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As jóias de Diana Silva e Teresa Milheiro

A joalharia é uma arte. No Espaço Tranquilidade, encontra-se patente uma exposição que junta os trabalhos de Diana Silva e Teresa Milheiro, duas artistas com quem estivemos à conversa.

Organizada pela Ar.Co e comissariada por Tereza Seabra, encontra-se patente no Espaço Arte Tranquilidade, até dia 3 de Julho (de Terça a Sexta das 12:30 – 19:30), uma exposição de joalharia com trabalhos de Diana Silva e Teresa Milheiro, onde o tema predominante é o Corpo Humano.

Uma das particularidades desta exposição é a utilização de materiais que podem ser considerados “não convencionais” na joalharia, tais como aparelhos cirúrgicos e dentes de vaca. De todas as peças expostas gostaríamos de destacar a peça “Desesperadamente procurando uma ruga”, o colar “Órgãos e Veias”, e uma camisa muito interessante, baptizada de “My Second Skin”.

As joalheiras/artistas são Diana Silva e Teresa Milheiro, com quem tivemos a possibilidade de trocar algumas impressões acerca desta exposição, bem como perceber um pouco o seu percurso, trabalho e a realidade da joalharia em Portugal.

RDB – Podem falar-nos um pouco de vocês? O vosso percurso e o que fazem hoje em dia.

Diana Silva (DS) – Eu comecei no Ar.Co. Centro de Arte e Comunicação em 1997 e fiz o meu curso de Joalharia em quatro anos, com Tereza Seabra, Alexandra Serpa Pimentel e Cristina Filipe. Tendo no último ano uma bolsa de mérito. Em 2000 entrei para o Curso Avançado de Artes Plásticas tendo como tutores Tereza Seabra e Manuel Castro Caldas. Apoiada mais uma vez por uma bolsa de mérito. Acabei o curso em 2002.

No Verão do mesmo ano tomei rumo para a Itália, Campus dell’Art de Fausto Maria Franchi em Tody. Um curso muito especifico em micro-fusão de metais. Em Setembro mudei-me para Florença, para estudar com Manfred Bischoff, na Alchimia, uma escola de joalharia e design experimental.

No ano de 2003 fui convidada pelo director do Departamento de Joalharia da Fachhochschule Trier em Idar-Oberstein a fazer um ano lectivo, no curso de lapidação. Em 2004/05 foi simplesmente o máximo. Eu sou completamente viciada na lapidação de pedras, adorei e acho que mudou completamente a minha vida.

No ano seguinte dei algumas aulas no Ar.Co. e organizei o meu primeiro workshop e a primeira exposição que organizei, no Observatório Astronómico de Lisboa. O que foi um completo avanço na minha carreira e me deu imensa auto-confiança. Em Setembro de 2007 segui rumo a Birmingham, onde acabei por fazer o meu Mestrado em Jewellery, Silversmith and Related Products no Birmingham Institute of Art & Design. Agora continuo em Birmingham, onde já criei raízes, a fazer joalharia, a melhorar o meu Inglês, e a planificar o meu futuro Mestrado. Ando ainda a tentar entrar, como Professora,  para uma das muitas Universidades do Reino Unido.

Teresa Milheiro (TM) – Faço joalharia há 24 anos. Comecei na António Arroio, depois estive 4 anos no Ar.Co e terminei em 1991. Desde essa altura tive várias exposições tanto a nível nacional como internacional, representei Portugal duas vezes nos Jovens criadores e em 96 fui júri para escolher os representantes de joalharia. Também fui uma das fundadoras da ZDB galeria Zé dos Bois. Depois estive 10 anos a criar colecções de joalharia inspiradas em património para a empresa Archeofactu e hoje em dia sou proprietária da Galeria ARTICULA, onde exponho e crio as minhas peças, para além de representar vários artistas na área da joalharia contemporânea.

Quando começou o interesse pela joalharia e porquê?

DS – Em 1996 eu já estava farta de ter aulas tão teóricas, básicas e simplesmente chatas, queria algo mais prático. Lembrei-me então dos “Iconos com a Virgem e o menino Jesus” que eu vi em 1991, em algumas igrejas que visitei em Moscovo e Yaroslavl. Os Iconos chamaram a minha atenção por causa de toda aquela ostentação da prata, dourados, pedras preciosas… simplesmente magnífico. Porque não Joalharia… E comecei a minha Cruzada.

Têm algum joalheiro preferido que vos tenha “chamado” para a Joalharia?

DS – Não, pois quando comecei a aprender joalharia não sabia ainda nada de joalharia contemporânea.

TM – Não. Considero que o meu imaginário é suficientemente fértil para necessitar de ser influenciada por alguém.

Quando criam as vossas peças já é a pensar numa exposição ou criam e depois entendem que afinal têm todas o mesmo tema e até daria uma exposição?

DS – As minhas peças são sempre criadas com uma ideia ou conceito, já predefinido. A maneira de expor as jóias ajuda-nos a entender a ideia. Com o meu background vindo das Artes Plásticas há sempre uma necessidade de apresentar fotos e outras maneiras que me levam sempre mais além da joalharia.

TM – Não. Quando crio uma peça é por uma necessidade minha de exteriorizar uma ideia e materializá-la numa peça. Não costumo fazer esses cálculos. Em primeiro lugar faço os trabalhos para mim, depois se os outros gostam, fantástico.

Como vos foi lançado o desafio para esta exposição? Todos os objectos parecem estar relacionados com o corpo humano. Foi esse o mote?

DS – Esta exposição foi-me proposta pela amiga e ex-tutora Tereza Seabra. Com a intenção de mostrar a retrospectiva do meu trabalho, como ex-aluna do Ar.Co. .

Os meus trabalhos estão sempre relacionados com o coração, veias e sangue. Mas com outra perspectiva, mais ligada a afectos. As ligações que tive ou tenho com outras pessoas, como namorados, família, amigos/as, colegas… E sempre com as minhas memórias.

TM – Fui convidada pela Tereza Seabra que foi a comissária da exposição. Queriam fazer uma exposição de joalharia e decidiram que o meu trabalho e o da Diana eram os indicados. Fiquei bastante satisfeita porque ainda só tinha mostrado alguns destes trabalhos na Mousse e de resto em exposições internacionais. As minhas peças estão sempre relacionadas com o corpo humano, pois é essa a relação que as faz ser joalharia e não pintura ou outra forma de arte qualquer.

O meu trabalho tem uma grande componente de reutilização de materiais, alguns deles cirúrgicos, e inspiro-me muito nas obsessões da sociedade em geral, gosto de ironizar sobre isso e tenho também um lado crítico muito forte no meu trabalho, tudo o que me rodeia me inspira para desenvolver os conteúdos.

Esta exposição também nos mostra a utilização de diversos materiais. Existe algum material que não possa ser incluído numa peça?

DS – Muito sinceramente não. Para mim todos os materiais podem ser usados nas minhas peças.

TM – Para mim qualquer material pode ser utilizado em joalharia, aliás é essa liberdade que diferencia a joalharia tradicional da contemporânea.

Qual foi a peça desta exposição que vos deu mais gozo fazer e porquê?

DS – Talvez a camisa “My Second Skin”. Usei um material que até essa data me era totalmente desconhecido. Eu adoro ter de lutar com o material e criar nova técnicas. Tive de medir o corpo, desenhar a forma da camisa em papel e passá-la para o tecido e para o látex, as texturas dos materiais são completamente diferentes. As escamas foram cortadas e unidas à camisa uma a uma. Tive de aprender também costura… Super difícil, simplesmente adorei.

TM – Todas as peças deram-me gozo fazer, mas claro que o colar “avaca da tia pôs o aparelho” e o colar ” be botox, be fuckin’beautiful” me deram um gozo especial, porque acho que estão muito bem conseguidas.

Existem muitas pessoas interessadas em aprender joalharia mas existem poucas escolas. Para quem gosta de joalharia como hobbie mas que ambiciona “dar o salto”, o que podiam sugerir?

DS – Sem dúvida que fosse para o Ar.Co. Centro de Arte e Comunicação. Pois foi lá que eu nasci, artisticamente é claro. E depois desse primeiro passo, “saltar” para uma universidade como Fachhochschule Trier, Royal College of Art em Londres, Alchimia em Florença, Rietveldt Akademie Amsterdam…

TM – Para quem deseja aprender como hobbie e não só e não pretende tirar um curso muito prolongado pode tirar um workshop de joalharia  na galeria ARTICULA.

Qual é a vossa opinião em relação à joalharia em Portugal? O panorama internacional é muito diferente daquele que existe em Portugal, tanto na área de formação como ao nível da divulgação/exposições e mercado?

DS – Na área de formação, em Portugal, eu acho que é superior, pelo menos onde eu estudei. No nível de divulgação e mercado, no estrangeiro, é realmente muito superior. Há muito mais mercado em Inglaterra que em Portugal, devido à pesada tradição da joalharia feita de ouro de Gondomar.

TM – Penso que o panorama a nível de ensino está muito melhor pois quem queira optar por esta área tem várias escolas com um nível bastante bom e inclusivamente quem quiser pode optar por ir para uma escola em vários países na Europa, tal como Espanha, Holanda Finlândia, Inglaterra, Alemanha.

É possível viver apenas da joalharia em Portugal?

DS – Eu acho que não, para mim é simplesmente impossível.

TM – Continua a ser difícil viver desta área embora as pessoas no geral já estejam um bocadinho sensibilizadas para esta área, mas ainda falta partir muita pedra. Continua a haver muito poucas pessoas com coragem de serem diferentes ao utilizarem uma jóia como veículo de uma emoção, sentimento ou pensamento, no fundo como uma obra de arte.

A jóia assumida como objecto transportável implica uma atitude e um assumir ser diferente, gostar de algo que os outros não têm e isso ainda é muito complicado, especialmente no nosso país, ainda muito conservador a esse nível. Todos usam o que os outros usam, gostam do que os outros gostam. Espero que isto mude e que as pessoas comecem a assumir-se singularmente como o ser que são. Então aí já haverá mais liberdade de pensamento e de acção.

Que outros projectos têm a decorrer ou planeados?

DS – Eu ando a planear o meu Doutoramento, a que vou apelar este ano, no Royal College of Art. Ando à procura de uma bolsa ou um mecenas.

TM – Tenho um projecto que foi sendo feito ao longo dos últimos 5 anos, que teve o apoio da Gulbenkian e que terminei no final do ano passado e que o vou apresentar na galeria ARTICULA em Setembro. De resto é surpresa.



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