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BAUHAUS

O Modernismo nasceu há 90 anos. A “casa de construção” surgiu em 1919 na extinta República de Weimar da mente artisticamente radical de Walter Gropius. Este "estilo" influenciou e continua a influenciar arquitectos e designers.

O ano de 2009 marca nove décadas de Modernismo, nato aquando da fundação da Bauhaus no ano de 1919 na extinta República de Weimar. O nome desta escola de arquitectura, design e artes plásticas foi um produto da mente artisticamente radical de Walter Gropius, o fundador, e significa literalmente “casa de construção” na linguagem alemã

“Desejemos, inventemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que reunirá tudo numa única forma: arquitectura, escultura e pintura que, feita por milhões de mãos de artesãos, se alçará um dia aos céus, como símbolo cristalino de uma nova fé vindoura”, escreveu, em Abril de 1919, Walter Gropius no Manifesto da Bauhaus. Mas contextualizemos: um ano antes, a Alemanha, saída derrotada da Primeira Guerra Mundial, testemunha a queda da sua monarquia, enquanto assiste à declaração da República de Weimar como um Estado livre, onde um governo provisório de esquerda assume o poder em conjunto com a velha burocracia e procede à abolição da censura, levando ao ressurgimento da experimentação nas artes, algo que se encontrava sob opressão do anterior regime.

Um “admirável mundo novo” perfeito para Walter Gropius, arquitecto que integrava o Werkbund (Federação Alemã do Trabalho), explorar a solução para a sua crise existencial assente em duas decisões. A primeira é revelada numa carta enviada à sua mãe, em Março de 1919 onde confessa ter “transformado completamente o seu mais profundo interior”, ajustando-se “aos novos desenvolvimentos que surgiam com grande força”. A segunda consiste no facto de o próprio se ter convencido a abster-se de tomar partido em assuntos políticos (apesar de serem conhecidas as suas ideologias de esquerda), tornando-se, contudo, radical em termos de arte. É neste sentido, que Gropius vê aceite, em 1919 pelas autoridades de Weimar a sua proposta para que a Escola de Artes e Ofícios e a Academia de Belas-Artes funcionem em conjunto sob o nome Bauhaus.

A acompanhar esta nova escola, surge o Manifesto da Bauhaus, no qual o arquitecto promove a colaboração entre artistas e artífices, mencionando que não existe “nenhuma diferença essencial” entre ambos e que a base do “saber fazer é indispensável para todo o artista”. Assim, a fundação da Bauhaus aparenta ser o acender do rastilho de toda a discordância de Gropius relativamente aos três principais tipos de escolas de arte na altura.

No seu livro Bauhaus 1919-1923, o arquitecto acusa as instituições de formação de arquitectura e de artes visuais de criarem um “proletariado artístico”, que carecia de preparação “para as lutas da vida”. Aos seus olhos, as escolas de artes e ofícios proporcionavam uma formação que promovia o “diletantismo”, sendo “irrelevante” e com “instrução insuficiente em termos de ofícios e tecnologia”. Gropius procurava a criação de produtos altamente funcionais que mantinham, mesmo assim, os seus atributos artísticos, procurava um novo estilo arquitectónico fruto do reflexo da nova época pós-guerra. Estava igualmente munido de uma abordagem económica que se traduzia na industrialização da produção de habitações através do uso de tipos e componentes-padrão. Ficam assim demonstradas as convicções artísticas e educacionais que Gropius tinha para a Bauhaus.

Fora com o velho…

Walter Gropius estava imerso na teoria de que o objectivo do edifício, a sua forma funcional, tinha de ser elevado até ao nível de forma de arte, para permitir que o próprio edifício reflectisse o espírito do seu tempo. Procurava a união entre a arte e a tecnologia, levando-o a desenvolver um estilo de ruptura com as justificações históricas para os estilos arquitectónicos, substituindo-as por princípios como Kunstwollen (o desejo do artista pela forma) e, mais uma vez, “arte e tecnologia”. Era esta a sua perspectiva “a-histórica” que viria a tornar-se a perspectiva do Modernismo. Gropius considerava também que a história ensinada nos programas de arquitectura da época era um peso desnecessário.

Nos primeiros anos de existência, a Bauhaus acolheu as abordagens de artistas modernos como os pintores Wassily Kandinsky, Paul Klee e Johannes Itten, que vieram reforçar a o afastamento da arte baseada em conceitos históricos, para privilegiarem um novo ideal artístico assente em princípios como a realização do ideal do “novo homem”. Entre 1919 e 1933, a escola teve três directores – Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Rohe – e um grande número de docentes, de várias nacionalidades, que proporcionaram a introdução de movimentos como o expressionismo – do qual Gropius procurou afastar-se – ou o construtivismo, sempre numa corrente de vanguarda. Em termos de formação oferecida, a Bauhaus de Gropius era uma escola de artes e ofícios reformada. A Bauhaus de Weimar dispunha de oficinas para vidro, cerâmica, tecelagem, metais, carpintaria e pintura mural, escultura de madeira e de pedra. Albergava também oficinas de artes de palco, impressão e encadernação.

Contemporâneo e funcional

Apesar do manifesto de Gropius aquando da fundação desta instituição de ensino, apenas se começou a leccionar arquitectura na Bauhaus em 1927, o que não impede que este estilo seja ainda alvo referência pelos arquitectos actuais. É considerada arquitectura moderna, por uns, funcional, por outros.

Para Miguel Gallego, arquitecto da 37 Design, o estilo Bauhaus «é um dos movimentos que dá significado às palavras “arquitectura contemporânea”». «Em 2010 olhar-se-á para uma obra Bauhaus e irá concluir-se que esta continua a ser moderna e continua a ter uma linguagem actual», explica, acrescentando que este projecto surge «como uma escola onde todas as artes se juntam e na qual Gropius tenta criar um movimento onde as artes andam de mãos dadas com a indústria e a produção em massa», no sentido de «introduzir uma nova forma de viver, de pensar e de observar». Na opinião deste arquitecto, o funcionalismo consiste numa «nova forma de abordar a planta». Contudo, não considera que exista arquitectura Bauhaus, «mas sim arquitectura com fundamentos desta escola». «A arquitectura de hoje tem uma grande pegada da Bauhaus», reitera. E o legado, em parte, são as próprias estruturas que acolhiam professores e alunos, em Weimar e em Dessau, para onde a escola foi forçada a mudar-se, após nunca ter sido completamente aceite em Weimar.

A obra em Dessau é considerada o projecto mais convincente de Walter Gropius, em conjunto com a Fábrica Fagus, projectada em 1911. Gallego concorda: «o que traz relevância à arquitectura praticada na Bauhaus são as intervenções realizadas por Gropius em prol da própria instituição, nomeadamente as instalações das escolas», não se esquecendo também do urbanismo. «Há bairros alemães feitos inteiramente com os códigos desta escola.» E embora este arquitecto ache redutor falar-se da Bauhaus somente em termos de arquitectura, opinando que esta escola «é uma das novas formas de pensar o novo homem», sendo exemplos disso «a produção em massa do design e da escultura», não tem dúvidas quando afirma que «se a arquitectura fosse fruto de uma árvore, uma das mais proeminentes raízes seria a Bauhaus». O que torna então os códigos arquitectónicos da Bauhaus tão distintos? «Tudo é pragmático e funcional, não existe ornamental na Bauhaus», responde Miguel Gallego. E as características estéticas? A resposta é pronta: «a estética está lá per se, não é colada».

Apolítica mas revolucionária

Pelo seu cariz reformador e vanguardista, a Bauhaus, que Gropius sempre se esforçou por manter apolítica, esteve, por várias vezes, mergulhada em situações incómodas, fosse pelo parco orçamento de que dispunha, fosse pela ruptura com os movimentos artísticos tradicionais, fosse pelos regimes políticos em vigor, alguns dos quais se movimentavam nos corredores das instalações da escola. A conjuntura liberal que reinava na República de Weimar não duraria e acabou com a ascensão do Partido Nacional Socialista ao poder na Alemanha, cuja desconfiança perante esta escola não se apaziguou nem com a demissão do director Hannes Meyer, em 1930, que representava, pelos seus ideias comunistas, uma clara ameaça à escola perante este regime de extrema direita. Em 1932, depois de já se ter deslocado de Weimar para Dessau, por divergências com a autarquia da primeira cidade, e já sob a direcção de Ludwig Mies van der Rohe, a Bauhaus muda-se para Berlim, após ver os nazis encerrarem as suas instalações (o que motivou o aluno japonês Iwao Yamaki a fazer uma fotomontagem a denunciar a situação).

Contudo, a 11 de Abril de 1933, os nacionais-socialistas encerraram também a escola de Berlim o que motivou, em conjunto com outros factores, a votação, por parte do corpo de professores, a favor da dissolução da Bauhaus, acusada pelo regime Nazi de ser um centro de cultura bolchevique e de ser anti-alemão. Os três directores da Bauhaus acabaram por deixar a Alemanha e fugir ao regime. Apesar de ter durado apenas 14 anos, a Bauhaus deixou um legado importante, a começar pelo próprio termo Bauhaus, que permanece actual. A escola e as suas instalações foram classificadas Património Mundial pela UNESCO e os seus mestres deixaram obra em vários países do mundo, nas várias áreas que a arte compreende, como fotografia, arquitectura e design. Quem não se recorda da cadeira Wassily, de Marcel Breuer?



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