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As Saias da Maria

A intemporalidade de Maria Gambina em retrospectiva no Espaço Quadra.

Apresentamo-nos à entrada umas horas antes da inauguração e avisam-na da nossa chegada. Os amigos chamam-lhe Cristina. Entre os últimos preparativos para a exposição que assinala os seus 18 anos de carreira, encontramo-la ao fundo da escadaria que dá acesso ao espaço onde diversas saias balanceiam em estruturas de arame, num enredo de texturas e cor. E porquê as saias? “São peças que abrangem mais o universo criativo, tanto na inspiração como na maneira como trabalho, do que as t-shirts e malhas. Apesar de ser uma referência streetwear, as saias diferem. São quase alta-costura”, ri-se. A selecção das quarenta saias não foi fácil. A primeira escolha foi feita “com o coração” e depois decidida pela equipa, aquela de sempre, aquela em quem confia, “senão, não conseguia”. A jovialidade do discurso é coerente com o seu trabalho: enérgico, sincero, vivo, único.

Enquanto fixa uma saia da colecção “Kama Sutra” (Outono/Inverno 2003-2004) no suporte metálico, fala-nos de alguns dos momentos mais marcantes da sua carreira: o início, quando arrecadou dois prémios Sangue Novo “merecidos, pelo trabalho” ou as fardas criadas para a Expo’98 em parceria com José António Tenente. “ É impossível escolher só um”. Se, por um lado, esta retrospectiva lhe traz à memória todo um longo percurso construído pelo mérito, também a faz “lembrar e questionar muitas coisas” pois sempre fez tudo “por emoção, para transmitir algo. Será que valeu a pena? Não valeu a pena?”. Hoje em dia sabe que não pode nem deve investir tanto tempo e dinheiro em peças sem que haja quem e onde as vestir. “É uma criatividade mais pensada”. Nunca sentiu a pressão de agradar a toda a gente. Também nunca sucumbiu aos ditames da moda esporádica, de pouca dura. “Se calhar é isso que leva as peças à intemporalidade: não ter qualquer colagem a referências.”

"As Saias da Maria" no Espaço Quadra

Maria Gambina conta, em cada colecção, uma história. Algumas vezes, até mesmo um cruzar de histórias. Mas todas elas têm algo em comum: a música. Uma parede da galeria foi reservada às suas referências. Não só as musicais mas todas as de uma carreira: John Coltrane, um vinil das The Jones Girls, o Rashida de John Lucen, o Kama Sutra, James Brown, um dedal, uma fita métrica, Gil Scott-Heron, algumas referências ao seu nome, uma raquete de ténis, uns creepers pretos e brancos… “Tenho a capacidade de ouvir tudo e fazer a selecção. Dentro dos estilos, seja do Rock ao Jazz ou do Soul à Bossa Nova, encontro a harmonia na música em relação à personalidade”. Cada saia ali representada tem “uma música e uma história” que Maria sabe sem sombra de dúvidas e não se esquece da época de vida com que se relaciona. Entre uma costura rápida numa saia colorida, composta por pequenas fitas, cosidas umas sobre as outras, conta-nos a sua história: “esta saia faz parte da colecção Old Winners em que peguei no Marvin Gaye, no Stevie Wonder, no Gil Scott-Heron e na prateleira dos estampados. Estas fitas são as fitas das medalhas dos vencedores. E eles são vencedores pois as suas músicas serão sempre actuais. São intemporais”. A saia imediatamente ao lado é da colecção “Jazz Accident” (Primavera/Verão 2002). Quando nos aproximamos conseguimos ver a costura de uma manga na parte inferior. “A colagem de músicas que hoje em dia tanto se faz foi a inspiração. Desconstruir e voltar a construir”. A saia calção de bordado Arraiolos faz parte de “Take Me Home” (Outono/Inverno 2011-2012), que representa a “mudança física e interna das pessoas que mudam de casa e levam os tapetes a enrolar as coisas que gostam para que não se estraguem”. A pairar sobre nós, uma saia comprida, composta por diversas camadas estampadas com imagens do Kama Sutra, obra homónima da colecção que representa a “elasticidade do corpo”. Algumas das saias foram emprestadas por clientes para a exposição. No entanto, Maria diz que não venderia algumas delas. “São peças únicas”.

Observando com atenção e em detalhe cada uma das peças, é possível ver a originalidade dos materiais e a forma como são trabalhados. Também é esse o fim desta exposição pois “há peças que só têm os seus 15 minutos de fama durante o desfile e aqui há proximidade com o trabalho e a forma original. Espero que seja um incentivo para se perceber que se pode fazer muita coisa com muitos materiais. A criatividade não tem limites!”. Esse é também um estímulo que habitualmente incute aos seus alunos, na sua actividade de professora, para que “sejam profissionais e explorem a parte criativa. Há que ser algo especial e não ser apenas mais um”.

"As Saias da Maria" no Espaço Quadra

Diz que tem uma imaginação fértil e que não gosta de ficar sentada à espera de ideias. A heterogeneidade de formas e técnicas de execução das saias que teimam em ir balançando por cima das nossas cabeças comprovam isso. No entanto, com a evolução do seu trabalho, tem vindo a desenhar e concretizar linhas mais simples, como se vê na saia preta da colecção “Inês d‘Castro” (Primavera/Verão 2011) ou na saia transparente com o fecho em látex que saltou directamente da sua última colecção Primavera/Verão 2012, “Candy” (inspirada no álbum “Hard Candy” de Ned Doheny), para o Espaço Quadra. “Trabalhar a originalidade na simplicidade é um desafio. E eu gosto de desafios.” Mais dois dedos de costura e o vapor de um ferro quente a ultimar a disposição dos tecidos que parecem ganhar vida própria com a mudança de luz.

Amigos, familiares, admiradores. O espaço foi pequeno para receber o apreço pela estética única e inimitável das saias da Maria como também pela própria Maria, a quem eles chamam Cristina e que lhes deixa explorar novos mundos e histórias dessa história que é a sua. Num discurso de agradecimento alguém disse que “a criatividade e a imaginação garantem um bom futuro”. Maria Gambina terá, por certo, um futuro para lá de bom. Por agora, vale a pena viajar por esta retrospectiva que estará aberta ao público até dia 21 de Janeiro de 2012, com actividades a decorrer a 19 de Novembro (Designers de Moda em Discurso Directo), 26 de Novembro (Moda e Indústria – Conversas com Industriais) e a 10 de Dezembro (As Saias da Maria revisitadas por Paulo Gomes).

Galeria AQUI!

Espaço Quadra
Avenida Calouste Gulbenkian
4460-268 Senhora da Hora
Matosinhos, Portugal



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