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As Marionetas na Rua

Conversámos com Luís Vieira, director artístico do Festival e de A Tarumba, estrutura de criação e organizadora do evento. Um balanço, de hoje e de ontem, e que nos levantou a ponta do véu para aquela que será a 10ª edição do FIMFA.

Entramos e vemos instalada no meio do palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, uma estrutura frágil, mas imponente. Parece o esqueleto de uma tenda de circo prestes a cair a qualquer momento. Primeiro o silêncio, depois alguns sons vão despertando a nossa curiosidade e o nosso olhar no meio da sala escura, por entre as cabeças que estão à nossa frente. Parece um espectáculo em miniatura. A energia cinética da roda de uma bicicleta faz uma luz acender e um tambor gira produzindo um som. Uma série de objectos ligados entre si como um puzzle são activados e transformam um espectáculo de teatro de objectos num autêntico concerto.

Este foi apenas um entre os mais de cem espectáculos que o FIMFA – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas trouxe a Lisboa e que acabou por alargar-se a outras cidades do país como Viseu e Aveiro. Nas salas, mas também nas ruas, o FIMFA fez da sua 9ª edição a maior da história do festival. Durante um mês, de 7 de Maio a 7 de Junho, cerca de 26 companhias de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Rússia, Suíça, Taiwan e Holanda encheram o país com a magia das marionetas e das formas animadas. Dirigidos a miúdos, mas sobretudo aos graúdos, estes bonecos fizeram os públicos rir e sonhar com as suas histórias de encantar. Desde fantasmas a vampiros, gigantes e anões, príncipes e dragões.

A Rua de Baixo conversou com Luís Vieira, director artístico do Festival e de A Tarumba, estrutura de criação e organizadora do evento, que fez um balanço do festival, de hoje e de ontem, e que nos levantou a ponta do véu para a edição que marca os 10 anos do festival.

Como é que está a correr o Festival? Já é possível fazer um balanço?

Bem, estamos a meio do festival, mas acho que sim, já se pode fazer um balanço. O público tem reagido muito bem, as salas têm estado cheias e acho que tem correspondido às expectativas por parte do público. É uma programação bastante diversificada, os artistas têm apresentado espectáculos muito diferentes com tecnologias muito distintas o que dá uma perspectiva daquilo que é o universo da marioneta e das formas animadas.

Esta edição é, até agora, a maior do do FIMFA Lx.

Sim, é um mês de espectáculos de 26 companhias portanto, no total, é quase uma companhia por dia e são mais de uma centena de representações.

Porque é que optaram por alargar assim desta forma a programação?

Pelas parcerias que desenvolvemos e também pela ideia que tínhamos de que era interessante ter o festival durante mais tempo porque em termos de comunicação poderia ser mais eficaz. Por outro lado, esgotar toda a programação numa semana parecia-nos um bocadinho demais. É um investimento brutal que se faz e durante um mês achámos que poderíamos ter um outro impacto junto do público, junto das pessoas, da cidade. A principal razão foi mesmo essa. Porque haviam pessoas que ouviam falar do festival e, quando se predispunham a ir ver um espectáculo, já tinha acabado. Com um mês de programação as pessoas têm tempo para ir aos espectáculos. As pessoas falam e vão.

E até mesmo expandido para outras cidades não é?

Sim, e mesmo noutras cidades. Aliás, a extensão a outras cidades surgiu logo a partir da 3ª ou 4ª edição do festival porque achámos que era uma forma de rentabilizar economicamente o investimento nas companhias e também dar uma oportunidade às pessoas que não estão em Lisboa de ter acesso a esses espectáculos.

O programa do festival tem cerca de 26 companhias a representar, mas pelo que me pareceu apenas duas delas são portuguesas. Há poucos artistas nacionais a trabalhar com marionetas? Porquê?

A presença portuguesa no FIMFA é extremamente importante para nós. Em cada edição participam no festival companhias que se têm destacado em Portugal neste campo, ou em trabalho multidisciplinares, recorrendo quer a objectos, quer à presença de marionetas. Casos paradigmáticos são, por exemplo, a participação em outras edições das companhias Marionetas do Porto ou dos Bonecos de Santo Aleixo. Nesta edição, participam mais que duas companhias portuguesas, uma vez que queremos apostar no apoio à criação portuguesa: a estreia absoluta do novo espectáculo da companhia Teatro de Ferro, com direcção artística de Igor Gandra, uma co-produção com o FIMFA Lx9, um trabalho muito interessante sobre a ditadura e um texto excelente de Regina Guimarães. No campo dos novos valores, destacamos o trabalho sensível de Márcia Lança, uma jovem criadora que apresentou um interessante trabalho a solo, construído a partir de uma cidade e personagens de papel. Nos dias 5 e 6 de Junho salientamos a presença de “Lembranças” de Madalena Victorino, com a participação de 14 actores portugueses. Pequenas histórias com objectos que vão invadir os espaços do Convento das Bernardas e algumas casas da rua da Esperança. O português Paulo Ferreira, que criou e dirige uma companhia na Bélgica, Clair de Lune Théâtre, apresenta-se também com uma pequena forma muito especial, um teatro de sombras mágico, no foyer do Teatro Nacional D. Maria II. Quanto à formação nesta área, João Paulo Seara Cardoso realizou um workshop no Teatro Maria Matos dirigido a adultos, e Yola Pinto fez também uma série de oficinas dirigidas ao público infantil.

Em Portugal, existe actualmente um número crescente de artistas que trabalham com esta forma de arte, são precisos mais apoios para que possam continuar a desenvolverem os seus trabalhos artísticos e, o mais importante, formação de qualidade nesta área especifica da criação artística.

Para além das salas, as ruas da cidade também são animadas pelo FIMFA. Esse é um formato novo ou é algo que já tinham feito antes?

Sim, sempre o fizemos desde o início. Aliás, começámos a programar os espectáculos de rua com a ideia de trazer público às salas. No primeiro ano não sabíamos que impacto o festival ia ter junto do público e tivemos a ideia de programar os espectáculos das salas com os da rua que iriam surpreender as pessoas. No fundo, iam ao encontro das pessoas. Eram programados em zonas de grandes fluxos de públicos de modo a proporcionar o encontro das pessoas com estas formas de arte, de ficarem curiosas. Temos uma equipa que distribuía também folhetos no sentido de criar essa relação de proximidade. O primeiro ano foi surpreendente para nós porque as salas logo de início ficaram esgotadas. Obviamente, sabíamos que existia um público para espectáculos de marionetas para adultos, e é esse o nosso trabalho enquanto estrutura de criação, mas não fazíamos ideia que havia assim um público tão desenfreado à procura de espectáculos de marionetas.

Tiveram muitos espectáculos durante esse primeiro ano?

Tivemos uma semana e meia de programação intensiva, trouxemos logo grandes nomes deste universo das marionetas. Tivemos uma exposição de Sergey Obraztsov [mestre de marionetas russo que instituiu as marionetas como forma de arte] e um espectáculo dele, e começámos desde aí a apresentar espectáculos mais tradicionais com outros que mostram uma nova forma de pensar a marioneta. Aliás, foi sempre essa a nossa linha de programação desde o início.

O festival é dirigido a um público adulto, mas, por exemplo, no outro dia convidava uma amiga minha para vir assistir e ela mostrou-se relutante porque achava que era muito do género de história de encantar. Porque é que ainda existe essa associação da marioneta a um universo infantil?

Pois, nós tentamos combater um bocadinho essa ideia de que as marionetas são espectáculos infantis.

O universo da marioneta é, de facto, um universo de encantar, mas não só crianças (risos). O grande público associa ainda as marionetas aos espectáculos para a infância, mas na realidade a marioneta na sua génese nem sequer é para crianças. Sempre foi um objecto de constatação daquilo que normalmente as pessoas não diziam, era um instrumento utilizado para se dizer aquilo que não se podia. Os próprios textos populares, que têm uma base na oralidade e que são transmitidos de família para família, nem sequer são textos para crianças. São normalmente dirigidos a adultos. A partir do momento em que se começa a desenvolver a ideia da pedagogia nas escolas associada à marioneta é que se começa aí a desenvolver o conceito das marionetas para a infância. Mas é um tipo de espectáculo que, mesmo que os assuntos sejam para uma outra faixa etária, num discurso sério, as pessoas acham que, como há um boneco, podem sempre trazer as crianças. E muitas vezes nem assumem essa forma, são objectos. Mas, apesar de tudo, acho que essa ideia está a mudar um bocadinho e o público que vem ao festival, que se revê neste tipo de espectáculos e que tem acompanhado o FIMFA ao longo das várias edições, é um público que tem uma opinião diferente, bem formada, sobre aquilo que é a marioneta. É um público mais exigente, mais crítico em relação aos espectáculos que vê e isso também nos deixa contentes.

No próximo ano, celebram o 10º aniversário. Já existem algumas ideias para a programação da próxima edição?

Sim, há uma ideia básica para o próximo ano. Vai ter uma edição especial que vai ser essencialmente uma edição de afectos. Vamos trazer projectos que já cá estiveram e com os quais nos identificamos bastante ao longo destes anos, alguns infelizmente já não é possível trazê-los, e outras novidades claro. Algumas coisas que tentámos fazer este ano, mas que em termos orçamentais e de calendário não nos foi possível, mas pensamos no próximo ano fazer uma edição dos 10 anos do festival e mais umas quantas ideias que estão aí a germinar.

Quanto aos projectos de A Tarumba, para além de organizarem este festival, qual é o vosso trabalho?

A Tarumba tem um projecto muito amplo. Para além de ser uma estrutura de criação, este ano vai começar a desenvolver um projecto regular de formação e tem este projecto de difusão que tem por base o festival. Há um projecto de formação avançada para profissionais, mas não só, e também outro que se vai desenvolver no festival no próximo ano que tem a ver com o estímulo à criação de jovens artistas portugueses no âmbito da marioneta. Pessoas que não estão neste momento relacionadas com este universo mas que achamos que têm afinidades ou que existem pontos de ligação e que provavelmente eles nunca pensaram nisso e provocar essas pessoas a desenvolver projectos de criação nesta área.

Até porque cada vez mais existe uma interdisciplinaridade entre as diversas artes não é?

Sim, a interdisciplinaridade é uma coisa de que hoje em dia se fala muito, mas que na realidade é intrínseca à própria marioneta. Hoje em dia há marionetistas que são actores, bailarinos e que pedem a escultores para construírem os objectos que utilizam em cena. Hoje em dia há mais uma separação entre aquilo que é o trabalho do artesão da concepção do espectáculo. E dos manipuladores também. Há uns anos atrás quem manipulava as marionetas era quem as fazia, hoje em dia já nem sempre é assim. Mas isto para dizer que para este trabalho contribuem várias disciplinas para a concepção deste tipo de espectáculos. Desde a pintura à escultura, ao trabalho de actor, ao trabalho da manipulação, enfim… O trabalho da marioneta já é interdisciplinar.

Quanto à vossa relação com o museu. O Museu da Marioneta é quase como se fosse a vossa segunda casa.

Sim, é mais ou menos isso (risos). Temos uma relação muito próxima com o museu, até por razões que têm a ver com o início da companhia. Esta companhia teve origem num outro projecto que eram as marionetas de São Lourenço que deram origem ao museu, por isso, temos uma grande afinidade com o Museu da Marioneta, sim.



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