“Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”, de Paulo Carneiro

“Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”, de Paulo Carneiro|IndieLisboa 2018

não é um filme, é a realidade.

Bostofrio é o sítio onde o céu se une à terra ou onde a terra se une ao céu, é difícil dizer. É também a terra que viu nascer a família de Paulo Carneiro, o jovem cineasta que carregava consigo o desejo de saber mais sobre aquele que parecia ser um tema proibído de ser discutido na família. Bostofrio é uma pequena aldeia de Trás-os-Montes de onde o pai do realizador partiu cedo rumo a Lisboa, tendo o jovem rapaz seu filho, mais tarde, seguido os trilhos do cinema. Para Paulo Carneiro, contudo, antes dos filmes estava esta história que tinha de ser transposta para filme, com uma urgência à flor da pele que ainda assim demorou dois anos a tomar forma. Tudo o que rodeia a preparação do documentário que estreou na secção da Competição Nacional e que é primeira longa-metragem do realizador (que é também assistente de realização de João Viana em “Our Madness”, com exibição também na Competição Nacional ainda no dia 5 de Maio) não soa a filme e o próprio pai do realizador, presente na sala de conferências para conversa posterior ao filme, diz peremptoriamente que “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre” não é um filme, é a realidade, é o que verdadeiramente se passou.

o retrato da vida no Portugal que não se vê e de que também não se fala com verdade quando se fala do interior e é a esse interior hipotético que Paulo Carneiro dá vida, para que se saiba que ali não existem apenas paisagens pitorescas e idosos de quem se deve ter pena

Para quem esteve no visionamento de Sábado passado, de facto é possível que tenha sentido que não estava a ver um filme a sério, um documentário, uma história, uma vez que muitos dos protagonistas se encontravam presentes na sala e por protagonistas entendem-se os habitantes da aldeia que aquisceram falar sobre a identidade do avô do Paulo Carneiro mas também membros do rancho folclórico que cantaram ao vivo uma das modas que cantam no documentário. Possivelmente, dadas as dimensões da terra, estaria ali a maioria da aldeia, todos eles tão exultantes quanto surpreendidos por ver o entusiasmo com que foram recebidos. O próprio realizador e a família mais directa se encontravam na fila à frente da signatária deste texto, nomeadamente o pai a quem o documentário é dedicado, pelo que era visível e palpável a excitação com que este momento estava a ser vivido. A visão de Paulo Carneiro para contar a sua história tem dificuldade em fazer a separação entre emoção e filme, até porque o próprio realizador se filma a conversar com os habitantes de Bostofrio, emocionando-se realmente num dos momentos e tornando-se ao mesmo tempo participante, personagem, pessoa com ligações não muito profundas àquele espaço mas memórias presentes da avó, por exemplo.

Mais do que descobrir um segredo, Paulo descobriu pessoas que trabalham, que não têm tempo a perder com aquelas ninharias pouco práticas de que ele tanto fala, apesar de terem passado muito mais tempo juntos do que o tempo em que o documentário foi rodado. Poupado nos meios técnicos, apesar do digital, como explicou à plateia na sala de conferências, optou por filmar o essencial para não se perder em quantidades abissais de material que teria posteriormente de editar e preparar. Essa contenção na filmagem tem paralelo na contenção de palavras com que os habitantes da aldeia o brindam, sente-se que o assunto existe mas que ou está esquecido e difícil de relembrar ou ainda permanece um tabu. Talvez fosse mesmo um assunto de que não se falava mas que nem por isso deixava de ser normal ou natural. É que o pai de Paulo é um dos muitos milhares de portugueses filhos de pai incógnito por não terem sido perfilhados, precisamente aquilo que o avô de Paulo não fez, dizem que a mãe dos filhos não era mulher para casar. Na história da família misturam-se, pois, lendas e rumores de possessão demoníaca (demonstrando quão incompreendida é a questão da saúde mental) mas ao mesmo tempo isso nunca impediu que a aldeia tratasse daquela mulher que havia sido colocada de parte. Os testemunhos misturam-se por entre enchidos e cães que dormem dolentemente à lareira, contradizendo-se uns aos outros, muitas vezes, mostrando a beleza da memória e do quanto a tradição oral carrega consigo de emocional. A mesma pessoa vista à luz dos valores e mesmo do posicionamento físico de cada um daqueles homens e mulheres, admitindo com clareza que a muito do que se dizia ter passado não tinham assistido, não estavam lá.

O documentário de Paulo Carneiro é uma belíssima manta de retalhos em que a imagem resultante de um determinado indivíduo é a de variados indivíduos diferentes, talvez as facetas ou humores deste ou daqueloutro dia. E quando se mencionam aqui as mantas de retalhos com isso não se quer dizer que não existe coerência mas sim que existe a coerência possível que resulta dos testemunhos e da memória, necessariamente eivados da experiência individual e emoções de quem conta a história. Estes homens e mulheres que aceitaram dar o seu testemunho mostraram ainda no presente que, apesar da aparente dureza de carácter que o trabalho numa terra de características exigentes lhes conferiu, têm os braços abertos para receber e conversar. A rudeza dos modos não é confundida com falta de carinho mas simplesmente com o necessário talhar da personalidade que não teve tempo para mais nada senão moldar a vida a talhe de foice e esse retrato perpassa com muita vivacidade em “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”. Aliás, Paulo Carneiro filma muitas vezes apenas a paisagem e os sons que produz, existente, exigente, fria, real, outras vezes crepitando chamas sem que as malhadas sequer pestanejem, também elas habituadas aos caprichos da natureza. Noutros momentos, os intervenientes nas conversas se posicionam nela de modo tão harmonioso que dir-se-ia ser uma disposição propositada. É o retrato da vida no Portugal que não se vê e de que também não se fala com verdade quando se fala do interior e é a esse interior hipotético que Paulo Carneiro dá vida, para que se saiba que ali não existem apenas paisagens pitorescas e idosos de quem se deve ter pena. Nenhuma das pessoas a que o jovem cineasta de 28 anos deu protagonismo inspira qualquer sentimento menor que a admiração, eventualmente o espanto perante o retrato de um país em que as mulheres tinham filhos e a vida seguia, sozinhas, sem apoio dos homens com quem os tinham feito. Terra madrasta, modos padrastos e a vida seguia, sem amarguras, é disto também que nos fala e mostra “Bostofrio” e não se trata de uma hipótese, é uma realidade, é a vida das pessoas. Aliás, isto nem é um filme, é a realidade.

 

Nota: “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre” volta a passar dia 04 de Maio às 21:30 no Cinema São Jorge.



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