Boom Report

We are one!

Esta edição do Boom Festival 2006, que decorreu entre 3 e 9 de Agosto, foi, sem dúvida, um pacote de experiências apetitoso. Um cesto recheado de vivências surpreendentes. Fomos novamente recebidos, de braços abertos, nas margens da lagoa de Idanha-a-Nova, nos terrenos da Herdade do Torrão, para mais uma nova viagem mística, libertadora de emoções, conquistadora de novas visões.

Este ano a organização escolheu assumidamente como tema do Festival a Ecologia, interligando-a às artes – música, cinema, dança, teatro – e englobando actividades de diferente natureza como conferências, workshops e terapias alternativas. O objectivo foi criar sistemas de sustentabilidade que tornassem viável a independência estrutural desta vila provisória. O conceito de Permacultura foi adoptado por ser uma das práticas de sustentabilidade ecológica que cria habitats humanos em harmonia com a natureza.

Utilizaram-se geradores movidos a energia solar, WC’s secos sem a necessidade da utilização de água e com a possibilidade do uso posterior da matéria como adubo. Os chuveiros, através de filtros biológicos, reutilizaram a água gasta. A madeira queimada, dos incêndios do ano passado na região, foi aproveitada. Mas as estruturas mais visíveis foram as de bambu da responsabilidade de Amir Rabik, arquitecto indonésio e cônsul honorário de Espanha e Portugal em Bali.

As Bio construções, espalhadas por três das distintas zonas do recinto (Chill Out, Dance Floor, Liminal Village), foram inspiradas em pagodes do Oriente. O Dance Floor de 2500 metros quadrados e 26,5 metros de altura demorou dois meses a construir e teve doze especialistas Balineses a trabalhar na estrutura.

Desta vez, ao contrário das edições anteriores, foi-me destinada a perspectiva de trabalhadora na área da restauração. Tarefa desafiante dadas as concentrações de milhares de pessoas limitadas, espacialmente, a um número restringido de hipóteses alimentícias. Além disso, retivémos a exclusividade do produto, o Açai, uma fruta energética brasileira da Amazónia, que repõe naturalmente energias, convencendo os corpos dormentes a manter os ritmos de “maratona”, refrescando-nos a alma com a sua textura gelada.

Não fazíamos ideia do tipo de resposta que iríamos ter, só sabíamos que o público ia aderir ao evento em grande peso! Os bilhetes pré-vendidos rondavam os cinco milhares. Adivinhava-se uma invasão…

As portas abriram-se no dia 3 de Agosto. Logo de manhã começaram a surgir relatos das filas que cresciam na entrada do recinto. Ouvimos falar de 9, 12 e até 21 horas à espera de entrar. Valentes e intermináveis minutos acompanhados por agressivas temperaturas diárias a rondar os 40º. Houve quem colocasse assentos em cima do capot do carro com sobrinha e quem fizesse churrascos à beira da estrada. Ao que a lei da sobrevivência obriga!

Depois da tempestade a bonança. Na entrada eram recebidos com sorrisos e com um Kit de Entrada constituído por um Jornal Interno do Boom, um cinzeiro de bolso, um saco para o lixo e dois preservativos para as “altas temperaturas”.

Mas quem já lá estava dentro não se conseguiu aperceber bem do que representam milhares de pessoas em estradinhas do interior. O nosso método de controlar a enchente resumiu-se à avaliação de espaços livres de tendas. Iam diminuindo rapidamente e, no fim do dia 4, a Herdade parecia uma autêntica vila.

Além das zonas já referidas a Sacred Fire, a Eco-Villa e o Baby Boom, com a sua casa na árvore, saem destacadas. Todas com o seu próprio encanto, todas “países” do mesmo planeta. A mensagem principal transmitida, presente nas pulseiras e numa instalação em pleno recinto, foi, no entanto, de assumida unificação: We Are One!

Na Liminal Village foram integrados um espaço para documentários, filmes independentes e experimentais, Metacine, e outro para artistas plásticos, Inner Visions Gallery. Além disso englobaram igualmente uma Workshops Zone, outra Presentations, e uma Zona de Terapias.

A Eco-Villa garantiu a limpeza de todo o recinto. Rapazes e raparigas, durante os seis dias de música, apanharam lixo do chão garantindo que mesmo no último dia o terreno estivesse limpo. A organização conseguiu assim ultrapassar a imagem suja que é deixada no final de eventos desta dimensão. O serviço de restauração tinha à sua mercê uma carrinha desta equipa que recolhia todo o lixo acumulado. Foram colocados caixotes a possibilitar a devida separação.

No Dance Floor foi utilizado o melhor sistema de som desde que o Boom começou, resultado de uma parceria com a Funktion One e a SLS de França. O sistema apresentado identifica a audição e o estímulo electrónico de uma forma multidimensional. Dando o merecido relevo a todos os elementos sonoros, o som é abordado de uma forma global, tal como o evento em si.

O Burro Táxi da Iris, uma Suíça de 47 anos, residente em Idanha há 17, e as massagens foram outras duas iniciativas largamente apreciadas.

De propósito ou nem por isso, foi criado um pequeno recanto, de um dos domes da organização (que fizeram parte do Dance Floor de 2004), oportunamente denominado de Ibiza Corner com gente gira, música groovy e fatias de melancia biológicas refrescantes. A jangada dos piratas só veio adicionar uma componente mais irreverente ao tranquilo local, muitas vezes utilizado como After Hours oficial.

De forma global foi também constituído o público que, nesta edição, se dividiu em 63 nacionalidades diferentes, pertencendo aos portugueses a módica percentagem de 10% a 20%.

O Açai foi um sucesso! Esta fruta, só existente na Amazónia, representa a alimentação ideal para temperaturas elevadas, como as que presenciámos, e estados físicos desidratados como os que encontrámos.

Desde 1996 que esta organização luta pela criação de um evento que no início tinha como principal objectivo o impulso e divulgação de um estilo específico de música (electrónica) e do estilo de vida associado. Hoje em dia os desafios aumentaram, expandindo-se a territórios mais ambiciosos, integrados num contexto social e estrutural actual. O Boom cria, durante uma semana, um mundo, uma sociedade, repleta de várias tribos e conceitos de vida diversos. Não é este ou aquele nome de DJ ou banda que traz as pessoas; é sim a experiência de estar no local, a viver tudo o que nos proporcionam.

Esta visão da organização tem custos pois, para criarem tal estrutura, não é de todo possível aceitarem patrocínios, opção que transporta o Boom para um patamar diferente, livre de poluição visual das marcas. Em vez de marcas presenciamos uma forte presença da comunidade local. Nunca Idanha-a-Nova foi tão falada nos media. Nunca eles fizeram tanto negócio.

O ambiente de descontracção criado faz com que cada um se sinta mais responsável pelos seus próprios actos e consciente do que o rodeia. Os padrões eco-amigáveis a que se associaram permite realçar ainda mais a responsabilidade de cada indivíduo não só de si próprio mas também pelo seu próximo e pela sociedade. Há quem diga que estes são somente clichés! Eu digo, ainda bem que eles existem!

Até à próxima lua cheia boomística em 2008!



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