Avulsa Cénica #1 – Ilustração de Sara Pazos

Avulsa Cénica #1

Après-midi de uma prótese

Café Namur, contíguo à Comédie-Française. Um allongé na mesa com a inevitável Perrier a acompanhar. O raro e suave sol parisiense de início de tarde a derramar-se sobre a esplanada virada para a Place Colette.

Eu e uma demoiselle, os únicos clientes sentados cá fora. Sorri-me, aceno-lhe. Bons modos gálicos, nenhuma intenção de seduzir, parece claro.

Cabelo em arabescos apanhados em ganchos, negligent estudado, ligeiro desdém pela paisagem. Rouge Bijou nos lábios. Tez pálida à maneira da Alsácia. Vestido de Verão soprado, estampado a camélias de Março, o corpo doce, bem tratado. Perna amputada do joelho para baixo, prótese ostensiva, um pouco menos rosada que a pele, de um tom macerado. Sapato de verniz, taco e fivela. Os olhos ocultos pelos óculos pouco escuros. A ler.

Volto ao meu poche acabado de comprar, “Le Paysan de Paris” (1926), Aragon, forma de abdicar dos horríveis guias de viagem modernos editados todos com as mesmas frases. Sem uso para mim. Mas em Aragon talvez pudesse confiar apesar de marxista empedernido. Talvez.

Assalta-me a necessidade de um nome para ela. Seria fácil perguntar-lhe. Seria também, decerto, uma desilusão. Permaneço sentado, poupado à tragédia de uma Fabienne ou de uma Sabine; com a Comédie ao lado, tais nomes parceriam indignos de tal enquadramento. Queria um nome para ela, mas que não a traísse o que nele ressoasse. Um nome é sempre um nome, desde Shakespeare que o sabemos. Há que a baptizar, foi o que então me ocorreu. Em silêncio.

Na construção da tarde que se seguiria faltava-me um nome para aquela companhia, à distância de duas mesas de esplanada. Não se tratava de o adivinhar, mas de o criar à revelia. Um nome que a entregasse de uma forma mais generosa às colunas de justa proporção que a enquadravam. O sabor do café seria suficiente para me voltar a dar o real do pitoresco turístico de mais uma praça de Paris, resgatado das minhas fantasias neo-clássicas. Mas o nome… ainda não.

O après-midi estendia-se, o sol mais oblíquo, novos ângulos de sombra no rosto, no meu, no dela. A silhueta mais recortada à medida da montra do fundo, montra da loja do teatro, uma biografia luxuosa de Talma, à direita do seu nariz, programas antigos da temporada 85-86 à esquerda, postais com gravuras de delicadas flores racinianas de declamação, românticas finisseculares. Todas muito pálidas como mandava o cânone da altura. Mas Fedra ou Phaedra seria ainda assim demasiado pretensioso para quem tinha a seu lado um saco dos armazéns Tati; Berenice um fastio de tormento delicodoce que nenhum Tito contemporâneo ousaria pronunciar e Ifigénia de lá para cá tornou-se nome de árvore. A evitar. Buscar em Moliére estava fora de questão e Corneille não me parecia com a leveza à altura de tal imagem. Recusada então a Academia que lhe dava fundo. Não me servia. Não lhe servia.

Nada disso serviu. Mas, olhando melhor, despontava ainda à esquerda alta um velho poster emoldurado com a efígie da Divina. Rosine, de seu verdadeiro nome, mas herdada para a história como Sarah, a Divina Sarah Bernardht. Também ela com prótese, mas na perna direita. Uma pequena variação que não comprometia o quadro. O fabuloso salto suicidário no vazio, da Tosca, último acto, depois de amaldiçoar o perverso Scarpia, na versão teatral de Sardou, um joelho ferido durante dez anos foi o resultado, até à sua amputação. Corria o ano da guerra de 1915.

Sarah, que já cortada de perna começara a fazer aforismos sobre braços, sobre como uns braços longos são indispensáveis ao belo gesto no Teatro. Teria razão. A esta Sarah da esplanada serviam-lhe para virar as páginas da “Paris-Match”, não consegui avaliar da sua lonjura. Esta minha Sarah de prótese de plástico não era a Bernardht das “Camélias”, mas como impávida oscilava o olhar entre a leitura e o maelstrom que desenhava ao mexer com a colher o café da chávena, dir-se-ia tratar da Cleópatra de Shakespeare, na decisão resoluta do gesto. Também belo. O sol da hora a adensar-lhe o enigma.

Deixei o café Namur às 3 da tarde. Não me lembro se antes, se depois de Sarah, pois distraíra-me com o Aragon. Foi assim que vi a minha Sarah na Comédie. Depois do almoço. Amputada. Com h no fim.

Texto de Miguel Loureiro
Ilustração de Sara Pazos



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