As canções d´A NAIFA

As canções d´A NAIFA

A Naifa sai hoje à rua com "As Canções". Um disco que é um cartaz de uma manifestação urgente, de todos, de Portugal. Ou uma declaração de amor. Ou um ultimato? Sempre a ele, ao país. O fundo é sempre poético, inteligente e cortante como só A Naifa.

Hoje chegam As Canções d´A Naifa. O novo e quinto álbum da banda portuguesa prestes a celebrar os seus dez anos de existência.
Hoje, dia 4 de Novembro 2013, no mesmo ano em que a banda é distinguida com o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores pelo melhor álbum de 2012, “Não se deitam comigo corações obedientes”.

E como os prémios são como a riqueza, servem apenas para partilhar, A Naifa que chegou em 2004 com Canções Subterrâneas, hoje, depois de dez anos com sonoridades do fado contemporâneo ao pop e rock, vem partilhar com o país pátria, não em forma de dádiva mas num chamamento angustiante ainda que em profundo amor, o que sabe fazer melhor: Canções.

Estas, as nove deste disco, já estão feitas por autores e bandas: GNR, Fernando Tordo, Vitorino, Simone de Oliveira, Três Tristes Tigres, Paulo Bragança, Amália Rodrigues, Paulo Bragança, Mler If Dada, De anos e géneros diferentes do pop, ao rock e ao fado, todas elas, hoje, revelam uma actualidade brutal, sendo por isso, precisamente hoje, revisitadas na ponta cortante d´A Naifa.

A banda encontrou, em cada uma das nove canções do disco, um denominador comum: São portuguesas, de e para Portugal.

Falam-lhe directamente ao ouvido, ora brusco ora inquieto ora honrado “ Eu não atirei o barco ao mar para ficar pelo caminho”, Inquietação de José Mário Branco. São de um país que parece surdo e mudo, “Ó meu amor se fugirmos, ninguém saberá de nada”, Libertação, Amália Rodrigues. E hoje, mais do que nunca devem ser cantadas para este país ouvir. “Os meus sentidos pêsames, que pena não viveres mais aqui”, Sentidos Pêsames, GNR. Porque a palavra repetida não perde força ou sentido, antes ganha, Minha palavra dita à luz do sol nascente, meu madrigal de madrugada, amor amor amor amor amor presente”, Desfolhada, Simone de Oliveira. E é amor e força que sente em cada um dos temas deste disco, de início a um fim que toca a Inquietação de José Mário Branco, inquietação, inquietação, inquietação.

Mas é do encanto e do desencanto que leva Portugal embalado no sono profundo perigosamente perto da morte que as canções querem fugir. Às vezes não é preciso fazer de novo, nem empreender, nem partir. É preciso parar e ouvir o que os poetas como David Mourão Ferreira e Ary dos Santos escreveram nestas canções. Um disco que nas suas versões diz que o essencial, tal como as canções, está cá, no país. Está mas não se ouve. A Naifa, há dez anos que pelos seus concertos as vai cantando como num despertar das consciências que seguiram a Naifa num rastro de êxitos até hoje. Ou seja nós ouvimos. A Naifa notou e agora reúne como sabe e como pode porque quem vence o prémio de melhor álbum pode tudo e pode mais e fá-lo quando podia não fazer e fá-lo quase sem respirar num intervalo de menos de um ano.

Porque agora é mais que hora. Porque já é tarde. Faça-se ouvir! É isto que oiço faixa a faixa.

É isto que o single de apresentação que teve como escolha a Tourada não quer perder tempo a que se perceba. Sim “com bandarilhas de esperança afugentamos a fera. Vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça e fazermos da tristeza graça”.

Hoje quando recebi este disco para ouvir e fazer sua crítica não era um hoje qualquer. Terminava precisamente hoje um curso em que a lição geral era estar em propósito, em missão. E os Naifa estão, desde sempre, desde que os conheço e o amo da ponta dos pés da Mitó, empinados e cheios de jeitinhos e bater no chão dos palcos do Avante, até ao alto das guitarradas do Luís Varatojo no topo do Castelo de São Jorge na festa do Fado.

Hoje estão em missão mais do que nunca. Dos galões vieram canções e delas venham revoluções. Grandes Naifa!

E há que ouvi-los com toda a dignidade. Uma banda grande desde início na sua ambição e diferença de vestir nova roupa ao fado e aos sentimentos a roçar as ruas e os bairros e a cidade, sempre a cidade, sempre as pessoas e os sentimentos e sempre o amor. Uma banda enorme que podia ter caído quando uma parte do coração deixou de bater. Uma Naifa distinta que fez da ressaca da perda do grande João Aguardela um amor ainda maior. E que continua a ter para dar. E enquanto todos tiram, todos roubam, A Naifa dá-nos a Canções d´A Naifa que no fundo já são nossas e só mostram isso mesmo, que estão connosco e trouxeram canções. E nós o que trazemos para a rua e do que estamos à espera?

Um disco feito de propósito para ti Portugal. Feito em propósito de te acordar. Acorda e ouve(te). É isto que se ouve faixa a faixa.

Eu não consegui revistar canção a canção do alinhamento do disco. Fiz apenas este texto. Um elogio. No fundo quis estar em consonância com A Naifa.

Também fizeram um elogio em disco. Estejamos todos em consonância. Vamos ouvi-los. Já. As Canções d´A Naifa são as nossas revoluções.



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