Blood Safari

A nova vida de Vítor Torpedo e Pedro Xau vista pela RDB.

Pergunta: Porque os cães lambem os tomates?
Resposta: Porque podem.

Nada mais simples. Não há cá justificações mirabolantes ou explicações existencialistas. Simples como dois e dois ser quatro, claro como a água. Porque podem!

É o mesmo que se passa com os Blood Safari, a nova banda de Vítor Torpedo e Pedro Xau. Porque formaram eles uma nova banda rock? Porque podem. Ponto final, parágrafo.

Outro facto tão seguro quanto esse é que todos os textos que foram escritos até há data sobre os Blood Safari (pelo menos em Portugal) fazem referência aos Parkinsons (e na maioria dos casos, aos Tédio Boys). Como este escriba não quer ser a excepção, esta prosa também não foge à regra.

Com efeito, os Blood Safari nascem com o fim dos Parkinsons, a banda punk-rock luso-inglesa que chegou a ser catalogada pelo NME como the next big thing. Com o final destes em 2004, depois das constantes convulsões internas, o guitarrista Vítor Torpedo (que já se havia destacado nos não menos portentosos Tédio Boys) e o baixista Pedro Xau juntaram-se ao baterista Glenn Chapman (ex-membro dos Black Time) e ao vocalista Charlie Fink (ex-frontman de outra das mais influentes bandas rock do final do século, os Penthouse).

Os Blood Safari parecem ser a banda rock que Vítor Torpedo sempre quis e onde assenta que nem uma luva: atitude e irreverência, rock e blues. Rezam as crónicas que nesta primeira digressão fora das terras de Sua Majestade (que teve três datas em Portugal), em Vigo para ser mais específico, Charlie Fink mergulhou do primeiro andar para um crowd surfing.

O rock’n’roll não precisa de motivo para o ser. Há quem diga que é um vírus que nasce quando escutamos pela primeira vez aquele disco do Elvis, dos Clash ou dos Stones e que depois usa o nosso corpo como incubadora; há quem defenda que é um estado de rebeldia juvenil que se dilui no sangue, mas que não é expulso pelo corpo. As tentativas de definição são variadas… O rock’n’roll simplesmente é!

2006 marca o início desta nova banda que, como assina no press release, se propõe “a criar uma nova seita de malfeitores, dar dor de cabeça a mentes virgens e solidificar a zombificação de todo o universo. Bad music for bad people!”. O seu universo musical gravita à volta das raízes do rockabilly e do rock’n’roll (não é por acaso que a banda menciona Gene Vincent quando fala de Charlie Fink), do psych-rock dos Cramps e até do punk dos Clash. No geral, é o retorno às origens puras do rock, limitando o ouvinte às sensações básicas do ouvir e sentir, como antes do rock ser conspurcado pela imprensa.

É que o rock ao início, mais do que uma definição de um estilo de música, era uma definição de um estilo de público – música para jovens rebeldes. No entanto, com o passar do tempo, esses jovens cresceram e, juntamente com a comunicação social, sentiram necessidade de o implementar na sociedade, catalogando-o segundo a sua originalidade. É por isso que nos esquecemos de vez em quando do que é o rock; mas bandas como os Blood Safari estão aqui para nos relembrar.

BLOOD SAFARI – O EP

A estreia dos Blood Safari faz-se com um EP homónimo, de três temas e fiel ao bom e velhinho vinil (e ao do it yourself). Uma edição limitada que chega aos escaparates com o selo da Rastilho Records.

Coloca-se o disco no prato da aparelhagem, mexe-se a agulha e sentamo-nos a escutar. Às primeiras batidas quase tribais de Glenn Chapman começamos automaticamente a bater o pé; quando entra a voz swingante de Charlie Fink, com aquele travo juvenil de quem lamenta a vida [I don’t care if the rain don’t come / Nothing grows in my tiny heart] prestamo-nos a levantar o volume; e antes que «Everything I Touch Turns To Shit» termine posso garantir-vos que vão estar a dançar pela sala.

Entretanto, a nossa namorada (substituir por qualquer outro familiar oportuno) vem à sala ver que ruído é aquele, bem a tempo de ouvir a introdução do segundo tema. «Zombie Slave» é o horror-rock dos Misfits fundindo com o voodoo caribenho que brota da bateria de Glenn Chapman (mas que Charlie Fink nos faz o favor de relembrar wake up this is not Haiti). No final do tema estamos a dançar os dois, loucamente.

O lado B do EP apenas traz «Friend Or Foe», mas que quase vale pelos outros dois. Este é o tema que faz a ponte entre o psychobilly desvairado dos Tédio Boys com o rock dos Gun Club e o punk dos Ramones. A guitarra de Vítor Torpedo fica mais áspera e a voz ágil de Charlie Fink torna-se mais ácida [I shot him ‘cos he turns his back / I shot her head right thru the crack]. No final, ignoramos os protestos da vizinha debaixo que bate com a vassoura no tecto para que baixemos o volume da aparelhagem e recolocamos a agulha no início.

O disco não traz truques na manga, nem fórmulas secretas que vêm reinventar a música. São apenas os Blood Safari a divertirem-se, a fazer aquilo que sabem fazer melhor.



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