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“As Nossas Almas na Noite” de Kent Haruf

Uma história simples

Na pequena cidade de Holt, Colorado, Addie Moore e Louis Waters, dois septuagenários, viúvos, que se conhecem há décadas, acordam em partilhar a solidão das noites. A iniciativa partiu de Addie e a ideia seria conversar. O acordo não incluía outra intimidade senão o diálogo e o “contrato” pressuponha dormir na mesma cama e abrir alma e coração ao outro, sem amarras, como nunca o fizeram com ninguém.

Em comum, Addie e Louis têm filhos, que vivem longe, e sobreviveram aos vários dramas que a vida proporcionou: ela perdeu uma filha pequena, ficando refém de uma família que nunca ultrapassou a perda e se tornou disfuncional; ele conseguiu “salvar” o casamento depois de uma aventura extraconjungal; ela acomodou-se um a emprego que não a preenchia; ele foi professor com alma de poeta, cujos versos não passavam da mediocridade. Frustrados, ainda que acomodados, Addie e Louis vêm nesta união inesperada uma última hipótese, uma derradeira oportunidade de ser (realmente) feliz.

As noites passam, a timidez dissipa-se e a relação cresce. As defesas baixam, a intimidade une-os. Com isso surgem a esperança, os sonhos e o compromisso, armas que os ajudam a enfrentar a vida que lhes resta. Entretanto, os rumores aumentam na comunidade mas Addie e Louis estão felizes. Para isso contribui também a chegada de Jamie, o tímido e inseguro neto de Addie que vai passar uma temporada a Holt pois os seus pais estão a passar por um momento de rutura na sua relação.

É sob este contexto que se desenham as páginas de As Nossas Almas na Noite (Alfaguara, 2017) – cujo lançamento está marcado para o dia 20 de setembro -, obra derradeira de Kent Haruf, escritor norte-americano falecido em 2014, cuja herança literária, não muito extensa mas brilhante e fundada no quotidiano nos recantos tranquilos do Colorado, lhe valeu prémios como Whiting Foundation Writers’ Award, Mountains & Plains Booksellers Award e Wallace Stegner Award, obtendo ainda uma menção especial da PEN/Hemingway Foundation ou sendo finalista do National Book Award, Los Angeles Times Book Prize e New Yorker Book Award.

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E o resultado é um romance maduro, maravilhosamente simples, recheado de diálogos e (breves) capítulos centrados na vida, na pacatez dos dias úteis, nas relações, complicadas ou não, entre pessoas, e com um elenco consideravelmente mais pequeno comparativamente com romances anteriores do autor.

Haruf, ainda que abalado pela doença, sublinhou As Nossas Almas na Noite com uma luz própria, conseguindo transgredir, de forma extraordinária, a ideia de um qualquer glamour centrando-se da descrição da vida comum e da felicidade, não como um estado passageiro mas antes sob a forma de um justo e merecido triunfo. O que interessa, defende Haruf, é a plenitude (não confundir com ambição, manter as aparências, luxúria ou satisfação sexual), uma prática, infelizmente, arredada da noção de urbanidade e um conceito desenraizado do dia-a-dia e que apenas se cimenta no reino da ficção.

O cuidado e delicadeza da escrita de Haruf, que faz uma ligação direta ao coração, abala o edifício da desconfiança face à relação com o “outro”. Addie e Louis são pessoas de carne e osso, com defeitos e virtudes, e As Nossas Almas na Noite um exercício confessional e transparente, humilde, emocional e extremamente emotivo, que desarma que o lê e sente, onde as palavras, por vezes frágeis, têm a medida certa, mesmo que lembrem crueldade, doença, ruína ou morte. Porque o propósito não é obliterar nada. É, sim, falar verdade, de forma tranquila, revelar fantasmas, medos e até incertezas que a idade não revelou. Pois a escuridão resiste, ainda que estejamos a olhar para a luz, mesmo que a mesma se reflita num singelo candeeiro no quarto de uma pequena cidade do Colorado.



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