As Lágrimas

O Teatro da Trindade exibe até 24 de Abril “As lágrimas”, uma adaptação do original "As lágrimas de Petra Von Kant" de R.W. Fassbinder

A história centra-se em Petra, uma jovem designer de moda, que vive enclausurada no seu mundo. Habituada desde cedo a ter domínio sobre a sua vida e sobretudo sobre a dos outros vê-se numa situação subserviente e subordinada perante o aparecimento de Karin, uma jovem modelo.

Nesta obra encontra-se uma variedade de comportamentos humanos apresentados segundo diferentes perspectivas. Fala-se de todo o tipo de relações; entre gerações, entre o empregado e o chefe, entre duas mulheres que se prometem amar, relações que têm em comum momentos de solidão e que leva as pessoas a unirem-se e a usarem-se. Social por natureza, o ser humano aprende em grupo e depende sempre dos outros.

As personagens presentes na peça mantêm-se unidas por egoísmo, vaidade, pelo orgulho que alimentam as suas paixões, mas não os corações. Toda a obra está rodeada por um ar denso, superficial. As pessoas aqui retratadas alimentam-se do sangue dos outros como se em cena as seis personagens, vampirescas, se preocupassem apenas em satisfazer as suas necessidades e não as dos outros. O autor tenta retratar toda a maldade que o ser humano pode ter dentro de si.

O exemplo de Petra pode ser seguido em situações semelhantes. Podemos sempre tentar sair de casa, da vida quotidiana e descobrir que fazemos parte de uma comunidade e que não devemos viver apenas em função de nós mesmos.

Rainer Wener Fassbinder (1945-1982), foi um dos impulsionadores do novo cinema alemão. Nos seus 37 anos de vida, realizou 41 filmes, além de trabalhar como cameraman, desenhador, produtor, editor e actor. Teve também algumas experiências em teatro. Uma preocupação sempre presente no seu trabalho é a das preocupações pessoais dos homens e das mulheres do nosso tempo.

A obra deste autor está intimamente ligada à sua vida tumultuosa e agressiva. Durante a sua vida, alguns dos seus amantes suicidaram-se e outros foram abusados e golpeados pelo autor. Ao longo da sua vida agitada e intensa apercebe-se, com clareza, dos comportamentos das pessoas, reproduzindo-os através de personagens de lágrimas amargas.

R.W. Fassbinder categoriza o amor como uma palavra vã usada apenas para se obter o prazer e o poder das pessoas que rodeiam as personagens. Os laços existentes são artificiais e forçados na tentativa de enganar uma solidão proeminente. Quando o autor morre por overdose, julga-se que o novo cinema alemão é enterrado com ele. Perde-se um autor preocupado e interessado pelos fundamentos do drama, poder e paixão.

No Teatro da Trindade, até 24 de Abril.



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