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As três sozinhas: “Era só isto, agora podemos continuar?

Anabela Almeida, Cláudia Gaiolas e Sílvia Filipe queriam trabalhar sobre as Novas Cartas Portuguesas, mudaram para uma pesquisa dramatúrgica sobre o universo feminino que envolvia materiais como Medeia, Pussy Riot, Joana d’ Arc e Patti Smith, e acabaram por fazer um espetáculo feito na primeira pessoa do singular.

Não tinha pensado escrever sobre este espetáculo, que ainda pode ser visto até domingo no Teatro Nacional D. Maria II. Tenho em mãos anotações sobre o Provisional Figures de Marco Martins e Se isto é um homem, encenado por Rogério de Carvalho, com Cláudio da Silva, já conversei com eles, mas a verdade é que sai da Sala Estúdio do Nacional naquela urgência de também eu brindar àquelas três actrizes que não estão, não podem estar, nunca estarão sozinhas.

Por detrás de uma coisa está uma outra coisa, esta esconde ainda uma outra e essa é que é o nosso espetáculo, como assumiram estas três actrizes que são amigas há vinte anos. O que se perdeu em excitações talvez se tenha ganho em autenticidade. Mas expliquemos lá as coisas mais devagarinho: num primeiro momento as questões dos direitos autorais trocaram-lhes as voltas na intenção de trabalharem As Novas Cartas Portuguesas, das três Marias, amigas como elas são, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, escritoras que com esta obra protagonizaram um marco na luta feminista em Portugal, e que estabelecia uma linha de continuidade com as Cartas de Mariana Alcoforado, as cartas de uma freira enclausurada por amor no século XVII e que foram publicadas por Natália Correia.

Num segundo momento, e como diz a Cláudia à Maria João Guardão, na conversa que as três tiveram com ela, e que está no programa de sala, que iremos daqui para a frente roubar com frequência “ Decidimos fazer um projecto sobre o poder da palavra no feminino. Descobrir o que isso era –porque isso é gigante.” Abriram assim o leque e com Judite Canha Fernandes e Alex Cassal, que assinam a pesquisa e a dramaturgia, leram muito, da poesia ao ensaio. Chegaram a fazer improvisações sobre o livro “Dons e disciplinas do Corpo feminino. Os discursos sobre o corpo na história do Estado Novo”, da socióloga Inês Brasão, que deixaram cair porque se refere a uma época com o qual já não se identificam, no entanto como refere Anabela Almeida “ há referências desse antigamente que vieram agarradas na minha educação.

Nesta fase ainda se insere a primeira residência artística que fizeram, no Espaço do Tempo, em Montemor, e que terminou com uma apresentação informal de três textos, Rebecca Solnit, Silvia Plath e Filipa Leal, para três espectadores, uma actriz para cada um. Depois a equipa da pesquisa e dramaturgia convenceu-as a irem à procura das suas próprias vozes.” Mas sempre com uma sensação de incompletude. Porque o nosso ofício não é escrever. Lembro-me que o Alex nos disse, um dia: vocês podem ficar muito bem num palco a dizer palavras da Virginia Woolf, estou certo que vai ser um espectáculo extraordinário, mas serão as palavras da Virgínia Woolf.”, conta Cláudia Gaiolas.

Acabaram por construir um espectáculo em que nunca sabemos o que é delas, o que é de qual delas, o que curiosamente se liga novamente com as Novas Cartas Portuguesas, que as autoras abdicaram de assinar, mantendo-se até hoje o seu anonimato, um pacto que nunca quebraram.

Começam na plateia. Sílvia Filipe fala do seu percurso inicial de actriz e cantora, parecia a Maria Callas, diziam-lhe. Anabela Almeida conta o seu sonho de um casamento que nunca concretizou e Cláudia Gaiolas revela que queria ser como um tio que por vezes desaparecia no nevoeiro. São três cartas que cada uma escreve às outras. Quando terminam estes pequenos monólogos descem para o palco, caminham vagarosamente com os seus sapatos altos, nos seus vestidos de soirée, lindíssimos figurinos de José António Tenente, e sentam-se numa posição frontal ao público. No chão um tapete muito estranho e bonito que vimos a descobrir depois que são rebuçados embrulhados em papel de prata. É isto o espaço cénico, também duas bolas de espelhos penduradas no teto.

Cá em baixo, no palco Anabela começa por dizer uma frase de Virgílio Ferreira, “ só estamos sozinhos porque existem os outros”. E as outra pedem que repita, mas na primeira pessoa. Está dado o mote para tudo o que virá depois.

O que se segue é uma conversa em que tudo é dito de uma maneira leve, quase desafectada, há uma cumplicidade, uma amizade que lhes permite falar com grande naturalidade de questões íntimas, da lingerie que usam, dos primeiros encontros, do cancro da mama, dos filhos, da ausência deles, da forma como uma foi abusada. Maria João Guardão, confronta-as sobre o modo como falam, distante do panfleto. Sílvia Filipe anui, diz que não era o tom delas, Cláudia Gaiolas acrescenta: “ Uma coisa é o espetáculo ser uma manifestação, outra coisa é ser ele próprio um manifesto…E nós não o construímos assim. Podia ter havido um momento em que disséssemos: agora isto é um manifesto. Por exemplo com o texto da Rebecca Solnit sobre as violações. Mas não. Não nos parecia justo em relação ao resto. Parecia que estávamos a ser falsas, a embandeirar em arco, que era para lá da ficção.

 

Trata-se de um objeto muito delicado, este “As três sozinhas”. As ligações cénicas por exemplo. Logo no início Anabela diz que gostava muito que tomassem banho. Parodiam sobre isso, claro que não o irão fazer ali. Pois no momento revelação da Cláudia, cada uma irá ter o seu solilóquio, trazem um alguidar e dão-lhe banho. Os seus gestos são espessos, densos. Quando chega a vez de Sílvia ela diz que, ao contrário do que tinha acontecido com as outras, não se irá despir. Faz até o contrário. Vai vestindo roupas, roupas que lhe lembram a sua tendência para cair, para cair aparatosamente.

É neste momento da peça, o solilóquio da Sílvia, que se passa algo muito interessante: num gesto de grande vigor o cenário é reconfigurado, os rebuçados voam pelo espaço, produzindo um efeito de desorganização, de violência, mas, simultaneamente, um movimento que é estético.

Sendo um espetáculo assente num discurso de mulheres sobre si mesmas, e mesmo que a naturalidade com que o fazem nos confronte a nós homens de uma maneira especial, afinal somos nós que por uma falsa conveniência fingimos não perceber que somos triturados pelo mesmo dispositivo de invisibilidade social, politica, cultural da mulher, tudo isto surge de uma forma tão leve que a certa altura me perguntei: falta aqui qualquer coisa. Lembrei-me da Maria Zamora, actriz como elas e pensei de mim para mim, falta aqui qualquer coisa. Tinha acabado de pensar nisto, fui ao tapete, por K.O.

Começam elas, ainda de uma forma ligeira, a contar a história da mulher que capou o parceiro à dentada porque ele lhe tinha dito, quando ela estava em pleno felatio, come-me, come-me toda, ou, quando uma outra castra o outro a golpes de faca, pondo assim termo a uma longa história de violência. São ainda histórias longe de nós. Só que se aproximam à velocidade de um fósforo do nosso país, da nossa cidade, daquele palco, quando começam a ser sobre as mulheres que já morreram este ano vítimas de violação e violência doméstica, quando começam a ser sobre aquela mulher que em estado meio inconsciente foi abusada pelos seguranças, ou a outra a quem o marido estraçalhou a cabeça com uma moca com pregos, e depois, como se tudo isso não fosse já de si tão horrendo, quando os juízes reproduzem uma segunda violação, um reiterar da violência. E depois, com a mesma naturalidade com que desmontam a nossa pieguice de homens que queremos ser diferentes destes cabrestos, dizem, “ era só isto, podemos continuar?”

Assumo, ali entre rebuçados espalhados pelo chão, cortei com o espectáculo, numa vergonha tão grande, tão interna da qual me custou a recuperar. Quando à saída alguém me perguntou, esta peça interessa aos homens também, não é?, encolhi os ombros, respondi, tem de perguntar aos homens, não me pergunte a mim. E quando no final elas, naturalmente, fazem um brinde a diferentes mulheres que as marcaram, eu saio da minha cápsula e brindo, brindo às três pensando que enquanto forem num palco a nossa voz, nunca estarão sozinhas.

No final da conversa que teve com elas Maria João Guardão confrontou-as com a forma como cada uma delas foi transformada por este processo. Sílvia Filipe responde: “-Essa questão primeira – qual é a tua urgência?- continua comigo. Grande parte da minha história teatral tem sido feita ao serviço do que os outros projetam em mim. E esta peça começou a levantar essa questão. É o inicio de um caminho interior, acho, no sentido de fazer coisas mais minhas, em que eu me encontro mais. Este espetáculo é o principio de um encontro comigo num lugar de verdade, mais afastado da ideia de personagem que sempre fiz”.

Para Anabela Almeida “ A transformação talvez tenha a ver com liberdade. É muito diferente estar em processos onde és confrontada com aquilo que alguém já pensou ou já decidiu. Aqui és confrontada com aquilo que queres dizer, tens essa liberdade de te convocar a ti própria, o que é que tu queres dizer, o que é que achas que é importante dizer. Mesmo que isso levante questões difíceis como não saberes bem o que é isso que queres dizer…é um espaço imenso de liberdade, mas também de confronto contigo própria.”

Terminamos com a resposta da Cláudia Gaiolas:“ No meu caso é uma continuação da procura da liberdade, uma liberdade que aqui , descobri com elas. Não estou sozinha. Apesar de, como os textos são tão pessoais, mesmo os que não são coisas nossas são nossos, tudo aquilo que nós dizemos eu assumo como meu, mas quando fico só eu, sozinha, a dizer um texto, sinto mais solidão. Por isso é que me emociono. E isso tem sido uma descoberta, uma descoberta emocional por causa da relação que nós temos. Como foi o espaço de liberdade que construímos aqui. No início debatemos  um livro que falava das 101 possibilidades de manifestação e pensámos em várias manifestações lá fora, na rua, mas não fomos em frente com elas. Acabámos por trazer esse espaço de liberdade para dentro da sala de teatro e dar-lhe a mesma importância que teria colorir a água da fonte do Rossio ou sair nua para a rua. É um espaço de liberdade construído dentro do teatro.”

 

AS TRÊS SOZINHAS

Sala Estúdio Do Teatro Nacional D.Maria II

FICHA ARTÍSTICA

Direcção artística e Interpretação: Anabela Almeida, Cláudia Gaiolas, Sílvia Filipe ;Pesquisa: Judite Canha Fernandes; Dramaturgia: Alex Cassal ;Desenho de luz – Daniel Worm d’Assumpção ;Figurinos – José António Tenente; Sonoplastia: Teresa Gentil ;Produção Executiva: Daniela Ribeiro;Residência de criação: Espaço do Tempo, Montemor-o-Novo;Uma co-produção teatro meia volta e depois à esquerda quando eu disser e Teatro Nacional D. Maria II

 



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