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Quentin Tarantino

A obra de um realizador de culto

Basta abrir um manual sobre Cinema, ou frequentar algumas aulas de escrita sobre o mesmo, para que nos apercebamos de alguns factores essências sobre o assunto – minimizar o diálogo ao essencial. O Cinema é um meio essencialmente visual, as imagens devem ter oportunidade de se expressarem sem conversas desnecessárias. Ainda assim, estas convenções são constantemente desafiadas por um dos mais populares e aclamados realizadores das últimas décadas, Quentin Tarantino.

O cineasta começou a sua carreira de realizador e argumentista com “Reservoir Dogs”, introduzindo uma nova forma de escrever personagens. Segundo convenções da época, todos os diálogos de um filme deveriam introduzir o maior número de informação acerca de uma personagem no menor tempo possível. Os diálogos de Tarantino funcionam exactamente ao contrário. As suas personagens apresentam nomes fictícios e abrem o seu primeiro filme com uma conversa acerca dos sucessos de Madonna, e nesta conversa, mais do que entender o seu background, como aconteceria num diálogo tradicional de Cinema (o que aqui não acontece, de todo), são dadas, na postura de cada um dos homens, informações acerca do seu carácter, bem como sobre a sua forma de pensar e de estar.

O diálogo torna-se num acompanhante constante. O único momento em que não se ouve proferir uma palavra por mais de dez segundos é durante os créditos finais. No seu todo, o filme é uma sequência bem planeada e repleta de diálogos e eventos que tomam lugar, quase exclusivamente, num armazém abandonado.

Por ocorrer em tão singular ambiente, tudo se parece arrastar de forma rápida, ao contrário de outros exemplos cinematográficos. Embora a qualidade do diálogo impeça que as cenas, e o filme no seu todo, estagnem, muitos dos espectadores poderão aborrecer-se das longas cenas de diálogo e pouco mais. A iluminação, a cor e a banda sonora ajudam a criar um tom de desconfiança e decepção, bem como a definir o humor perante os temas apresentados.

“Reservoir Dogs” transformou, praticamente do dia para a noite, Quentin Tarantino de um obscuro argumentista e actor nos tempos livre num dos mais influentes cineastas da década de 90. Tudo porque decidiu desenvolver uma comédia niilista sobre como a natureza humana consegue sempre boicotar os seus próprios planos. Uma história sobre um grupo de machistas e de quão grandes são as suas façanhas. Tarantino torna um género cinematográfico, o thriller, numa experimental e violenta bola de energia.

Já em “Pulp Fiction” o seu estilo tornou-se mais marcado, tornando-se evidentes os elementos que se viriam a tornar imagens de marca. O tipo de construção de personagem que usou em “Reservoir Dogs” mantém-se, e é introduzida uma estrutura narrativa (quase literária) por capítulos, não linear, com a ordem das sequências baralhada cronologicamente.

Aqui Tarantino introduz também um das suas marcas: a homenagem e o pastiche, algo que estaria no centro do seu terceiro filme, “Jackie Brown”, uma homenagem a Foxy Brown (usando inclusivamente a mesma protagonista) e aos filmes de Blaxploitation da década de 1970.

Nos dias de hoje, poucos são os filmes que conseguem captar uma verdadeira sensação de realismo. A maioria dos esforços é feita em dispersos pontos de um argumento, recorrendo a referências culturais banais, o que deixa os espectadores com uma sensação de tédio. De tempos em tempos, surge um filme como “Pulp Fiction”, com personagens que trabalham o argumento de forma tão eficaz que, literalmente, consomem os pensamentos e emoções do público.

Com “Jackie Brown” Quentin Tarantino faz uma pausa com um drama sem violência. A sua acção é um pouco lenta, mas acima de tudo refrescante. Numa época marcada pelo uso excessivo de cortes rápidos e música techno, este objecto cinematográfico é um deleite. Apesar do seu ritmo ser lento, o filme nunca tende a ficar aborrecido.

A obra do realizador sempre foi marcada por detalhes minimalistas, e aqui o seu estilo visual está o mais simples possível. Tal como num filme de Sergio Leone, cada cena ressume-se a um impasse entre duas personagens. Este e outros factores despojam o filme de elementos exuberantes que marcaram a restante cinematografia de Tarantino, fazendo deste o filme mais convencional de todos. Marcado por uma acção linear, apenas se torna complexo quando é necessário colocar o espectador perante o caos.

Seis anos depois, o realizador volta acompanhado pela sua musa Uma Thurman, na triologia de “Kill Bill”. Transgressões, desmembramentos, e a própria noção de auto-gratificação deste trabalho cinematográfico, que de início apresentava três horas de duração, são elementos impossíveis de resistir.

Apesar da quantidade de sangue com que nos vamos deparar, “Kill Bill” é uma história bem trabalhada com temas clássicos e personagens memoráveis. Felizmente, o filme não se leva muito a sério, o que o torna ainda mais divertido do que um mero filme repleto de assassinatos. Cada personagem é desenvolvida de forma bastante imaginativa, permitindo tecer os diferentes estilos visuais, que funcionam como capítulos neste épica saga da Noiva.

As duas primeiras partes já estrearam e funcionam como um todo. No entanto, o segundo filme parece sugerir uma mudança – ou melhor, uma exaustão – na arbitrária miscelânea de momentos que pontuam as partes onde a Noiva ainda não tinha um nome e Bill não disponha de um rosto. O filme serve para equalizar todo o excesso de overdose cinematográfica que o procedeu; uma purificação e, certamente, um retorno mais maduro ao cinema.

Depois de uma colaboração com Robert Rodriguez em “Sin City” e “Planet Terror”, Quentin Tarantino regressa para apresentar-nos mais um deleite visual com”Inglourious Basterds”.

Como esperado, o filme consegue ir mais longe do que o imaginário do filme italiano de 1977 com o mesmo nome. Aqui, Tarantino consegue quebrar com as convenções criadas em torno da Segunda Guerra Mundial.

Um épico empolgante que por direito merece estar entre os melhores e mais incomuns que o género tem para oferecer. Não pode ser considerado revisionista, mesmo tendo em conta a alteração de algumas partes importantes da história. Essas alterações constituem parte da diversão desta violenta, sarcástica, sanguinária e vingativa tour de force com foco na visão francesa do impacto da guerra.

Mais uma vez o realizador demonstra a sua incomparável perícia no que toca ao encadeamento de múltiplos enredos, desenvolvendo um grande número de personagens. Todos com uma interpretação situada algures entre o realismo extremo e uma exuberante paródia, ambos marcos do estilo do cineasta.

A violência parece ser a melhor e mais agradável forma de entretenimento. Forma essa que para o realizador é marcada por uma extrema atenção a pormenores narrativos; íntimos, envolventes e assombrosos diálogos cara a cara, entre opositores, normalmente antes da ruína ou traição de um deles; tributos bajuladores a filmes do passado; e memoráveis personagens secundárias.

Quentin Tarantino regressa com “Django Unchained”, que estreia em Portugal no próximo dia 24 de Janeiro. Na 70ª edição dos Globos de Ouro recolheu dois prémios, o de melhor argumento e melhor actor secundário, destacado a Christopher Waltz. É o filme com mais nomeações para os St. Louis Film Critics Awards 2012, oito no total, incluindo Melhor Filme. Para os Óscares tem também cinco nomeações; aguardemos os resultados.



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