Avulsa Cénica 3 – Ilustração de Sara Pazos

Avulsa Cénica #3

Nuances primaveris.

Depois das palmas, como a actriz permanece em cena no pequeno palco rectangular, e não tem como se retirar para camarim pois encontramo-nos numa capela, muitos dos espectadores: religiosas, pessoas do bairro, velhinhos, crianças, vão ao seu encontro para lhe pedirem protecção, para agradecerem, para que as inclua nas suas orações, pedir coisas, pedir talvez milagres. Estão assim completamente postas de parte as premissas que a Sociologia Teatral (que horror!) estabeleceu há muito. Que lhes interessa que a Maria José Paschoal esteja a fazer uma interpretação (virtuosa, diga-se) da irmã Lúcia numa Convento que momentaneamente serve de teatro (Rua do Século, Convento dos Cardaes). Estas pessoas num acto de simplificação de toda a ganga teórica sobre a separação cena/palco esperam, algumas de lágrimas nos olhos, para irem ter com a actriz-santa. Qual Grotowsky? Qual pós-dramatismo que força até à exaustão uma cumplicidade muitas vezes confrangedora na forma como procura o olhar de quem sentado os olha? Nada disso, um bom figurino, um tema caro ao coração e uma actriz notável chegam. Não compliquemos. Uma flor de oração.

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Teatro da Graça. A primeira impressão que sobrevive a estes anos de encerramento é o cheiro daquele sítio. Parte madeira húmida, parte cânfora, parte apenas cheiro a antigo, mas de uma antiguidade do séc. XX (Orton, Fassbinder, Cocteau, Tchekhov), mas antiga. Entrei lá pela primeira vez já tarde, finais dos anos oitenta, nunca mais deixei de lá ir até ao derradeiroConstrutor do Ibsen já nas mãos da Graça Corrêa. Lembro-me que fui para ver os Tenessee Williams que nunca mais vi feitos daquela maneira em Lisboa. Carlos Fernando e Dalton Assef, os responsáveis, com as maravilhosas actrizes que os rodeavam. Antes de descermos as longas escadas mágicas até à sala na cave, lugar sempre diferente e não apenas pelas variantes cenográficas, havia esse foyer singelo, tecto baixo, balcão do bar com um inesquecível café de saco servido por uma velhinha Anfissa do Cerejal, não me recordo do seu verdadeiro nome. Sobre o balcão também um copo a fazer de jarra com margaridas do jardim em baixo.

Fiz lá a minha primeira encenação,Pompeia, em 1999. Tinha que ser lá.

Agora li no jornal que a Eira, produtora do Francisco Camacho se prepara para lá montar quartel. Fico contente por renascer esse tão grato espaço.

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Chegará o dia em que estes tempos serão conhecidos por ‘os dias do microfone no teatro’. Encenador que queira para si o carimbo de ‘pós-dramático cutting-edge’ não poderá abdicar desse instrumento. Pouco interessa o resto. Vivem-se os tempos do ‘loud’ (como diriam os psicólogos de extracção anglo-saxónica), a atenção e a paciência das pessoas têm limites mais críticos que desaconselham lirismos românticos de purezas acústicas e subtilezas de glote. Tudo grita. Há que se fazer ouvir também. Os sussurros russos dos amores tchekhovianos já eram, os apartes românticos dos delírios históricos de Hugo de nada servem. Os desesperos contidos dos confidentes gregos levam o mesmo caminho. Nada disso, centro de cena, o mais proscénio possível, luz a estalar e microfone em riste como em estado de comício permanente e não interessa se é Jon Fosse ou Plauto, é polissémico, como os tapetes do Brook; a tortuosa acessoria dramatúrgica lá os explicará na folhinha de sala. Não se lhes pode escapar. Não vá alguém não perceber.

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Em dias como estes os ensaios deviam passar-se à beira de uma ampla janela voltada para um jardim ou numa varanda ornamentada a vasos já floridos com os pequenos milagres de Maio. De lado com as caves escuras e os becos insalubres. Não nascemos para isso. Para o bem e para o mal o Kantor já morreu há quase vinte anos e estamos outra vez na Primavera, já repararam? Bem sei que os jardins ‘à francesa’ lisboetas não se prestam ao uso para neles podermos estar a ensaiar leituras, gestos, modos de fazer, mas sempre temos Monsanto.Tão de feição para certas paisagens e não me refiro apenas às bodas de Príamo e Tísbe. Faz bem um pouco de ar puro e cores naturais às escritas sufocadas dos tormentos nórdicos actuais ou às vogais tónicas das mansidões meridionais.  É Primavera, já repararam? Até Grotowski sabia disso quando levou as suas gentes para o Dia Santificado, na bota italiana, descido da escura Polónia. Sabia do esplendor das tardes floridas. As Bacantes também o faziam em pleno estio, céu aberto, ciclorama azul ultramarino natural. Deixemos o Inverno, é agora o teatro, como as flores.

 

Texto de Miguel Loureiro
Ilustração de Sara Pazos

Crónicas anteriores: #1 Après-midi de uma prótese / #2 Beberetes



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