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“Até Morrer” – Os Passos em Volta

"Até Morrer" não é um álbum imediato (embora não desagrade à primeira); as suas maiores qualidades vão-se revelando pouco a pouco.

Junto-me tarde aos encómios dirigidos a “Até Morrer”; o álbum d’Os Passos em Volta figurou, muito justamente, em algumas listas dos melhores de 2011 e já vamos bem entrados em 2012. Apesar do atraso, ainda bem. Ao contrário do que se poderia esperar de uma banda de miúdos que pratica rock roufenho, quebrado e desafinado (elogios), “Até Morrer” não é um álbum imediato (embora não desagrade à primeira); as suas maiores qualidades vão-se revelando pouco a pouco.

A baixa-fidelidade da gravação, a dissonância dos instrumentos e das vozes, as canções a partirem-se aos bocados (elementos que trazem a grata lembrança da obra-prima «Evol» dos Sonic Youth), e até toda a história que envolve a Cafetra, uma pequena editora criada por putos entre os 18 e os vinte e poucos, ofuscam o que arrisco chamar de génio de João Marcelo, vulgo Éme, já um dos grandes compositores da música portuguesa — o próprio esconde as suas extremas sensibilidade e vulnerabilidade em letras aparentemente patetas e minimais (desenvolvem-se em pouquíssimos versos). Vou mais longe, e porventura deliro: Éme é tão bom como o jovem Lou Reed.

De resto, a música d’Os Passos em Volta traz à memória a dos Velvet Underground, principalmente da fase pós-saída de John Cale, a dos excelentes “The Velvet Underground”, “VU”, e “1969: The Velvet Underground Live”: Júlia Reis toca bateria como a Maureen Tucker; Pedro Saraiva é um Doug Yule desvairado; Maria Reis e João Dória fazem de Sterling Morrison (na verdade, Dória é mais Lee Ranaldo).

Posso estar a exagerar nisto tudo e Os Passos em Volta podem ser apenas uma bela revisão das glórias da “música alternativa” dos anos 80 e 90. No entanto, neste preciso momento, “Até Morrer” parece o álbum mais importante da música portuguesa dos últimos (e dos próximos) dez anos (cautela que vem aí o disco das Pega Monstro) e tenho a certeza que, por muito tempo que passe, «(São) Nicolau Breyner», «SantosPop», «Acustiquinha» (a pausa instrumental que qualquer álbum deve ter), «O Homem do Elevador», «Pizza e Garrafa de Vinho e «UDCN» continuarão a ser grandes canções.



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