B Fachada | “Criôlo”

B Fachada | “Criôlo”

Este Verão somos todos africanos

B Fachada está para a música como, por exemplo, Michel Houellebecq está para a Literatura, ou Damien Hirst para a Arte. Um tipo que gosta de provocar o que, num País de mentes estreitas e caminhos tão apertados como é a Lusitânia, faz com que não haja direito ao meio termo. Ou se gosta muito ou, então, provoca no gosto uma fricção tão antagónica que despontam ganas capazes de reactivar fogueiras e queimadas de objectos musicais.

Ao longo da sua profícua carreira em edições, B tem-nos servido música composta a dois andamentos – um pouco como a Moda, que se vai dividindo entre as temporadas Primavera/Verão e Outono/Inverno. Há coisa de semanas fomos brindados com “Criôlo”, um disco pertencente à estação mais luminosa.

Nesta nova rodela, B deixa a guitarra no saco e atira-se de forma descarada aos teclados, oferecendo-nos qualquer coisa como um disco africano light, música de baile chique para dançar de corpos colados enquanto se trocam olhares marotos e se tecem lamentos por uma nação à beira do fanico.

“Criôlo” é uma festa imensa: Em «Afro-xula» dança-se para esquecer, entre o navegar de Fausto e a mensagem (não ler sms) de Fernando Pessoa; «98» serve para rever, sem qualquer arrependimento, uma escola feita pela via literária; em «Como calha» deseja-se que a vida seja para sempre airada, para não ter de se escolher entre “juntar-se a um homem lindo ou fingir que se vai dormindo”; «É normal» questiona o conceito de normalidade, levantando delírios filosóficos como este: “jantar com gente em roda, trabalhar até o final, muita mama e boa foda é excepcional. Mas papar a ver a bola, reformar por bater mal, mais ampolas para a cachola é normal”; «Carlos T» é mais um daquelas confusões sentimentais à moda de Fachada, entre o (falso?) desejo de assentar e uma bicuda relação entre amantes; «Quem quer fumar com o b fachada» funciona ao estilo do velho método duas e roda; «Tendinite» é um mau prenúncio para o uso abusivo da masturbação; «Baladona» é encerramento com tons de melancolia, como que a dizer que a festa foi boa mas é chegada a hora de ir para casa.

Depois de termos posto os calções de banho – ou bikinis, consoante o género – e dançado de felicidade num manto de areia, sonhamos já com a lareira e o disco melancólico que B nos irá oferecer na temporada Outono/Inverno. Por agora, “enrolas tu, fumo eu primeiro”. Soa bem. Soa mesmo bem.



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