richard Wilder, realizador de comentários, avança no meio do caos, de câmara em riste, e grava um inexplicável avolumar de violência e destruição cujo único responsável é o indivíduo movido por um sentimento de sobrevivência egoísta, duas das mais inatas características à raça humana.

Num misto de anarquia e alucinação, e assumindo-se como um dos maiores herdeiros da narrativa de H. G. Wells, o mítico J. G. Ballard, reconhecido autor de obras controversas como “Crash” ou “Noites de Cocaína”, lança um interessante desafio ao leitor com “Arranha-Céus” (Elsinore, 2015) e leva-nos a colocar em causa a filosofia das sociedades modernas que, apesar de viver no “conforto” de tal opta por demonstrar uma vivência primitiva.

E é, talvez, por este conjunto de incongruente aceções que constatamos que “Arranha-céus” não é um livro fácil de catalogar. Ainda que com alguns tiques de ficção científica, a ação remete para meados da década de 1970 de uma Londres envolta de ambiente distópico e o autor aposta numa reflexão do comportamento humano que a psicologia dificilmente conseguirá contextualizar.

Para, e por tal, Ballard opta por isolar o Homem de qualquer laivo de humanidade, remetendo-o trancado numa jaula emotiva e emocional, e sujeito a avalanches de stresse que o empurram para intrincadas estruturas sociais onde a moral comunitária e do próprio indivíduo colapsa. A seleção e separação que o ser humano é vetado neste livro criam uma comunidade de cerca de duas mil almas com algumas afinidades profissionais e que mais tarde reforçam essa identidade por via de uma traumática experiência a que estão sujeitos.

Pelo meio da narrativa, por vezes matematicamente factual, surgem dúvidas, momentos de alguma perplexidade, mas tudo nasce do exercício psicológico que o autor faz da calendarização evolutiva dos acontecimentos, desde dos tempos de pacata normalidade até aos primeiros sinais de caos. Os dogmas são colocados em causa e a própria infraestrutura que pensamos inata, e que é sinónimo de um certo conforto, pode ser um alerta em forma de uma rebeldia dos elementos (des)funcionais (os elevadores param entre andares, a eletricidade regista falhas, os canais de envio de lixo estão encerrados, o ar condicionado funciona mal, os lugares de estacionamento são quase inacessíveis…).

Por outro lado, a inicial homogeneidade social, e mesmo burguesa ou aristocrática, dos inquilinos quebra ao menor sinal de tensão e reside na verticalidade do próprio edifício, e na distribuição dos andares, algumas das maiores metáforas de “Arranha-céus” pois à medida que as páginas são folheadas a noção que estamos perante uma efabulação da vida moderna explode, colocando a olho nu uma exacerbação egoísta da própria noção de comunidade. No fundo, e apesar de viverem em conjunto, é a solidão que mais “une” as partes humanas no prédio onde o código moral há muito foi colocado em causa.

Profundo exercício intelectual sobre a premissa da urbanidade e dos limites da liberdade individual e coletiva, “Arranha-céus” coloca ainda em causa as noção de isolamento, emancipação social, identificação de classes e estratos, a ténue linha entre a racionalidade e o espírito animal (selvagem) de sobrevivência, e a noção de crise e de todos os impulsos que dela resultam e que levam a maioria a espezinhar a “oposição”, mesmo que a mesma seja lógica e pertinente.

Também importante é a coagitação feita à ação e meandros da prevalência subconsciente de quem age por influência de uma gratificação e hierarquização dos problemas quotidianos e pode, na fronteira do bom senso, levar a uma alienação gratuita da moderno quotidiano por via de uma “simples” câmara de vídeo que transforma um minuto real em momentos dignos de um reality show sem regras que se alimenta de tragédias, desastres, crimes e acidentes.

E é também nesse limbo entre real e ficção que se movem os personagens desta intrigante obra de Ballard, principalmente por parte de Wilder que tem a ideia de criar um documentário repulsivo mas atraente do ponto de vista sociológico ou do arquiteto que idealizou o edifício e vive no topo do mesmo (e porque não dizê-lo da pirâmide social) e que assume um privilegiado papel de salivante espetador.



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