“Beasts of No Nation” Cary Fukunaga

Beasts Of No Nation

“Beasts of No Nation” representa a primeira incursão da empresa de streaming Netflix na produção de uma longa-metragem. Ao leme deste projecto está o realizador Cary Joji Fukunaga, que adaptou o livro homónimo de 2005 do escritor nigeriano Uzodinma Iweala.

Fukunaga não é propriamente um estreante: ao lado do argumentista Nic Pizzollato, foi responsável pela primeira temporada da série “True Detective”, um sucesso enorme nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo. O talento do realizador é fulgurante: o seu estilo atmosférico e imaginativo é uma raridade no formatado cinema actual. A sua mestria reafirma-se neste drama brutal sobre um menino-guerreiro de um anónimo país africano.

Agu (o formidável estreante Abraham Attah) é uma criança como tantas outras. Seguimo-lo no início do filme a tentar vender uma tv da imaginação – uma caixa sem ecrã – enquanto os amigos refazem atrás dela cenas de amor e de kung fu. Como ele próprio nos diz em voz-off, é um bom rapaz de uma boa família.

Tudo muda com a chegada da guerra civil: tropas governamentais entram na aldeia trazendo consigo a morte e o caos, e Agu é obrigado a fugir para a floresta para sobreviver.

Completamente só no mundo, é capturado por um batalhão de rebeldes, e é apresentado ao líder, um homem conhecido apenas como o “Commandant”.  A sua vida é poupada, contanto que o rapaz seja treinado como soldado, unindo-se ao batalhão. Sela-se um pacto que irá custar ao pequeno Agu a sua alma.

A fantástica interpretação de Idris Elba faz do “Commandant” uma personagem de inegável magnetismo. Diabólico e manipulativo, é ao mesmo tempo sedutor e paternal. É um líder carismático, venerado pelos jovens soldados crédulos e imaturos. Sentem que o “Commandant” os ensina a serem homens e guerreiros, mas a lição que aprendem é como pilhar, violar e matar sem compaixão. Encharcados em drogas e retórica inflamada, são embalados por uma ideologia de pacotilha, justificando desta forma a sua sede de sangue.

Elba é um gigante nas cenas em que se dirige ao batalhão. A lavagem ao cérebro é completa, e nem o espectador fica imune ao seu carisma. Não é à toa que o seu nome já é falado para a próxima temporada de Oscares: o actor encarna na perfeição o fascínio do mal. Gradualmente veremos as suas fraquezas, a sua vaidade e o papel menor que detém na política das coisas. O personagem “encolhe” aos nossos olhos, e Elba interpreta de forma brilhante esta trajectória descendente.

Mas o verdadeiro centro do filme é Agu. A guerra transforma-o num monstro violento, e o seu espírito afunda-se numa espécie de torpor letárgico. Sucedem-se cenas terríveis, difíceis de ver. O filme não poupa o espectador às atrocidades, e a visão do inferno expressa-se também visualmente: os céus tornam-se cinzentos como chumbo, e as ervas ganham tons saturados de vermelho e púrpura.

Fukunaga realiza com confiança e mão certeira do princípio ao fim. Enquadra com destreza cenas viscerais e avassaladoras, surreais e poéticas. A espaços encontramos ecos do “Apocalipse Now” de Coppola.

Apesar de tudo, “Beasts of No Nation” não se afunda num pessimismo fatalista, e reserva para Agu uma possibilidade de redenção. Perto do fim há uma cena brilhante em que o pequeno rapaz fala com uma professora, e em voz off nos diz que é como se ele fosse já um velho, e ela uma criança, pelas coisas horríveis que ele viu e fez. A câmara detêm-se por um momento na sua cara, e vemos toda a passagem da inocência à barbárie num só olhar.



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