Beck | “Morning Phase”

Beck | “Morning Phase”

Às vezes sabe bem tomar dois banhos na mesma água

No mundo das artes, nomeadamente no que diz respeito ao processo criativo, tornou-se recorrente associar as obras maiores à tristeza. Assim de repente poderíamos lembrar-nos, por exemplo, de “The First Days of Spring”, disco que os Noah and The Whale lançaram no ano de 2009, um pequeno monumento à tristeza que retratou o vazio sentimental que o vocalista Charlie Fink então sentiu depois de Laura Marling o deixar, a ele e à banda, para se dedicar a uma carreira a solo. Certo, certo é que o rapaz lá se recompôs, as cores voltaram-lhe à cara e a banda lançou “Last Night on Earth” dois anos depois, rodela que fez muito boa gente desejar que Fink se visse a braços com nova maleita sentimental, tal não foi o grau de pirosice.

Recuemos ainda mais na linha temporal e assentemos pé no ano 2000. Por essa altura, Beck Hansen – ou Bek David Campbell, como professa o BI – e a estilista Leigh Limon punham termo a uma relação sentimental de nove anos. Beck, que havia habituado fãs a espectáculos electrizantes que envolviam várias mudanças de roupa à boa moda de Prince, sempre com um imenso aparato, passou por um longo período de introspecção e melancolia, escrevendo aquele que será, porventura, o mais belo e triste disco composto por um coração destroçado: “Sea Change”.

Acalmada a tristeza, Beck regressou aos índices de festa habituais, e tudo parecia indicar que não mais a sua carreira iria revelar um disco que, a partir do momento em que a faixa 1 começasse a correr, nos atiraria para dentro de um inexpugnável buraco negro. Puro engano. “Morning Phase”, disco editado este ano, mostra-nos um Beck contaminado pela tristeza, ainda que não tenha sido esta o móbil criativo do disco. Beck encontra-se (bem casado) e com dois filhos à guarda, mas entrar em estúdio com a banda que o acompanhou em “Sea Change” tem destas coisas.

Pintado de negro, “Morning Phase” serve para acabar de vez com dois mitos: o primeiro, de que é necessário estar nas ruas da amargura para compor algo tristemente belo; o segundo, que afinal é mesmo possível tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio, contrariando aquilo que Heraclito andou por aí a espalhar, já que “Morning Phase” nasceu claramente de uma costela de “Sea Change”. Do lombo.

Mas será “Morning Phase” apenas uma sequela de “Sea Change”, um descarado exemplo de copy cat feito ao espelho? Os indícios e a aparência apontam para isso: a capa dos discos é semelhante, o grupo de músicos é o mesmo em ambas as rodelas, o sentimento de melancolia permanece. Porém, há neste novo trabalho de Beck uma maior frescura.

O mais semelhante entre os discos será certamente o andar em câmara lenta, uma constante corrente de ar fria e céu cinzento que só deixa entrever o sol em temas como «Heart is a drum» ou «Blue Moon». «Waves», por outro lado, é o auge do desespero, e não será difícil imaginar alguém a cortar os pulsos enquanto vai cantando, repetidamente, “Isolation, isolation”.

Retornando às comparações, apesar de ambos os discos revelarem um narrador de coração partido, há em “Morning Phase” uma mente mais sábia, ajuizada e crente, que sabe que o desgosto amoroso não passa de algo temporário, e que à dor de coração e/ou de corno a vida retomará o seu curso.

Há arranjos de cordas magníficos, pianos que sobem e descem como se brincassem em degraus e uma guitarra acústica onde, cada acorde, parece ter o poder de nos fazer cócegas. Apesar do ar de buraco negro, “Morning Phase” revela-se um disco iluminado, onde o arco-íris está à distância de 13 canções. A melancolia, convenhamos, assenta que nem uma luva a Beck.



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