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“Black Heaven – O Outro Mundo”

Thrilló-chachada

Existe um sub-sub-género cinematográfico que lida com as férias de Verão de adolescentes ou jovens adultos e já deu belíssimos frutos: “Conte d’été”, de Éric Rohmer, ou o recente e infelizmente ainda por lançar em sala “Guerra Civil”, de Pedro Caldas. A princípio, “Black Heaven – O Outro Mundo”, escrito e realizado por Gilles Marchand, parece querer inscrever-se nesse “género” e não vai mal por aí: um rapaz apaixona-se por uma rapariga e ela por ele; o primeiro amor e um mundo de possibilidades a abrir-se. É sol de pouca dura: a trama pseudo-thrillesca e modernaça não tarda a instalar-se.

À primeira guinada no tom, quando o jovem casal procura “consumar” a paixão através da investigação de um mistério, um pouco à “Blue Velvet”, de David Lynch, ainda se dá o benefício da dúvida. A tensão está bem construída e a descoberta dos dois suicidários — a loura sensual e fatal (que sobrevive), a sua presumível presa (que morre) — num carro a tresandar a monóxido de carbono, pelo menos, inspira o desejo de saber mais. Até porque o espectador já desconfia, pela primeira cena, pelo material de promoção do filme, e pelo próprio título do filme, que vem aí algo a ver com realidades virtuais e os jogos da dita.

A expectativa por essa faceta do filme revela-se pouco ajuizada. A historieta à volta daquela espécie de Second Life (o grafismo 3D está bem feito e tal, mas não entusiasma), em que o protagonista se perde em busca da loura fatal é sensaborona (e a colagem à “inovação” tecnológica torna o filme imediatamente anacrónico). E o resto começa a descambar; aparecem uns mauzões que provavelmente andam metidos em negócios da droga, gostam de desportos radicais que envolvem possíveis atropelamentos, e são comandados pelo irmão da tal rapariga loura (Melvil Poupaud que, apesar de ir meio em piloto automático, ainda é do melhor que o filme tem)… e acontecem mais umas coisas. Nessa altura, já ninguém se interessa se aquilo faz sentido ou não (nem por isso) e o amor de Verão foi há muito relegado para terceiro plano.

Marchand nunca consegue encaixar as diferentes peças “Black Heaven – O Outro Mundo” — as dos filme de Verão e as do fim noir de ficção científica —, que fica obviamente desconjuntado. Para além do mais, quando se percebe que tudo não passa de uma tentativa de emular o universo lynchiano (às já citadas referências a “Blue Velvet”, juntam-se umas quantas de “Mulholland Dr.”), o filme cai definitivamente no ridículo. Apesar das canções, dos mistérios, das mulheres fatais, da pulsão da morte, não há ponta de pesadelo, de terror, de espanto, ou de sensualidade. É Lynch light. Ou Lynch softcore.

“Black Heaven – O Outro Mundo” foi seleccionado para a competição do Festival de Cannes de 2010. Não se percebe muito bem porquê. É muito fraquinho.

Estreia a 15 de Março.



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