“Baronesa”, de Juliana Antunes|Grande Prémio Longa-Metragem IndieLisboa 2018

“Baronesa”, de Juliana Antunes

Grande Prémio Longa-Metragem do IndieLisboa 2018 (em ex-aequo com "Lembro mais dos Corvos" de Gustavo Vinagre)

Um filme não é sempre só um filme, é o resultado de um sem número de experiências e de visões, inevitável que seja produto imperfeita e grandiosamente inacabado e, por isso, tão fascinante. “Baronesa” é um dos exemplos mais requintados de como a inevitável imperfeição humana resulta tão bem no cruzamento do documentário com a ficção. Juliana Antunes, a jovem realizadora brasileira, não cozinhou o retrato desta favela de Belo Horizonte em dois dias, nesta que é a sua primeira longa-metragem. O trabalho de sequer pensar em filmar na favela foi demorado por toda a confiança que foi preciso ganhar, visitando os espaços da Vila Mariquinha, onde foi rodado, falando com as pessoas que frequentavam os espaços mais procurados, sobretudo falando com as mulheres, já que esse era o objectivo fulcral. A naturalidade da maioria das cenas do filme só foi possível devido a esse enorme trabalho que é entrar num espaço frequentemente vigiado e extremamente fechado, onde por princípio as mulheres se encontram enclausuradas e de onde não podem sair. Foi também necessário um enorme trabalho de improviso, por contraditório que possa parecer, já que o plano do filme era decidido no dia-a-dia, reflectindo a adaptação e flexibilidade a uma realidade nova para as pessoas daquele espaço. O facto de a equipa de filmagem ser exclusivamente constituída por mulheres levou a uma ainda maior cumplicidade, sobretudo em determinadas conversas mais íntimas e, simultaneamente, mais francas e jocosas do filme.

Em certa medida, é essa a tragédia e beleza de “Baronesa”, o filme documental ficcionado cujo sopro de inspiração reside sobretudo nas figuras de Andreia e Leidiane, duas mulheres reais que vivem na Vila Mariquinha. O espaço da favela é, de facto, uma espécie de castelo mal encantado em que as figuras femininas, não-brancas e não-ricas, vivem em perpétua esperança nas pequenas coisas a que se podem agarrar, talvez por isso pareça um filme feito de pequenas felicidades. O objectivo de Juliana Antunes não era o de retratar a violência, já tão sobejamente retratada nos meios de comunicação (quase como se já se tratasse de ficção) mas focar-se no modo de ver o mundo daquelas mulheres em particular, que aceitaram ser filmadas.

um grande castelo de sonhos reais

Este mundo da favela, ainda que híbrído no recurso simultâneo à ficção e ao documentário, recorre muito a um ideal de existência ficcionado, tanto no modo como Andreia e Leid discorrem sobre os seus sonhos e preocupações como no próprio espaço que ocupam, o de uma favela que não existe na realidade. Entre os despojos de casamentos, fidelidades mal casadas, filhos em que lateja a violência do pai preso, este é um filme que quer ignorar o presente e pensar só naquilo que poderia ser a realidade, é um plano para um futuro diferente mas em que a cruz de ter nascido neste contexto aflora em momentos como o da experiência da arma, o tiroteio ou a da proximidade abusiva entre as crianças do filme, como que não conhecendo os limites da decência ou mesmo de uma infância verdadeiramente inocente.

“Baronesa” podia não se chamar assim, podia ser “Vila Mariquinha” ou qualquer outro nome mas a escolha impõe uma nobreza de carácter, a imponente realidade dos membros de famílias em cujo sangue corre realeza e linhagem. Nas veias destas mulheres corre essa nobreza de carácter apesar do entorno em que se movem com tantas limitações físicas, sendo livres e prisioneiras em tempos simultâneos. Presas no castelo que é a favela, que as protege e impede de viver em liberdade mas livres nas imagens que podem desenhar para si mesmas, cuja imaginação não pode ser arrestada ou limitada. Pouquíssimas são as vezes que estas pessoas reais se movimentam fora das paredes das casas que construíram, paredes despidas, chão de cimento, momentos de recolher obrigatório para fugir às balas mas Juliana Antunes não as retrata como vítimas, antes como heroínas. Andreia toma muitas vezes lugar de protagonismo muito por culpa da grande paixão platónica da realizadora pela mulher que sonha em construir uma nova vida (como a própria admitiu em entrevista), um acaso feliz em que o grande desafio foi o de a convencer a fazer o filme. É nela que se congrega a esperança de existir de outra maneira, longe da prisão inevitável da violência sem sentido, quando num dos raros momentos de mobilidade física, Andreia traça o seu próprio caminho, sozinha pela estrada toda feita de pó e misérias que ficam para trás, constrói o seu castelo com janelas.

é um filme que quer ignorar o presente e pensar só naquilo que poderia ser a realidade

Feito com as suas próprias mãos, fá-lo com base na fixação de se mudar de uma favela para outra, mais segura, a Baronesa que dá título ao filme mas essa mudança não é tão simplesmente o sair de um sítio condenado para outro. Andreia leva consigo todas as mulheres em cuja condição não houve produto da escolha, em que a prisão não é a de uma cela mas a dos limites dos homens e em que inevitavelmente a pobreza e a cor da pele condicionam e trancam todas as possbilidades de viver de outra maneira. Andreia constrói o verdadeiro castelo da liberdade em que nenhum homem ajuda, em que nenhum homem mostra sequer vontade em ajudar, não pela preguiça do corpo mas pela preguiça da alma, pelo hábito do status quo, pela maneira de fazer tudo igual todos os dias, num ritual que mantém convenientemente o poder através do medo da mudança. Em Andreia, esse medo existe em potência mas não a paralizou e é essa imensa esperança, essa grande ficção que inspira outras mulheres, que quer mostrar que não tem de ser um destino, um fado sem caminhos alternativos. “Baronesa” é um grande castelo de sonhos reais em que as mulheres que Andreia personifica, sendo uma mulher real, podem finalmente sair, ainda que timidamente, das prisões que a mente cria e o corpo perpetua com medo de perder a segurança das afinal tão frágeis paredes.



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