“As Perfeições Provisórias” | Gianrico Carofiglio

“As Perfeições Provisórias” | Gianrico Carofiglio

O Método Nostálgico

Ao longo da vida existem momentos raros onde tudo parece encaixar, funcionar, existir. É nessas alturas que hesitamos olhar para o passado ou tentamos imaginar um futuro, pois o presente assume-se perfeito, ainda que de forma temporária, provisória.

São estas as ocasiões que o italiano Gianrico Carofiglio tenta aprisionar dentro de um objeto que convencionámos chamar de livro e que é, no fundo, a extensão da própria vida e, neste caso, um combate à solidão.

Ainda que “As Perfeições Provisórias” seja o quarto romance deste italiano, magistrado de profissão e conhecido juiz antimáfia, esta é a primeira vez que Portugal tem o privilégio de conhecer algum do quotidiano de Guido Guerrieri, um advogado de Bari que aposta na investigação de casos que roçam a poesia do policial de tendências negras e que o acesso à complicada meia-idade o tornou mais humano, mais ponderado, mais nostálgico.

E é o recorrente regresso ao passado que torna especial o método utilizado por Guerrieri na resolução de mistérios e casos aparentemente sem nexo, causa ou sentido. Desta vez, o peculiar advogado de Bari, já instalado no novo e impessoal escritório e com a sua equipa aumentada, é confrontado por um desconcertante desaparecimento de uma jovem que deixou amigos e familiares à beira de um ataque de nervos e incompreensão.

Antes de conhecer a investigação que o vai acompanhar nos dias seguintes, Guido desloca-se a Roma para mais uma aventura com a justiça. Para este homem, qualquer situação banal pode transformar momentos de alguma normalidade em verdadeiros hinos contra a inércia e são esses truques que fazem com que este romance ganhe uma fluidez própria e sagaz. No curso da referida viagem, por exemplo, Guerrieri conhece um taxista apaixonado por livros e, durante a corrida para o aeroporto, desenvolve-se um diálogo literário entre os dois homens, frases que proporcionam uma outra visão da vida e que tornam um encontro fortuito num episódio especial, num caso onde a “perfeição” é provisória…

Este é um dos exemplos que vamos encontrar ao longo das páginas de “As Perfeições Provisórias”, que faz também um retrato de sociedade italiana que ainda não conseguiu afastar definitivamente um quotidiano marcado por acessos racistas, corrupção, chantagem emocional e tráfico de influências e substâncias ilícitas.

Concentrando-nos novamente no cerne deste romance, levado aos escaparates pela Porto Editora, Guido vê-se confrontado não com a defesa de um cliente nas barras do tribunal, mas sim com a tentativa desesperada de um casal cuja vida perdeu sentido há cerca de seis meses com o desaparecimento da sua filha Manuela.

Esta difícil realidade chega às mãos de Guerierri através de um amigo e Guido dá-se conta do desespero dos Ferraro, um casal que se encontra na mesma faixa etária do nosso investigador (a meio dos quarentas) mas que a ansiedade e o sentimento de perda transformaram em seres amorfos e seculares.

A polícia deu o caso por encerrado depois das inconclusivas investigações mas, para os Ferraro, ainda tudo pode acontecer. E é com uma réstia de esperança que pedem a Guido para rever o processo, de forma a encontrar uma ponta solta que os leve a acreditar um dia saber o que aconteceu à sua filha, se a mesma está viva e onde se encontra.

Renitente, Guido acaba por aceitar o trabalho anda que não deposite grandes veleidades na sua proto-investigação. Para tentar entender o que (não) aconteceu, Guerrieri volta a falar com os investigadores e convoca os amigos mais chegados de Manuela, que conviveram com ela nos últimos dias antes do intrigante desaparecimento depois de um fim de semana conjunto.

Como é apanágio deste homem, a reinvestigação do caso leva-o a diversos conflitos interiores e acessos nostálgicos que são o sumo de uma vida algo solitária e carente que vê, na amizade, um dos seus maiores desígnios. Uma das ligações mais fortes deste advogado com a existência é feita no Chelsea Hotel, um bar especial que é propriedade de Nadia, uma ex-prostituta e cliente do escritório de Guido que se revela uma companhia douta, reconfortante e compatível, cuja paixão comum pelo cinema leva a um das mais interessantes e emotivas passagens deste romance.

Mas, tal como já referimos, este é também um livro sobre a solidão, a falta de palavras, o silêncio, mas que o acutilante humor da escrita de Carofiglio na primeira pessoa transforma em momentos de indiscutível beleza. Guido é o expoente do homem metafórico que apenas se solta quando assume o papel de advogado e se afasta do ex-pugilista amador que encontra no seu (mister) saco de boxe o parceiro ideal de “conversa”.

A forma como o autor conduz a trama deste livro afasta a mesma da normal cadência de um livro policial, e a investigação parte de uma tendência unidimensional para se transformar, aos poucos, num enredo maior e mais rico quando Guido convoca a presença das amigas de Manuela ao escritório, com óbvio destaque para a personagem de Caterina, a melhor e cativante amiga de Manuela que provoca uma série de dilemas interiores no investigador.

Com um ritmo muito próprio e particularmente emotivo, “As Perfeições Provisórias” é uma obra altamente recomendada para os amantes de um policial inteligente e nostálgico e que vai, com certeza, deixar os leitores a salivar por mais aventuras de Guido Guerrieri.



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