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Barreiro Rocks 2009 @ Os Ferroviários

Dois dias de festa, expressão musical, comunhão e, claro, muita cerveja.

Há dias, em conversa, um amigo meu dizia que o problema de festivais tão específicos, como este Barreiro Rocks, é que ao fim de um pouco de tempo, tudo soa ao mesmo. Obviamente, esta é uma falsa questão, por ser demasiado redutora. E bastava estar num dia de Barreiro Rocks para escutar bandas rock muito diferentes entre si, desde o garage mais urgente e demolidor, até ao rock’n’roll mais refinado, burlesco ou saloio. No entanto, não deixa também de ser uma questão sucintamente verdadeira. Porque o rock sempre foi sinónimo de muitas coisas, mas a maioria delas sinónimas – festa, expressão de todas as naturezas e feitios, comunhão e, claro, álcool.

Ao oitavo ano de festival, o Barreiro Rocks manteve a estrutura, mas não descurou na qualidade. O local era o mesmo, as condições também e até a marca de cerveja se manteve. Renovou-se portanto o cartaz, mantendo (aumentando?) o nível da programação de anos anteriores. Os cabeças-de-cartaz – Kid Congo Powers e Tav Falco – voltaram a ser veteranos, o que começa já a ser uma tradição do Barreiro Rocks, depois de outras lendas vivas no passado (André Williams, Billy Childish ou os Gallon Drunk); muitas bandas nacionais entre as doze do alinhamento, o que vem provando que o rock está vivo e de saúde em Portugal; e um batalhão de espanhóis, tanto em cima como fora do palco, mostrando aos mais distraídos que o filão rock de nuestros hermanos é das coisas escondidas mais valiosas neste género musical.

Como tem sido hábito nos últimos (seis) anos, a Rua de Baixo não faltou à chamada daqueles que são os dois dias mais longos (e aguardados) do ano. As experiências foram muitas, mas como algumas são contas que não interessam para este rosário (e outras nem sequer podem ser contadas), o que fica para a posterioridade é a música. E, para facilidade do leitor, nada como esquematizar a coisa de forma muito organizadinha.

PRIMEIRO DIA

Singing Dears

A abertura do Barreiro Rocks voltou a ficar a cargo de uma banda da casa, os Singing Dears, nova coqueluche da Hey Pachuco, casa-mãe de outras instituições do rock’n’roll nacional como os Act Ups ou o Fast Eddie & The Riverside Monkeys. Com um recém-lançado disco, “Like An Insect”, os Singing Dears são garage-rock à séria (olá Bloody Hollies), agreste e de quinas lascadas salientes, que se faz sobretudo de guitarras e de um baterista que agride literalmente a bateria. Tal como o disco, o concerto abriu com um riff que parece tirado dos Queen (falo de «Year 2K» e de «Crazy Little Thing Called Love», respectivamente), mas que é só a rampa de lançamento para meia-hora de um rock roufenho, mas igualmente sensual. Com os Singing Dears o rock’n’roll volta a ser uma coisa perigosa que nós não queremos que a nossa irmã mais nova oiça. E o temalhão «No Beauty Queen» soa a Gories por todo o lado!

Destination Lonely

Da França chegou-nos um dos nomes desconhecidos do festival, apesar de contar com membros dos Fatalts e dos Sonic Chicken 4 (os primeiros também já passaram pelo festival). À primeira vista são um power-trio de guitarras e bateria, mas na prática apresentam antes um rock ritual, que regressa às raízes da música norte-americana – os blues e a country –, mas em vez de as fundir com o punk como os Gun Club, transformam-na em lamentos pós-qualquer-coisa, cheios de reverb e melancolia. Não é por acaso que, guitarrista e vocalista, se arrasta deixando atrás de si um rasto de decadência cool.

Tokyo Sex Destruction

Os Tokyo Sex Destruction que regressaram este ano ao Barreiro Rocks não podem ser os mesmos que lá estiveram em 2003. Eu sei que seis anos de distância são muito tempo, mas a viragem musical da banda foi quase de 180 graus. Os Tokyo Sex Destruction que por cá passaram da primeira vez eram os Hives espanhóis, igualmente fardados (mas com gravata vermelha) e igualmente com um rock musculado, suado e de alta voltagem. Agora, os Tokyo Sex Destruction que por cá passaram descobriram o LSD, os ácidos e, consequentemente, o psicadelismo, ao mesmo tempo que resgataram ao tempo a música negra com que se fez a história da música dançável, nomeadamente o funk e o soul. A meio caminho entre a fusão dubbed-funk de Sly and the Family Stone (o vocalista está, inclusive, possuído pelo espírito de James Brown e pelo tipo dos !!!) e as trips dos Doors (se bem que aqui as teclas só vão funcionando a espasmos), os Tokyo Sex Destruction deram um espectáculo de fazer suas as estopinhas. Infelizmente, continuam a precisar de encontrar, pelo menos, um par de verdadeiras canções que façam valer o concerto. Em sua defesa, tiveram ainda o prémio de serem os primeiros a quebrar os limites entre palco/artistas e público.

Kid Congo & The Pink Monkey Birds

Não foi a primeira vez que Kid Congo Powers veio a Portugal (ele, o fundador dos Gun Club, antigo guitarrista dos Cramps e dos Bad Seeds, e colaborador de gente tão infindável e valorosa, como os Make-Up ou os Dead Combo), nem tão pouco a primeira vez que veio apresentar “Dracula Boots”, o seu mais recente álbum. No entanto, dificilmente teve um cenário tão propício para actuar. Kid Congo & The Pink Monkey Birds só se podiam sentir em casa, tocando no ginásio do Grupo Desportivo Os Ferroviários, depois de “Dracula Boots” ter sido gravado no ginásio de uma escola secundária abandonada, ideal para espelhar aquele sixties-beat festivo e juvenil de uma altura que viveu à conta da sua própria mitologia. Kid Congo, pose teatral e demasiado cool para uma só pessoa (poucos se podem gabar de ficarem bem com um bigode à Cantiflas), já pertence à mobília do rock’n’roll e só assim se pode dar ao luxo de despachar logo ao terceiro tema o mítico «Sex Beat» (com menos octanas que o original) e, mesmo assim, ganhar o concerto. No final, jogou-se ainda de garras de fora ao psychobilly para homenagear Lux Interior – «I’m a Cramped» –, tendo sido obrigado a retornar a palco para o primeiro encore do Barreiro Rocks de 2009, terminando novamente ao som dos Gun Club, com «For the Love of Ivy – You look just like an Elvis from hell!!»

SEGUNDO DIA

Shake Shake And Show Me Your Pussy

Para mostrarem que nem só de The Gift se faz a música de Alcobaça (ou Alconaça, como os próprios referiram) os Shake Shake and Show Me Your Pussy personificam toda a sexualidade e entrega características do mundo do rock n´roll. E, mais do que apenas no nome, isso também se reflecte nas letras e na atitude física e desafiante com que a banda se apresenta. Mais coesos e ensaiados que em prestações anteriores, os Shake Shake começam a ganhar mais corpo e mais identidade. Isso sentiu-se embora saibamos que, acima de qualquer pretensão mais ou menos profissional, eles procurem simplesmente aproveitar esse lado apetecível do “fazer parte de uma banda rock”. Não quer isto significar desleixo, mas certamente não se estarão para chatear para certas coisas e coisinhas que nós possamos aqui apontar.

The Sullens

Pode-se dizer que os Sullens eram a outra banda a jogar em casa, uma vez que a Moita (de onde são naturais) é quase pegada ao Barreiro. No entanto, a noite não parecia ir correr bem. Depois de uma abertura gospel cantada a várias vozes, problemas técnicos obrigaram a uma pausa que pareceu ter adormecido o público. Mas os Sullens não começaram nestas coisas há pouco tempo – são uma das grandes bandas de culto do rock da margem sul – e souberam ir subindo a pulso. A Moita tem tradição tauromáquica e, talvez por isso, os Sullens se mascarem de cowboys saídos de Sullenville, algures na fronteira entre o México e os Estados Unidos, à direita de quem vem de El Paso, com um rock’n’roll sulista sempre mais perto dos Canned Heat do que dos rednecks Creedence Clearwater Revival. As guitarras colam-se ao imaginário, o Bonanza parece estar a dar outra vez na televisão e os Shadows são agora punk-rock. E os Sullens foram os grandes vencedores do festival, voltando inclusive para o encore.

Jon Ulecia & Cantina Bizarro

Para quem viu Jon Ulecia a passear pelo festival no dia anterior, não conseguiu deixar de ficar espantado como é que os anos 80 ainda não lhe tinham ligado a pedir o estilo de volta: gabardine escura, cabelo cuidadosamente despenteado e pose gótica, com Cure ou Jesus and the Mary Chain escrito por todo o lado (assim como também surpreendeu como é que o baixista conseguiu roubar o bigode e os caracóis ao Burt Reynalds sem ele dar por isso). No entanto, o que se ouviu quando subiu a palco não teve nada de pós-punk ou de shoegaze. O que se ouviu levou-nos aos anos 70, sim, mas antes o Lou Reed circa “Transformer” (os Velvet Underground estavam por todo o lado), o David Bowie a enterrar o glam ou mesmo um pouco dos Gun Club. Mau? Não, antes pelo contrário. Mas ligeiramente desadequado ao resto do festival.

Tav Falco and Panther Burns

E para o encerrar o final, novo veterano e outra lenda viva: Tav Falco! O senhor suave é daqueles que continua a encarar o rock’n’roll como arma de sedução para sacar miúdas. Toca rock’n’roll como o Elvis, mas prefere emular o Elvis de Las Vegas, quando laçava as mulheres da audiência com o seu lenço, do que o seu movimento pélvico. Para isso, cruza o rockabilly com os ritmos suaves latinos, dançando inclusive o tango com a sua companheira. Por vezes, há duas meninas nos coros embelezando as canções, com um toque vaudeville. No final, feitas as contas, foram quase duas horas de rock, que deixaram o público extasiado, mas igualmente esgotado demais para pedir o encore.



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