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Aspen

“Partimos para outras montanhas, sempre com o bilhete de identidade guardado.”

Tiago Pereira e Cristiano Veloso começaram como Cosmic Vishnu aos 16 anos. Aos 18 abandonaram esse projecto e agora, na casa dos 20, recrutaram Vítor Oliveira e formaram os Aspen – trio barcelense que se estreia com o EP “Winds of Revenge”, lançado no final do ano passado pela Lovers & Lollypops. Guitarra, baixo e bateria dão vida a cinco faixas instrumentais, que têm como base um pós-rock a roçar o heavy, adicionando-lhe um molho sujo de doom e ambiental.

Os elementos formadores de mais uma banda promissora da “cidade fantasma” (berço dos Black Bombaim, The Glockenwise, Dear Telephone, Shamans of Rock e Indignu) falam-nos deste novo projecto.

Sentem que já não têm nada que ver com o que eram em Cosmic Vishnu ou, pelo contrário, trouxeram a bagagem às costas e foram com ela explorar novas montanhas?

Cristiano – Aspen surgiu das cinzas de Cosmic Vishnu. Essa primeira formação foi uma descoberta para nós os dois. As nossas influências, para além de mais limitadas, eram mais direccionadas ao tipo de som que praticávamos. Depois disso, começámos a explorar outras sonoridades e apercebemo-nos que não fazia sentido continuar. Alargámos os horizontes e a abordagem passou a ser feita de maneira diferente. Mas, directa ou indirectamente, trouxemos toda a escola de Cosmic Vishnu para Aspen e demos-lhe um sentido mais amplo, complexo e até certo ponto diversificado, não só nas influências, como também no processo de criação. Partimos para outras montanhas, sempre com o bilhete de identidade guardado.

Como se processou a entrada do Vítor?

Tiago – Foi bastante natural, até. Devido à mudança que sofremos, notámos que o som a dois perderia intensidade e definição naquilo que queríamos transmitir, e a entrada do Vítor veio trazer aquilo que procurávamos.

Cristiano, diz-se que descobriste o nome “Aspen” num documentário, assim um pouco por acaso, e que só mais tarde se aperceberam das conotações montanhosas. É a paisagem que mais vos apraz?

C – É verdade, o nome surgiu através de um documentário que estava a ver na altura. Lembro-me que foi fácil associarmo-lo ao som que praticávamos, remetendo-o para paisagens naturais. Depois disso, apercebemo-nos das várias associações que foram feitas, sendo a neve e as montanhas que rodeiam a estância de esqui em Aspen, no Colorado, a mais usual. Apesar de nos identificarmos com tudo isso, o nome não surgiu a partir daí, mas a natureza torna-se, neste caso, um elemento essencial para nós.

“Winds of Revenge” é um regresso, mas acaba também por ser um ponto de viragem ou de partida – quase uma libertação?

T – É uma boa maneira de colocar as coisas. É quase isso, uma libertação. Queríamos romper com qualquer imagem ou ideia que tivessem de Aspen – vendo-nos como os ex-Cosmic Vishnu – e mostrar que isto é o que somos agora, e que a partir daqui vamos explorar esta e outras sonoridade. “Winds of Revenge” é uma afirmação, sem deixarmos que ela nos limite no processo de criação.

O vídeo dessa faixa deixa trespassar uma sensação meio ritualista. Vocês são de rituais?

T – Somos adeptos dos rituais praticados nas aldeias, que podem sempre ser fonte de inspiração para sonoridades místicas.

Existe uma banda paulista chamada Aspen. Tiago, tu gostas bastante do que por lá se fez durante e a partir do tropicalismo. Quais são os vossos géneros de eleição?

C – O tropicalismo está estampado no Tiago, na sua pessoa e na sua atitude. Costumo dizer que ele tem uma costela brasileira. Não temos um género de eleição, ouvimos música bastante variada, desde os flow’s dos  anos 60 e 70  até ao  doom/metal mais obscuro dos 80 – St.Vitus, Pentagram, Trouble – passando pelo punk/hardcore e, claro, pelo stoner que despertou a partir dos Kyuss. Mas também gostamos de jazz/blues, country, bossa nova, R’n’B, funk… Dentro de cada género, conseguimos sempre encontrar nomes que nos marcam, de uma maneira ou de outra.

Barcelos está a ver eclodir muitas bandas com elevado potencial. O que acham que aconteceu no meio envolvente que permitiu isso?

C – Barcelos está a crescer bastante. As bandas são muitas, os géneros os mais variados, e isto estende-se a outras áreas artísticas. O potencial é notório, bem como a vontade de criar. Já o processo de dar a conhecer funciona de forma diferente. Existem muitas bandas, mas poucas são aquelas que se preocupam em arriscar, em levar o seu nome para outros sítios, mesmo não tendo uma segurança de base. É fácil falar de Barcelos como a “Seattle portuguesa”, e até faz algum sentido, mas aqui são poucos ou nenhuns os espaços para concertos, e poucas as pessoas que se preocupam em trazer mais cultura à cidade. De salientar o Rock Rola, a HoneySound, a Lovers & Lollypops e todas as parcerias que se vão formando, essencialmente em torno dos mais novos. São estes que aparecem nos concertos, que constroem bandas e se preocupam em contribuir para o desenvolvimento da cidade.

Hoje em dia, acham que as pessoas são mais livres para formarem projectos deste tipo? A aceitação do que se produz a nível nacional é maior?

T – Claro, hoje os projectos estendem-se até onde a imaginação de cada um puder ir, e aí é que reside a essência e a piada, porque, independentemente de ser bem aceite ou não, as pessoas não vão parar de criar, e cada vez mais se vêem projectos diferentes e inovadores.

Como surgiu a colaboração com a Lovers?

C – A L&L surgiu na hora certa e no local exacto. A colaboração já andava para ser feita muito antes de editarmos o EP, mas a ideia de fazermos parte da editora ficou acertada poucos dias depois do último Milhões de Festa. O interesse era mútuo e as coisas compuseram-se naturalmente. Além da visibilidade que nos permitiu, sabemos que estamos com pessoas que compreendem o conceito por detrás da música.

Como é o vosso processo de composição?

T – Primeiro trabalhamos as músicas nos ensaios. Quando vamos a estúdio já levamos ideias concisas daquilo que queremos transmitir. Para a gravação do EP contámos com a ajuda de pessoas maravilhosas, como o João Brandão e o Cláudio Tavares. Os estúdios Sá da Bandeira acolheram-nos muito bem e estamos satisfeitíssimos com o resultado final.

Que bandas ou músicos vos têm impressionado mais, dentro e fora de portas, nos últimos anos?

T – Master Musicians of Bukakke, Wolves in the Throne Room, Zombi, Earth, Grails, Tigrala, Black Bombaim…

Cada um de vós vive em cidades diferentes. Entre Porto, Coimbra e Barcelos, não é difícil encontrarem-se para os ensaios?

T – É um bocado complicado. Dois de nós ainda estudam e o outro já está no mundo do trabalho, mas arranjamos sempre tempo para ensaiar em Barcelos.

Um sítio de sonho para um concerto seria…

T – Um qualquer templo na Índia.

Dia 10 de Fevereiro, os Aspen vão estar em Santo Tirso, no Carpe Diem Bar.



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