Beirut | “No No No”

Beirut | “No No No”

Para o bem e para o mal, um álbum apenas momentaneamente soalheiro

Quando em 2006 «Elephant Gun» e «Postcards From Italy» irromperam pela primeira vez pelos nossos ouvidos, foi como magia. O som que aquele miúdo nos oferecia era realmente diferente, fresco e ao mesmo tempo familiar. Um folk balcânico irresistível, gravado em Albuquerque, no estado norte-americano do Novo México. O segredo? A voz de Zach Condon e os sons inconfundíveis do ukelele, do trompete ou do acordeão, combinados de uma forma exímia e resultando em belas e melancólicas melodias.

Ainda hoje é com prazer que se revisitam versos como “And I will love to see that day / That day is mine / When she will marry me outside with the willow trees / And play the songs in May / They made me so / And I would love to see that day”. Vão lá ouvir a canção para ver se não tenho razão! As canções de “Gulag Orkestar”, volvidos quase 10 anos, ainda soam frescas e algumas delas são, por ventura, intemporais.

Entretanto o tempo passa, pelo meio há mais álbuns, com algum devaneio electrónico pelo meio, mas a matriz das canções de Condon permanece inalterada. Uns dirão que ainda bem que assim foi e outros que foi isso que levou à perda de algum interesse em torno dos Beirut. É aqui que surge “No No No”. Assertivo no seu propósito de cortar alguns laços com o passado e explorar novas ideias.

O início de «Gibraltar» é atípico. Escutamos alguma percussão nos primeiros segundos, para depois surgir o instrumento que realmente representa a mudança operada pelos Beirut neste álbum; os teclados, neste caso em particular um piano. Os metais, omnipresentes até aqui em quase todas as canções de Zach Condon, não se fazem ouvir com tanta frequência em “No No No”. Os primeiros versos da canção tornam clara esta vontade de fazer algo diferente sem ter de dar cavaco a ninguém. “Everything should be fine / You’ll find things tend to stand in line / It’s but a link in time / But I’m sure you’ll let me try”.

Não é por acaso a escolha de «No No No» para single de apresentação. É talvez a canção que melhor faz a ponte entre os Beirut que existiram até “Rip Tide” e os actuais. Para além disso “No No No”, o álbum, surge na ressaca de um período complicado da vida de Condon. Divorciou-se e passou alguns momentos menos bons onde teve de se reencontrar. Também reencontrou o amor e é isso que «No No No», a canção, reflecte, em especial aquele momento crucial em que é necessário dar um salto de fé, acreditar e arriscar. “Don’t know the first thing about who you are / My heart is waiting is waiting, taken in from the star / If we don’t go now, we won’t go very far”.

«At Once» tem um piano que confere um tom sereno à melancolia que se instala mas, à medida que a canção avança, a melancolia começa a tornar-se angústia, uma procura por algo impossível de alcançar. “How will you find / At once / At last / At all”. Sentimo-nos tristes e com saudades daquelas melodias soalheiras embebidas em melancolia doce.

«August Holland» mantém um registo muito semelhante à canção anterior mas é daquelas canções meio inócuas… por muitas vezes que se escute, não nos sentimos a chegar a lado nenhum.

Estamos a meio do disco mas parece que não estamos a escutar Beirut neste momento. «As Needed» começa com um violino, segue com uma viola, teclados e uma bateria, tudo num registo quase jazzístico. Parece uma composição de uma banda sonora. Não há voz. É um momento de pausa, que nos leva a pensar outra vez naquelas melodias…

«Perth» começa com uns teclados marotos (é mais upbeat), que se mantém num loop contínuo por praticamente toda a canção. Pelo meio surgem uns trompetes como que um raio de sol a romper por nuvens que tendem a cerrar-se.

«Pacheco» é enfadonha. Escuta-se um vez e outra e outra… Falta-lhe algo, substância. Não consegue parecer mais do que um lamento.

«Fener» surge musicalmente colada às canções anteriores, com as teclas e a bateria num registo que ameaça um piscar olhos à canção de índole pop, em especial a partir dos 1m50s, momento em que os teclados se transfiguram e deixam de soar a piano e passam a soar a órgão momentaneamente, como que para nos confundir. Fica-se com a sensação que Condon andou em busca de algo. Se encontrou o que procurava não sei mas uma coisa é certa; encontrou algo suficientemente satisfatório para si próprio.

«So Allowed» aparece mesmo a tempo de elevar novamente a fasquia e evitar um final abrupto e em queda. É uma canção em que a bela voz de Zach Condon tem espaço para brilhar. Os metais mantêm-se à distância durante uma boa parte da canção mas quando marcam presença, fazem-no de forma perfeita. É a canção de “No No No” que melhor define quem os Beirut são neste momento. E faço minhas as palavras do Zach: “Under the sun, sleeping / So we’d rehearse evenings / It was in every word, somehow / And I was in return, so allowed”. Sabem o que é? Um momento solarengo. E “No No No” é, para o bem e para o mal, um álbum apenas momentaneamente solarengo.



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