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Barreiro Rocks 2010

Dez anos! O Barreiro Rocks está a dar-nos rock há dez anos. E mesmo com tudo o que possamos dizer ou escrever sobre ele, nada parece ser realmente suficiente para agradecer.

Nesta celebração do décimo aniversário, nos dias 12 e 13 de Novembro, a organização programou aquele que descreveu como “o melhor cartaz de sempre”. Depois da passagem de autênticas lendas vivas do rock’n’roll em edições anteriores, como Tav Falco ou (sobretudo) Andre Williams, o Barreiro Rocks deste ano presenteou-nos com o melhor da actualidade rock. Assim, o primeiro dia foi (literalmente) dos miúdos, do estreante em palcos europeus, Ty Segall, aos regressados Strange Boys, que vêem provar que, por mais velhos do Restelo que apareçam, o rock’n’roll nunca irá sucumbir. Basta que haja algures um miúdo descontente, com vontade de gritar e fazer barulho.

Quanto ao segundo dia, foi inteirinho para King Khan, o monhé de boné do hip-hop que viu todos os concertos no meio do público (outra das saudáveis características do Barreiro Rocks, em que artistas e público se misturam em comunhão para, simplesmente, celebrarem o rock’n’roll). King Khan e os seus Shrines foram os homens do festival, assinando um dos melhores concertos que já passaram pelo palco (e pelos espaldares) do Clube Desportivo Ferroviários do Barreiro.

DIA 1

Tiago Guillul

A última vez que vimos Tiago Guillul em palco (curiosamente, foi também no Barreiro) o formato apresentado era consideravelmente diferente. Agora, em vez das teclas havia um percussionista e, em palco, havia mais um baixo e uma guitarra. No entanto, por mais que os arranjos mudem, as suas músicas soam sempre bem. É impressionante a segurança de Tiago Guillul em palco e da sua música. A secção rítmica saía assim reforçada para o rock’n’roll em português de Guillul, confesso admirador da história afro-americana da música anglo-saxónica. Basta ver como temas como «Dentes de lobo» misturam o rock’n’roll com os ritmos africanos, trazendo para a linha da frente os Vampire Weekend e o Paul Simon, de «Graceland». “Isto é rock’n’roll, avisem as autoridades”, gritava, enquanto o volume ia aumentando e o concerto ia ganhando músculo, mas sem nunca esquecer as fórmulas mais básicas do rock, do funk, dos coros… “Daqui a dois dias, o DN vai escrever que no Barreiro Rocks se fez singalong e a vossa reputação vai ficar arruinada”, avisou. No final, «Queluz está a arder», recuperado do espólio dos Comboio Fantasma, acabou em beleza um concerto que ainda prestou o melhor tributo possível ao Barreiro Rocks, ao levar Nick Nicotine para palco, para interpretar «Barreiro rock city», do último álbum de originais de Guillul.

Ty Segall
“Esta é a coisa mais fixe que já fiz em toda a minha vida”, desabafou Ty Segall às tantas, durante o concerto no Barreiro Rocks, o seu primeiro de sempre na Europa. Segall, o miúdo que ainda há pouco tempo andava a gravar umas cassetes ruidodas no quarto da sua casa, em São Francisco, não conseguia esconder o nervosismo da estreia em palcos europeus, um “sonho” que realizou pela primeira vez no Barreiro. Apesar disso (e das paragens demasiado longas entre temas, que cortavam o ritmo à actuação), a actuação de Ty Segall foi curta e directa. E o público não o deixou ir embora sem dois encores, em formato discos pedidos, ou não fosse ele autor de um dos melhores discos rock do ano passado (alguém mencionou “Lemon”?). Ty Segall é uma espécie de encontro entre o garage-blues mais imediato dos White Stripes com o punk dos Nirvana, recordando-nos da importância que a banda de Kurt Cobain teve no rock’n’roll e que nós, por vezes, tendemos a subvalorizar (a culpa é da sobrexposição dos Nirvana nos últimos anos). E, como brinde, o concerto teve ainda uma versão compacta de «Paranoid», dos Black Sabbath.

Demon’s Claws
Quatro miúdos em palco, uma pose imperturbável de “vão-se lixar, sou um rockstar” e um flower-rock circular e intenso, mas longe da exuberância dos Black Lips (sempre os Black Lips quando é necessário comparar estas novas bandas garage-rock): foi esta a moldura do concerto que os Demon’s Claws trouxeram a Portugal. Depois do impacto da actuação anterior de Ty Segall, o psicadelismo e o surf dos Demon’s Claws tardou em entrar, mas, qual mantra hipnotizante, levou-nos por uma viagem ampla, distorcendo e arranhando o r&b britânico (o vocalista Jeff Clark vestido à Union Jack) e o folk-psych da década de 60 (olá Kinks, olá 13th Floor Elevators), transportando-nos para as novas orientações lo-fi que o rock’n’roll nos tem trazido nesta viragem de século.

Strange Boys
De regresso a Portugal, onde já abriram inclusive o festival de Paredes de Coura, os Strange Boys repetiram a fórmula dos Demon’s Claws, mas mais apurada. Normalmente comparados aos Rolling Stones ou a Bob Dylan iniciais – comparações válidas, é certo -, os Strange Boys são mais uma espécie de Black Lips sulistas, com saxofone em vez de harmónica e slide guitar. Com direito a invasão de palco de uma jovem que dançou como se não houvesse amanhã, os Strange Boys encerraram a noite em crescendo. Por nós, tinhamos ficado lá mais meia hora…

DIA 2

Tiguana Bibles
O segundo dia abriu com o regresso de Vítor Torpedo (ex-Parkinsons, ex-Blood Safari) e de Kaló (Bunnyranch) ao palco do Barreiro Rocks, mas desta vez ao mesmo tempo. Eles, que em tempos foram parte daquela instituição que foram os Tédio Boys, têm agora os Tiguana Bibles, neo-country ao feminino a que a voz (e a presença) aveludada de Tracy Vandal dá um toque de glamour burlesco de cabaret. Com alguns pózinhos cósmicos aqui e ali, os Tiguana Bibles retiraram o country-surf dos territórios retro cunhados por Quentin Tarantino e levaram-no para as salas kitsch e surreais de David Lynch na qual se transformou a sala do Barreiro Rocks no arranque do segundo dia.

Nicotine’s Orchestra
Aqui há uns tempos atrás, Nick Nicotine dizia no seu myspace que o seu projecto Nicotine’s Orchestra tinha novos membros. Eram fantasmas, ou melhor, outras personalidades suas, os quais ele tinha gravado e avisava que “soavam lindamente”. Agora que o novo disco, “Ghosts and spirits”, está cá fora e é preciso transportá-lo para o palco, Nicotine viu-se obrigado a transformar o seu projecto one man band numa banda de formato tradicional. Perde o imediatismo visceral e a atitude que a sua Nicotine’s Orchestra tinha ao vivo (em que tocava bombo, guitarra, teclas e cantava) e ganha em prodção e musicalidade. Nick Nicotine tornou-se no Brian Wilson do Barreiro e nem faltam as harmonias vocais, num rock’n’roll solarengo, mas habitado de fantasmas. Tal como Tiago Guillul, no dia anterior, a Nicotine’s Orchestra deu uma das actuações do Barreiro Rocks deste ano e uma lição de como fazer um concerto rock.

Davila 666
São a maior banda de rock’n’roll do Porto Rico (até porque não conhecemos mais nenhuma) e as expectativas eram grandes para o Barreiro Rocks. Especialmente, porque a banda fez questão de fazer saber que estava em pulgas para incendiar nesta sua estreia em solo nacional. E não se pode dizer que não tenham cumprido as promessas. Seguindo a escola rock latina, a que estamos habituados no Barreiro Rocks com as bandas espanholas que costumam fazer parte dos alinhamentos do festival (lembramo-nos, especialmente, dos Atom Rhumba, que fecharam o certame em 2006), os Davila 666 abriram de vez a pista de dança e o moshpit, quais Monkees nas anfetaminas, precedendo a grande estrela da noite, King Khan, com um concerto cheio de suor, maracas e dores nos pés.

King Khan & The Shrines
E eis que sobe ao palco King Khan e os seus Shrines para o concerto da noite (da noite? do festival!). Armado em pregador soul-rock, King Khan é o improvável mestre de cerimónias de uma big band completa, onde não falta uma secção de metais e um teclista louco, como convém, que não sabe quais são os limites do palco. King Khan também gosta de interagir com o público e, por mais do que uma vez, desce lá de cima para desbundar junto à fila da frente de uma sala esgotada. Qual Wilson Pickett afogado em ácidos, o concerto de King Khan & the Shrines é uma celebração interminável de rock’n’roll, com um efeito galvanizante cada vez maior, numa das melhores actuações de que há história no Barreiro Rocks, lembrando outras noites épicas, como aquela, em 2005, em que a lenda Billy Childish esteve na rock city portuguesa.



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