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Bootlegs

Qual o valor de um Bootleg? Comprar discos que passam por originais ou uma paixão honesta pela divulgação?

Imagina que entras na tua loja de discos favorita e, ao vasculhar por entre as prateleiras, encontras aquele clássico (seja de Disco, seja de House de Chicago ou de Techno de Detroit, etc.) que procuravas há uns bons anos. És bem capaz de pensar “Epá, finalmente reprensaram isto…há que tempos que ando à espera de apanhar este disco”. Pois bem, é efectivamente uma reprensagem, mas o mais certo é não ser legal. Ou seja, muito provavelmente é um “bootleg”.

E o que é um “bootleg”, perguntam voçês? Na definição “bootleg” pode caber muitas coisas, e é isso que vou tentar explicar. Primeiro que tudo, um “bootleg” é uma edição não oficial de uma qualquer obra musical. Não oficial no sentido em que é uma edição que não é lançada por uma editora que represente o artista em questão, mas de alguém que, por várias razões, decidiu disponibilizar a obra em questão, desrespeitando os direitos tanto do artista como da editora.

É um fenómeno que já existe quase desde a génese da indústria discográfica, e que no início se cingia mais a edições não oficiais de concertos de certos e determinados artistas/bandas. Mas, a partir do final dos anos 70 e início dos anos 80, com o Disco Sound e congéneres no auge, certos DJs como Danny Krivit ou Tee Scott começaram a fazer “re-edits”, ou seja, reconstruíam peças musicais já existentes de uma forma que lhes parecia fazer mais sentido e que na cabeça deles, resultava melhor para o público que tinham à sua frente nas pistas de dança.

Não demorou que  começassem também e editar esses re-edits e, como é óbvio, também não demorou muito até que outros fizessem “bootlegs” dessas mesmas “bootlegs”. Isto sobreviveu até aos dias de hoje, onde continua a existir a tradição do “re-edit”. Mas o “bootleg” atinge também hoje em dia estilos como o “Post-Punk”, o Italo-Disco, o House de Chicago ou o Techno de Detroit. O que acaba por não surpreender.

Muitos destes discos são hoje difíceis de obter nas suas edições originais. Ou se tem a sorte de encontrar esses tesouros por preços acessíveis em lojas de 2ª mão, feiras, através de alguém que se queira desfazer da sua colecção privada (e que preferencialmente não tenha a noção do que está a vender) ou então terá de se recorrer a sites como o E-Bay, Gemm ou Discogs, onde quem os vende, raramente o faz a preços acessíveis.

Para quem queira ter os temas, os “bootlegs” tornam-se bastante atractivos, pois são vendidos ao preço que custa um qualquer 12” normal, poupando ou no esforço de procurar pelos discos ou em gastar uns euros valentes na aquisição do original. Isto acaba, no fundo, por criar algum dilema moral entre a comunidade de DJs e/ou coleccionadores. Para uns é errado que existam “bootlegs”, devido ao facto de os direitos do artista não serem respeitados e de não ver lucro nenhum da comercialização da sua obra.

Para outros não é errado, porque se há procura, deviam de ter sido reprensados e entre pagar um valor absurdo pelo original e entre pagar o preço de um normal 12”, optam por comprar o “bootleg”, dado que, de qualquer das maneiras, o artista não verá os seus direitos respeitados. Há até quem diga que os “bootlegs” podem expor de forma mais ampla certos artistas que estavam na obscuridade, trazendo-os a um novo público e quiçá, relançar-lhes a carreira.

Dentro do mundo dos “bootlegs”, existem diferentes formas de editar. Há produtores que optam por criar séries, tais como os Automan, os Ballroom, os Supersound ou compilações estilo Disco Galaxia ou Balearica, ou até mesmo reunir numa mesma compilação diversos temas e/ou remisturas difíceis de obter de artistas como Prince, Patrick Cowley, Daft Punk, etc.

Outros optam por copiar as edições originais, muitas vezes até ao ínfimo pormenor, de modo a que por vezes até um “vinil junkie” só muito dificilmente se consiga aperceber das diferenças, e isto é o que está a acontecer com muitos clássicos “perdidos” do House de Chicago, da cenas “Post Punk” estilo a 99 Records dos Liquid Liquid ou das ESG, ou do Techno de Detroit.

Outros ainda fazem re-edits a certos e determinados temas ( o que geralmente incide mais sobre o Disco-Sound, mas outros estilos podem também ser alvos deste tipo de tratamento) e editam-nos tal como Danny Krivit o fazia algures entre os finais de 70 e inícios de 80, ou seja, numa espécie de editora própria ou criada por amigos.

Há ainda um caso que cria grande confusão na cabeça de muita gente, que é a distinção entre “mash-up” e “bootleg”. Um “mash-up” é quando se misturam duas (por vezes até mais…) músicas com o intuito de as tornar numa só música. Nos últimos tempos os grandes estetas deste tipo de coisas foram nomes como 2 Many DJs, Richard X, Erol Alkan ou Danger Mouse. Obviamente, podem ser também “bootlegs”, por serem editados de forma pouco legal e desrespeitando os direitos dos artistas envolvidos, mas há “mash ups” editados legalmente, com a benção dos artista e da editora (um exemplo sendo um que misturava o Can`t Get You out Of My Head da Kylie Minogue com o Blue Monday do New Order).

Ame-se ou odeie-se os “bootlegs”, eles vão continuar a existir, pois enquanto alguém estiver interessado em adquirir aquele tema obscuro de Italo Disco do qual só existem meia-dúzia de cópias disponíveis a 100 euros no E-Bay e alguém disposto a disponibilizá-lo através de formas pouco legais, o “bootleg” continuará a ter um amplo mercado, e não parece que se possa fazer grande coisa em relação a isso…



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Existem 3 comentários

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  1. Goncalo Pereira

    O que me deixa infeliz com isto e' que no inicio estes bootlegs eram feitos por pessoas que adoravam musica e agora e apenas mais um mercado – edits mal feitos, masters mal feitos – recentemente comprei um bootleg de ron hardy que parece gravado em radio e prensado para vinil…

    Outro caso muito comum e usarem CDs de compilacoes para master de vinil, os quais precisam de ter um master diferente para soar bem…

    e os fans a pagar… tal como uma label convencional tambem se deve tentar comprar bootlegs de distribuidores de confianca.

  2. EduardoMartins

    Pelo que sei, esses re-edits do Ron Hardy são directamente transferidos das bobines onde ele os tinha gravados…daí não me surpreender que o som não seja o melhor…eu tenho um da Partyhardy que traz o re-edit dele ao Peaches & Prunes dos Nightlife Unlimited , e o som é um bocado roufenho, mas numa pista de dança resulta bem, apesar disso…

    Outra cena caricata são os "bootlegs" de editoras como a Trax terem melhor som que os originais, o que não surpreende quando se descobre que a maioria dos originais da Trax eram feitos com vinil reciclado…

  3. Azelpds

    Excelente artigo como sempre, que nos conta um pouco mais sobre alguns pormenores e aspectos perfeitamente desconhecidos para muito boa gente.

    É certo que estarmos a comprar algo que não é legal, supostamente, tem que se lhe diga, mas muitas das edições originais são quase impossíveis de encontrar e obter. Acho que iremos ter sempre os dois lados da moeda, os que editam pelo prazer da divulgação e promoção de obras que sentem que merecem um maior reconhecimento, como os que o fazem pelos interesses puramente monetários.

    No meu lado como cliente, ou dj, e derivados, interessa-me muitas vezes tentar encontrar os discos em questão, muitos deles já perdidos no tempo. E se estiverem em boas condições e a um preço que considere acessível, tenho tendência a não me preocupar tanto com as tais questões sobre a edição.

    Isto acaba por ser uma área muito 'cinzenta' digamos.


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