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Atlas Sound – “Parallax”

Nada é verdadeiramente o que parece no mundo Coxiano.

Bradford Cox é um dos mais talentosos e fascinantes compositores da actualidade, e é, sem dúvida, o mais produtivo. “Parallax” mostra as diferentes alterações por que tem passado a sua sonoridade. É o seu álbum mais coeso até à data, onde cava mais fundo as suas obsessões.

Cox está sempre a gravar. Além do excelente compositor que é, ainda se sai bem nas funções de editor. O seu projecto com os Deerhunter e o seu trabalho a solo como Atlas Sound fazem parte de um sistema que se completa, ainda que com identidades distintas. Por exemplo, «He Would Have Laughed» e «Te Amo» são construídas em torno de um loop de ruído sintetizado, há um padrão que se repete e depois se afasta, para testar a elasticidade do seu alcance vocal.

Atlas Sound dá sempre saltos no caminho da evolução. Neste trabalho deparamo-nos com um Cox fascinado com os ambientes sonoros e a tristeza continua a correr-lhe nas veias.

A primeira parte do álbum é composta por grandes baladas acústicas. Em «The Sakes», Cox apresenta-se como um ídolo que cresceu cansado da fama, do dinheiro e dos parasitas disfarçados de amigos. A melodia prevalece sobre a complexidade. Em «Amplifiers», a percussão é espinhosa e exótica. Ambas transportam progressões de guitarra radiantes.

«Te Amo» faz uso da experimentação e reveste-se de um ritmo tropical dançável. A melodia continua a dominar com acompanhamentos graduais. «Modern Nightsongs Aquatic» segue a brisa tropical e junta-lhe sintetizadores. As guitarras são empurradas para o fundo da mistura e há uma sensação de serenidade. Cox mexe aqui com as convenções de camadas e texturas.

«Mona Lisa» é frágil, vibrante e talvez a mais “acessível” do conjunto, ainda que não a mais interessante, com uma acústica encantadora e influências pop. Conta com a voz de Andrew VanWyngarden dos MGMT. Já «Doldrums» é um retorno às obsessões atmosféricas.

Depois de «Angel is Broken» entramos em músicas mais moderadas e melancólicas. «Terra Incógnita» e «Flagstaff» são das faixas mais íntimas que Cox compôs até hoje. A primeira apalpa o terreno desconhecido e é quase um exercício popular dos anos 60, adensando-se nas atmosferas. A segunda é uma súbita explosão de energia, e soa mais a um final estendido da anterior do que a uma música individual. Depois da intimidade emocional, «Lightworks» volta às raízes, uma canção folk com guitarra acústica.

«Quark Part», 1 e 2, remontam à folk psicadélica dos anos 70. São as faixas mais experimentais de “Parallax”. Parecem até um pouco à margem, num álbum dominado por guitarras e paisagens naturais.

É um dos grandes álbuns do ano, cheio de clareza, e onde tudo flutua e nada é demasiado duro. Fala sobre a transfiguração do sentimento, sobre como escapar à educação dos subúrbios e à prisão psicológica que ela impõe, através da música, das drogas e da morte. “Parallax” está quase num plano etéreo. Depois de ter lamentado a perda, Cox congratula-se agora com o inevitável. Está mais confiante na pele de cantor e compositor, utilizando menos efeitos vocais e tornando-se mais envolvente e real. É um trabalho mais fluído e coerente, com músicas menos distintas umas das outras, equilibrando uma carga considerável de estilos contrastantes como se fosse a coisa mais natural do mundo. As músicas respiram e há uma nova leveza.



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