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Balla

“Este álbum é uma súmula de tudo aquilo que já fiz”.

“Equilíbrio” é, provavelmente, o mais ambicioso disco dos Balla de Armando Teixeira. Entre um vasto número de convidados e um som mais expansivo, o quarto álbum de originais surge depois de “Resumo 2000-2008”. Mas, arriscamos nós, este é que é o verdadeiro resumo destes dez anos de Balla.

Offbeatz Sessão# 12, Musicbox, Cais do Sodré – a estreia do novo videoclip dos Balla. Uma percussão que dá lugar a uma guitarra que ginga, ao balanço rítmico de uns Cut Copy e às primeiras palavras de Armando Teixeira: “Vou fingir que me vais mostrar um mundo novo com que nunca me atrevi sonhar / Vou perder como posso ganhar, é sinuoso o atalho que vou trilhar / Vou escalar, é sempre a subir, está atenta, vais gostar de me ver cair”. E, de repente, cai o refrão de “Rapaz do Caleidoscópio”, dos UHF. O vídeo é interessante, mas a canção arrebata-nos. A reacção é a não reacção e a apresentação do vídeo passa para uma outra oportunidade. Ao longo de três minutos só conseguimos pensar naquilo que estamos a ouvir – uma canção pop perfeita. Na altura falámos com Armando Teixeira, mas este foi parco em palavras – apenas nos confirmou que iniciativas como o Offbeatz eram bem-vindas – não só para projectos estabelecidos, como os Balla, apresentarem novos vídeos, mas também como montra para novos projectos. Na altura, Armando Teixeira e os seus Balla ainda não tinham viajado para a Venezuela, onde actuaram no 1º Encontro de Jovens Luso Descendentes da Venezuela, em Caracas – a capital daquele país -, evento promovido pela embaixada de Portugal e pelo Consolado de Portugal em Caracas. Armando explica-nos as razões que levaram à viagem. “Convidaram-nos para ir apresentar a música nova que se faz em Portugal e mostrar, não só aos luso-descendentes, mas também aos venezuelanos em geral, que Portugal não é só fado e folclore que é a ideia que eles têm de nós” E completa, com humor: “E, agora, se calhar, o Magalhães”. E como aderiram os jovens a esta música que explora terrenos que vão da pop à electrónica, ao hip hop e até à chanson francesa? “Bastante bem. Foi uma recepção muito boa. Saímos nas primeiras páginas de alguns jornais. Foi mesmo muito engraçado… uma surpresa.” E o país? “Nós [Balla] fomos do ponto de vista do turista que vai com o mini bus e com um condutor que nos leva para todo o lado. Não temos a noção completa de como é que é o país, mas neste ponto de vista em que fomos, adorei. E adorei a forma como os portugueses estão implementados na Venezuela, a maneira como estão integrados na sociedade em geral. Ficamos com a sensação de que, se és português, as portas abrem-se todas na Venezuela. É mesmo uma emigração de sucesso.”

Recomeço

Há algum tempo que não tínhamos notícias dos Balla. Lembramo-nos da última edição, “A Grande Mentira”, já de 2006, lembramo-nos da incompreendida actuação na primeira edição do Oeiras Alive, quando tocaram antes de uns incríveis White Stripes e de uns enferrujados Smashing Pumpkins. Desde a edição de “Resumo 2000-2008” que os Balla de Armando Teixeira estavam parados. “Estivemos, pelo menos, um ano sem concertos”. Este período de silêncio encontra explicação nas palavras de Armando: “Estive a trabalhar no novo disco. Tive outras coisas para fazer, estive em [algumas] produções e na “Companhia das Índias” com o [Rui] Reininho. Mas o último ano foi completamente dedicado a este disco”. Este trabalho surge na sequência de “Resumo 2000-2008”, uma colectânea que, como o próprio nome indica, reunia algum material seleccionado dos Balla. Este disco pode ser visto como uma espécie de recomeço? “Pois, se calhar se for visto dessa maneira, com o “Resumo [2000-2008]” fechou-se ali uma trilogia, o que é capaz de fazer algum sentido. E agora [este disco] também é uma coisa nova, diferente pelo menos daquilo que eu tinha feito até agora. Mas, ao mesmo tempo, sinto que este novo álbum é também uma súmula de tudo aquilo que já fiz. Não é um disco de ruptura, de maneira nenhuma, mas também não é um álbum de continuidade. É um disco que abre novos caminhos e aproveita alguns já trilhados.” O músico confessa que foi responsável por todo o trabalho de gravação deste registo, um trabalho que o próprio músico assume ser solitário. “É um pouco, [mas] já estou habituado. É uma coisa que faz parte, acho que não sei fazer de outra maneira.”

Convidados e FlorCaveira

Para “Equilíbrio” Armando Teixeira chamou Luís Varatojo (A Naifa), Samuel Úria (o homem alto e de bigode da FlorCaveira), Joana Dinis Fonseca (cantora lírica) e Liliana Correia (Bullet). Como surgiram? “As coisas hoje surgem por acaso. Foi o caso do Samuel Úria [que participou em “Equilíbrio?”, a canção]. Encontrámo-nos quase a finalizar o álbum e queria que ele participasse num tema. E encontrei um em que achei que ele poderia ficar bem, quanto mais não seja por ser tão diferente daquilo que ele faz normalmente.” Aproveitamos para chegar à opinião de Armando Teixeira relativamente à FlorCaveira (Diabo na Cruz, B Fachada, João Coração, Tiago Guilul, Os Pontos Negros, etc): “Vejo [a FlorCaveira] com muito agrado. Tenho muito respeito por todas as bandas e principalmente pela forma como eles revitalizam o português que foi uma coisa que sempre fiz, embora com incursões em francês no “Le Jeu”. Sempre privilegiei a palavra cantada em português. E, durante muitos anos, assistimos a uma moda muito grande – o que era bom era cantado em inglês. Mas as duas podem coexistir e gosto muito da forma como eles usam a palavra. Se bem que acho que são todos demasiado acústicos, as bandas da FlorCaveira são todas demasiado acústicas. Gostava que existissem bandas mais electrónicas. No século em que nos vivemos faz sentido misturar essas coisas”. Basta ouvir o novo registo dos Balla para perceber o que Armando Teixeira quer dizer com isto da ausência de electrónica na música dos projectos da FlorCaveira – o que não é uma verdade absoluta como o provam os Diabo na Cruz. Voltamos às participações dos convidados de “Equilíbrio”. Em “Lixo”, o tema que conta com a guitarra portuguesa de Luís Varatojo, temos Armando a brincar com o novo fado. Chegamos à conclusão que esta canção podia ser d’A Naifa. “No caso do Luis Varatojo foi escolhida a guitarra dele para tocar naqueles temas”. Para além de “Lixo”, Varatojo toca também em “À Noite em Creta”. “Pedi-lhe para tocar nesses [temas], porque gosto muito da maneira como ele toca e achei que poderia ficar bem a guitarra portuguesa e, acima de tudo, a maneira como ele toca a guitarra portuguesa. A Liliana [Correia] canta comigo nos Bullet, por isso é uma pessoa que está próxima e mais cedo ou mais tarde [a participação] iria acontecer. Até foi sugestão do Miguel Esteves Cardoso – a primeira vez que ele apareceu com aquele tema, o “Ao Deus Dará”, foi ele que sugeriu a voz feminina para dizer aquela frase. A partir daí apeteceu-me experimentar mais um ou dois temas e foi isso que aconteceu. A Joana [Dinis Fonseca] que é uma cantora lírica que eu deste cedo já tinha pensado. Queria ter uma cantora lírica a cantar, o que se proporcionou”.

Um regresso e uma estreia

Mas nem só de músicos se fazem as participações deste “Equilíbrio”. Na escrita de canções, um regresso e uma estreia. O regresso de Miguel Esteves Cardoso – que escreveu a magnífica “Ao Deus Dará” -, depois de longos anos longe da escrita de canções, e a estreia de Pedro Mexia – responsável pela letra de “Lixo”. “O Pedro Mexia, quem o conhece, sabe que ele adora música e é muito musical. Acho normal ele fazer isto e acho que no futuro vai fazê-lo muito mais vezes, porque, para além de ser um bom escritor, [também] é um bom escritor de canções”. E acrescenta: “A proposta foi minha, mas ele também se ofereceu para o fazer. Ambos queríamos, mas não sabíamos como dizê-lo”. Já José Luís Peixoto, que escreveu “À Noite em Creta” e “Estranhos” “é uma pessoa que também já escreveu [para música] – principalmente fados. Gosta muito de música, é muito ligado à música e aproveitei a facção mais negra do álbum para ele escrever”.

Armando já esteve em projectos tão diversos como os Da Weasel, Bizarra Locomotiva, Ik Mux, Boris Ex-Machina e Bullet. É quase como ir a todas, atiramos em jeito de brincadeira. “Não é bem ir a todas. Temos muitos interesses. É normal gostarmos de muitas coisas e é normal em determinada altura das nossas vidas experimentarmos uma quantidade de coisas. Agora estou mais preocupado não em experimentar vários estilos diferentes, mas em manter o caminho, se bem que esse caminho, como eu já provei nestes quatro álbuns dos Balla, pode ser bastante diferente. Não tem que ser necessariamente fazer um álbum a seguir ao outro com a mesma forma. Isso nunca farei”, defende. Há mais algum projecto, para além dos Balla, em marcha? “Os Balla já me dão bastante trabalho. Agora vamos começar a tocar ao vivo. Já é bastante coisa. Tenho produções que vou fazendo e tenho um disco para fazer com o Rui Reininho para o ano. Uma coisa mais relacionada com a poesia, vou ter um ano em cheio”, revela. Para terminar, colocámos, por curiosidade, a seguinte questão: Qual a opinião de Armando Teixeira relativamente a este fim repentino dos Da Weasel. A resposta é lacónica: “Já não faz sentido falar sobre isso. Já passaram tantos anos… já nem me apetece”.



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