“Bordel Português” | Nelson Quintino

“Bordel Português” | Nelson Quintino

A redenção é uma coisa tramada

Comecemos pelo mais importante. “Bordel Português”, o primeiro livro saído da gaveta de Nelson Quintino rumo à publicação, é uma estreia de se lhe tirar o chapéu.

O livro centra-se na personagem de Henrique H, amante de poesia e leitura, um homem que quer encontrar Deus e deixar para trás «todas as azáfamas da má vida», tais como fazer contrabando de rebuçados de fruta e chupa-chupas, ser taxista de fim-de-semana sem carta de condução ou fazer desaparecer pessoas incómodas (pelo menos na opinião de quem lhe paga o serviço).

Henrique sentiu, como um chamamento superior, que tinha chegado a hora de se tornar um cidadão exemplar e fazer as mulheres felizes, abandonando a carreira de gangster amador para abraçar a de gigolô profissional. Havia apenas um problema, com que tinha convivido ao longo de toda a vida: tinha o pénis pequeno demais.

Mas, como em todas as histórias de redenção, o caminho é longo e sinuoso. Para além de estar atolado em dívidas, Henrique tem à perna José Pendura Calmas e Gustavo Provisórios, dois amigos de infância – cresceram juntos no Orfanato Casa do Vendaval – e sócios da Sustos, Murros e Biqueirada, uma empresa não registada em regime de sociedade por quotas responsável por cobranças difíceis e outros assuntos complicados.

José Pendura Calmas é um antigo campeão de boxe e matraquilhos, taxista duas vezes por semana, com uma paixão pelo automóvel que supera, em muito, a sua adoração por Mariana Frita, a sua mulher, responsável pelas tarefas domésticas e pequenos consertos.

Gustavo Provisório é um tipo que, já depois dos quarenta, ainda está indeciso sobre a sua orientação sexual. Tem uma alma muito pesada, que lhe ocupa cerca de 2/3 do corpo. Faz limpezas de pele, planeando ser jovem para sempre.

A acompanhar uma história de redenção individual, “Bordel Português” faz também, com muito humor, fantasia e espírito melancólico, o retrato de um país que parece condenado a pedalar com as rodas no ar, onde persiste o medo de ir ao médico, se acha uma grande parvoíce pedir factura quando se pode pagar menos (quem nunca o fez que atire a primeira pedra) e onde a corrupção e o engano são as molas propulsoras ao desenvolvimento do PIB individual do salve-se quem puder. Que da gaveta de Nelson Quintino possam sair mais pérolas como esta.



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