A$AP Rocky | “Long.Live.A$AP”

A$AP Rocky | “Long.Live.A$AP”

Uma miscelânea estranhamente coesa e exploratória

O rap é recorrentemente considerado como um não-género pelos musicólogos mais puristas, como fenómeno urbano que raramente se assume como arte. E a realidade é que desde que ele se comercializou e difundiu com a ascensão do hip-hop tem sido cada vez mais raro encontrar algo que seja distinguível do restante ruído de fundo. Feita a excepção do sempre fiável e egomaníaco Kanye West, que encontra sempre forma de se superar e descobrir novas formas de subverter os limites do género, o rap parecia ser apenas auto-sustentável, alimentando-se de si próprio e pouco permeável a algo verdadeiramente novo.

Por isso, quando alguém tem a capacidade de ultrapassar essas barreiras torna-se quase automaticamente notório, não obstante da qualidade do material em si. Felizmente o álbum de estreia do nova-iorquino A$AP Rocky reúne os dois requisitos e é já um dos mais surpreendentes deste lado de 2013. Rocky já tinha feito correr alguma tinta quando se apresentou ao mundo com a sua mixtape “Live.Long.A$AP”, um método de lançamento recuperado dos primórdios do hip-hop e agora um veículo de promoção de muitos nomes já célebres no género como Frank Ocean e The Weeknd, que trilham terreno antes de aventurarem num álbum propriamente dito. Muitos também já o reconheciam do vídeo de «National Anthem» de Lana Del Rey, uma promessa de colaboração que acabou por não se materializar.

E se, devido à morosa concepção e atrasos no lançamento, poucos esperavam que o rapper conseguisse satisfazer as expectativas, “LONG.LIVE.A$AP” torna-se ainda mais triunfante. Rocky não tem receio de misturar o seu rap com trip hop, dubstep e tantos outros géneros, resultando numa miscelânea estranhamente coesa e exploratória. E, se pode ser acusado de alguma falta de conteúdo, o arrojo e ousadia estilística no qual assenta é mais que suficiente para tal argumento se tornar acessório. As deambulações soturnas de Rocky são reminescentes de uma ressaca onírica e estão na vanguarda do género; e ele não se coibiu em recrutar todos aqueles que considera importantes: no movimento e na produção conta com mais de dez nomes, entre os quais T-Minus, Hit-Boy e Danger Mouse.

Por isso, não é com surpresa que se denotam as aparições dos coqueluches da nova era, Drake e Kendrick Lamar, na majestosa «Fuckin’ Problems», um aparente desafio ao reinado instalado de Jay-Z. Mas estes são apenas dois exemplos; outros ilustres como Schoolboy Q, Joey Bada$$ e Santigold visitam o mundo de Rocky e edificam com ele o início do seu legado. Mas é nas colaborações mais inusitadas que o risco se eleva e também se colhem os maiores louros. «Wild for the Night» conta com a produção de Skrillex e é um delírio trance que só poderia existir e valorizar-se neste contexto.

Muitas vezes as edições especiais são apenas um novo logro engendrado pelas discográficas em vender o produto em repetição. Mas as canções presentes na Deluxe Edition de “LONG.LIVE.A$AP” são talvez as suas melhores, entre as quais «Ghetto Symphony» e a soberba «I Come Apart», com a presença de Florence Welch dos Florence + The Machine – outra mistura sem grande sentido lógico e que se transforma na mais gloriosa produção de todo o disco, a fechá-lo com chave de ouro.

A figura, algo inocente e despretensiosa, de A$AP Rocky, totalmente desprovida daquela misoginia que parecia ser essencial para o sucesso no rap, é simbólica da evolução que o mesmo tem vindo a sofrer, numa série de mutações sucessivas que lentamente se espalham pelo mainstream. Basta ouvir o último disco de originais de Rihanna e a sua colaboração recente com Drake na brilhante «Take Care» para perceber que o próprio pop se está a deixar contagiar por esta nova e áurea era de incursão do hip-hop noutros terrenos mais intangíveis e hipnotizantes. Que ela se revele duradoira.



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