“branco.” | Alberto Silva

“branco.” | Alberto Silva

Amor em estado solitário

Começamos rodeados por um sentimento de claustrofobia, presos num quarto de hospital – ou de um outro lugar destinado a extrair o mal -, onde tudo em redor é branco, excepção feita aos pensamentos negros que normalmente chegam com o aparecimento da noite.

Em “branco.” (Chiado Editora, 2013), da autoria de Alberto Silva, há um narrador que quer fugir da luz, trocando a cura pela perdição. Entre a alucinação e o riso incontido pressente-se uma estadia indesejada, um arrepio constante de alguém que prefere navegar nas águas do sonho: «Sento-me de pernas afastadas e pés cruzados, com vontade de fechar os olhos. Desta vez, para dormir.»

E há também Rita, essa mulher de sonho abandonada por medo ou ilusão e que, na viagem do tempo, acabou por se tornar irrecuperável, num sem-retorno que atira o narrador para um poço sem fundo: «Comparo o belo deste quarto limpo, ao que fui. Ao que não sou mais. Novo, limpo, perfeito pássaro.»

Alberto Silva usa uma prosa que nunca consegue libertar-se do fantasma da poesia, misturando a turbulência amorosa, a banalidade (ou normalidade) da intimidade e um estado de introspecção com uma crítica à normalidade e às aparências que, por vezes, surge forçada. Como se, com a edição do livro, quisesse aproveitar a oportunidade para disparar em várias direcções. No final o branco dá lugar ao negro e, aí, entramos no território poético de Alberto Pereira, que se revela um porto bem mais seguro.



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