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«Bodyhackers» e a beleza que se paga com o próprio corpo

Carlos Conceição transforma uma clínica de estética num inferno barroco e assina o body horror mais radical que o cinema português já produziu.

Depois de anos a construir uma das obras mais singulares do cinema de autor português, Carlos Conceição estreia esta quinta-feira «Bodyhackers», um body horror com contornos noir sobre um activista ambiental que se apaixona por uma ex-bailarina obcecada pela cirurgia estética. O filme, que teve estreia mundial no Edinburgh International Film Festival e passou pela competição do MOTELX em Lisboa, chega às salas portuguesas depois de meses de expectativa. Numa semana de cartaz dominado por sequelas e produções de estúdio, «Bodyhackers» é o contraponto necessário: cinema de autor, desconfortável e visualmente arrojado, que interroga o que fazemos aos nossos corpos quando deixamos de conseguir olhar para eles.

O ponto de partida: um activismo que se torna obsessão

Denver Blake (McCaul Lombardi) é um activista ambiental empenhado em expor uma corporação de cosméticos que, na sua leitura, lucra directamente com as inseguranças que a própria indústria da beleza fabrica. É uma premissa quase de thriller político, quase jornalística — investigação, denúncia, corporação a esconder práticas obscuras. Carlos Conceição usa-a, no entanto, como isco. Assim que Denver conhece Renée (Joana Ribeiro), uma ex-bailarina presa a um ciclo interminável de intervenções em busca de um ideal de perfeição que nunca chega a estabilizar-se, o filme muda de direcção e de género. A investigação institucional dá lugar a uma descida a um submundo de cirurgia estética clandestina, gerido pela enigmática Dr. Pollard (Elina Löwensohn), onde qualquer corpo pode ser reescrito, a um preço que nunca é apenas monetário.

Esta reviravolta estrutural é deliberada e assumidamente política. Conceição não está interessado em fazer um filme sobre uma corporação má; está interessado no momento em que a crítica ao sistema é sequestrada pelo próprio desejo que esse sistema alimenta. Denver chega como acusador e fica como cúmplice, e é nessa deslocação — do exterior indignado para o interior fascinado — que «Bodyhackers» encontra a sua verdadeira matéria narrativa.

A linguagem do filme: o horror como espelho barroco

Visualmente, «Bodyhackers» é o trabalho mais ambicioso de Conceição até à data. A crítica portuguesa tem sublinhado o diálogo do filme com a escultura renascentista de Michelangelo e com a pintura desfigurada de Francis Bacon, referências que se sentem sobretudo na forma como a câmara trata a pele, a ligadura, a cicatriz, como se cada corpo fosse simultaneamente obra em curso e ruína. O realizador intercala ainda imagens de procedimentos estéticos reais com a ficção, uma escolha que recusa a distância confortável do género e empurra o espectador para um desconforto quase documental.

Mais interessante ainda é a decisão de deixar que a própria forma do filme reproduza o estado mental das personagens. Conceição tem explicado que optou por uma narrativa deliberadamente desconstruída para espelhar a paranóia de Denver e Renée — elipses, repetições, uma sensação de tempo que já não obedece a uma lógica linear. O resultado é um filme que se recusa a tranquilizar quem o vê: não há distância irónica, não há alívio cómico prolongado, apenas a sensação de estar preso, como as personagens, dentro de uma lógica de transformação que não tem travão. A banda sonora de Nuno Bento reforça essa claustrofobia sem nunca a sublinhar em excesso, deixando o desconforto instalar-se pelas imagens.

Bodyhackers — cena de Bodyhackers, de Carlos Conceição, junto ao mar
Um dos momentos de maior tensão romântica e física de «Bodyhackers», de Carlos Conceição.

As personagens e o que carregam

Joana Ribeiro compõe uma Renée que evita o registo óbvio da vítima: há nela uma vontade, uma agência, mesmo quando essa agência a conduz a decisões que o espectador reconhece como autodestrutivas. É este o risco maior do filme, e o que o distingue de um body horror convencional — Renée não é arrastada para o submundo da Dr. Pollard, ela procura-o, porque nele encontra uma promessa de controlo sobre um corpo que sente escapar-lhe. McCaul Lombardi, como Denver, tem o papel mais difícil de justificar: um activista cuja moral se dissolve por fascínio, quase por contágio. Lombardi consegue, na maior parte do filme, que essa transição pareça mais hipnose do que fraqueza de argumento.

Elina Löwensohn, como Dr. Pollard, é o centro gravitacional mais silencioso do filme — figura quase sacerdotal, que fala pouco mas organiza todo o submundo à sua volta como um culto de estética e controlo. À sua volta gravitam Alba Baptista, Dinarte de Freitas e Ivo Arroja, num elenco coral que evita o preenchimento decorativo e devolve, em cada aparição breve, uma sensação adicional de que esta clínica clandestina tem muitos mais corpos, e muitas mais histórias, do que aquelas que o filme decide mostrar.

Bodyhackers — retrato de personagem com ligadura em Bodyhackers
A estética pós-cirúrgica de «Bodyhackers» dialoga com Michelangelo e Francis Bacon, segundo a crítica.

O que o filme diz (e o que cala)

«Bodyhackers» fala, com uma literalidade agressiva, sobre a apropriação do corpo — quem tem o direito de o modificar, e a que preço. Carlos Conceição tem sido claro nas entrevistas em torno da estreia: «as pessoas devem ser donas do seu corpo», afirma, ainda que o filme complique essa frase a cada cena, mostrando como a promessa de posse total do próprio corpo pode ser capturada por uma indústria — e por um desejo — que lucra precisamente com essa promessa nunca se cumprir. Há aqui uma crítica afiada à indústria da beleza e às inseguranças que ela cultiva e depois vende como cura, mas o filme recusa-se a ficar apenas no panfleto: interessa-lhe também a forma como, segundo Conceição, «nos vitimizamos a nós próprios» e arrastamos os outros para dentro desse sofrimento.

O que o filme cala, talvez deliberadamente, é uma resolução moral fácil. Não há aqui condenação clara nem redenção reconfortante; há a insistência em mostrar o desejo de transformação corporal como algo simultaneamente libertador e devastador, sem hierarquizar as duas leituras. Numa altura em que o debate público português sobre estética, imagem e redes sociais raramente sai do registo do alarme moral, «Bodyhackers» propõe uma abordagem mais incómoda: a de que a atracção pela autotransformação radical pode ser, ao mesmo tempo, sintoma e forma de agência.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal

«Bodyhackers» não é um filme para quem procura horror de género no sentido convencional, com sustos calculados e vilão claro. É, isso sim, para quem gosta de cinema de autor que usa a linguagem do horror para outros fins — mais próximo de Julia Ducournau ou de David Cronenberg do que de qualquer produto de estúdio da temporada. Espectadores sensíveis a imagens de procedimentos estéticos e a uma certa crueza corporal devem estar avisados; não é um filme que amoleça o seu material.

A estreia acontece esta quinta-feira, dia 17 de Setembro, no Cinema Ideal, em Lisboa, uma das salas mais consistentes do circuito de cinema independente e de autor na capital, além de outras salas em Lisboa, Almada, Porto e Coimbra. É também mais uma prova de que o cinema português contemporâneo, quando decide arriscar em género, o faz sem pedir desculpa.

Bodyhackers — Joana Ribeiro e McCaul Lombardi em Bodyhackers
Joana Ribeiro e McCaul Lombardi em «Bodyhackers», de Carlos Conceição, em sala a partir de 17 de Setembro.

Carlos Conceição confirma, com «Bodyhackers», um percurso de autor que recusa repetir-se e que continua a encontrar em Portugal financiamento e coragem para produções visualmente ambiciosas e tematicamente desconfortáveis. Num panorama internacional em que o body horror se tornou, nos últimos anos, um dos géneros mais produtivos para pensar género, imagem e capitalismo da aparência, este filme junta-se a essa conversa sem se limitar a repeti-la, trazendo-lhe uma inflexão marcadamente portuguesa e uma estreia mundial em Edimburgo que confirma o interesse internacional crescente pelo cinema de Conceição. Fica por ver se o público seguirá a crítica nesta aposta, mas dificilmente sairá indiferente.



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