“Biografia Involuntária dos Amantes” | João Tordo

“Biografia Involuntária dos Amantes” | João Tordo

Miopia existencial

Espanha, Portugal, Canadá, Inglaterra, México. Teresa, Miguel, Antonia, Franquelim, Faustino, Eugene, Benxamín, Jaime. Dor, juventude, traição, tragédia, violência, amor, devoção, (des)culpa, doença, paixão.

Países, nomes, sentimentos e estados de espírito. Eis alguns dos ingredientes que estão na base do mais recente romance de João Tordo, uma das vozes maiores da literatura nacional cujo talento permitiu arrecadar galardões como o prestigiado Prémio Literário José Saramago e que conta no seu já consolidado currículo títulos como “Hotel Memória” e “O Bom Inverno”.

Dono de uma narrativa peculiar, João Tordo consegue com “Biografia Involuntária dos Amantes” (Alfaguara, 2014) extravasar o senso-comum e apresenta uma trama lampejada de laivos de um realismo doloroso, e por vezes dolente e “apático”, que une amizade, paixão, destino e incerteza num universo em que o desconhecido gradualmente envolve quem se cruza no seu caminho levando mesmo à realização de uma demanda pela verdade, ainda que tal conceito surja sob a forma de uma elipse que dispensa o seu verdadeiro significado.

Tudo começa com um inesperado e fortuito encontro entre dois homens envoltos num caos emotivo, onde a perda é assumida como uma herança cavada por vidas sem destino. É a paixão, ou a sua ausência, que vai unir um professor universitário e radialista nas horas vagas a um melancólico poeta mexicano que se deixa arrastar por aquilo que resta da vida, aqui entendida como um somatório doloroso dos segundos.

Se o primeiro, que assume o papel de narrador, surge como um ser sem nome, o outro responde pela graça de Paris, Miguel Saldaña, um espetro melancólico de olhos azuis que foge do passado, presente e futuro e assume-se como uma espécie de fantasma.

Fruto de duas vidas interrompidas, é a amizade que vai unir estas duas almas. No meio de algumas peripécias, surge um documento que vai transformar a vida de ambos. Teresa, ex-mulher de Saldaña Paris, deixou uma espécie de manuscrito em forma de via sacra que pode ser a fronteira entre a sanidade e a loucura.

“Inútil” de apelido forjado pelos labirintos de uma vida peculiar, Teresa relata os seus tempos de menina alfacinha cuja família revelava um pai ausente e alcoólico, uma mãe híper-protetora, um tio inesperado, misterioso e sedutor, um companheiro tímido e com talento para as coisas da escrita.

A menina magrinha que gostava de jogar basquete torna-se numa mulher errante em busca de aventura, de algo que a faça esquecer a monotonia da vida mas, os caminhos escolhidos por vezes tornam-se remoinhos sem nexo nem regresso.

As memórias tornadas vivas nesse documento adensam a depressão de Saldaña Paris e levam o seu amigo professor a encetar uma viagem, também ela espiritual, na tentativa de apurar a verdade. A melhor forma de o fazer é entender a vida dos dois amantes e traçar, com uma poderosa tangente, um relato biográfico involuntário de Teresa e Miguel.

Ao mesmo tempo que se embrenha na demanda, o nosso narrador sente também ele que procura a própria redenção, a sua salvação, algo que possa voltar a transformar a sua vida em algo válido mas para isso vai ter de enfrentar as diversas faces da verdade, os instrumentos contorcidos da bipolaridade humana ao serviço de pessoas disfuncionais e à beira do abismo.

Com “Biografia Involuntária dos Amantes”, uma espécie de roadbook existencial, João Tordo apresenta um exercício literário complexo, intenso e muito inteligente que tem na imaginação a sua melhor ferramenta. Escreve o autor sobre tal: “A imaginação é a chave que temos para manter a morte fechada no seu quarto escuro”. Mas essa morte não é aqui entendida como a antítese da vida mas sim, a desorientação da existência.

Nas páginas deste brilhante romance não se procura a culpa, a acusação. O propósito reside na tentativa de compreensão, de encaixar as desconexas peças de um puzzle que teima em transformar os (simples) atos da vida em matéria de poema pois para uns o amor pode ser a cura, enquanto outros o assumem como uma aguda forma de enfermidade.



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