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Brand New Wayo

Uchenna Ikonne, criador da compilação do ano, em entrevista.

O nível de qualidade actual para editoras de relançamentos é bastante alto: labels como a Numero, a Soul Jazz ou a Strut fornecem regularmente selecções excelentes de obscuridades de todos os géneros, bem remasterizadas e complementadas por liner notes eruditas. Com um nível geral destes, é difícil encontrar algo novo que impressione.

Mas “Brand New Wayo – Funk, Fast Times & Nigerian Boogie Badness 1979-1983”, o primeiro lançamento da editora Comb & Razor de Uchenna Ikonne, o responsável pelo blog de música nigeriana do mesmo nome, impressiona. Impressiona antes de mais nada pelos seus conteúdos sonoros, como é essencial; quem anda perdido na ressaca posterior ao último grande revivalismo do Disco tem descoberto que uma das poucas áreas não totalmente exploradas dentro dessa área é o contributo que vários países africanos fizeram ao género. Mas impressiona também pelo whole package, com um booklet extenso com o equivalente informativo dum livro sobre o assunto e, coisa raríssima no mundo das reedições, um verdadeiro sentido de humor. Isto está patente nos anúncios publicitários da época que pontuam o livrinho, nas introduções das divas da época escritas em tom de revista “Bravo”, e também num excelente trailer produzido para o disco.

Outra coisa que distingue “Brand New Wayo” da maioria é que Ikonne presenciou de facto a era de que fala: o início dos anos 80, quando a Nigéria se encontrava num estado de crescimento económico desenfreado e o Disco, tal como nos Estados Unidos, se começava a transformar na vertente mais lenta e sintetizada do Boogie. O autor das liner notes consegue, assim, somar a experiência de quem lá esteve à erudição de coleccionador à medida que detalha a entrada da Nigéria na DJ culture, a aparição de estrelas como Kris Okotie e a ascensão e queda dos estúdios Phonodisk, uma tentativa de criar uma editora nigeriana que pudesse competir com as grandes multinacionais. A falar com a RDB via skype, Ikonne conta-nos mais acerca do primeiro lançamento da sua editora.

Como surgiu a ideia desta compilação?

“Brand New Wayo” foi de certa maneira a minha forma de prestar tributo à era em que comecei a curtir música. Cresci no início da década de 80, o período a que agora chamamos a era do Boogie. Foi quando comecei a ouvir rádio, a comprar discos e a prestar atenção a quem eram os artistas. Achei que era uma forma interessante de inaugurar a minha editora.

Dá para ver nas liner notes que tens uma ligação pessoal forte a este estilo de música. Quais são as tuas memórias da altura? Como é que a música era recebida?

Encontraste uma forte ligação pessoal no que escrevi? Eu por acaso até estava a tentar distanciar-me dos eventos. A verdadeira génese da compilação foi uma série de posts que tinha escrito para o meu blogue, nos quais eu me exprimia de forma muito pessoal, a falar das minhas experiências com este tipo de música. Nunca cheguei a publicá-los, talvez o faça um dia. Mas tentei não tornar esta compilação demasiado pessoal, se bem que talvez essa vertente tenha entrado à mesma, subconscientemente.

Bem, não há informações biográficas tuas nas liner notes, mas há um certo sentido de entusiasmo…

Tento mostrar entusiasmo por qualquer género de música com que trabalho (risos). Mas respondendo à tua pergunta, a música era extremamente popular, as pessoas adoravam. Depois da era ter passado tem havido alguns veteranos do período do Rock nigeriano (que antecedeu esse movimento) que agora dizem que que odiaram as cenas Disco e Boogie… pode ou não ser verdade, mas às vezes desconfio que se tenham deixado influenciar pelas atitudes ocidentais no que toca ao Disco. É que quando aconteceu toda a gente adorava!

Também mencionas algo que eu achei fascinante: por essa altura as bandas na Nigéria já estavam a perder terreno para os DJs.

Sim, isso aconteceu um pouco por todo o mundo. Antigamente se tinhas qualquer tipo de evento social, fosse uma festa ou um casamento, tinhas que arranjar uma banda. Mas a certa altura as pessoas passaram a querer ouvir discos, e ficava muito mais barato e conveniente contratar um DJ, que até podia tocar mais tipos de música diferentes. Isso começou a acontecer na Nigéria, e os grupos de qualquer forma já estavam a começar a cair em dificuldades financeiras. Mas não notei muita amargura, as pessoas aceitavam como um facto consumado. E as bandas também nunca tinham facturado assim tanto. No Ocidente entende-se melhor a questão, tinhas artistas que estavam a ganhar milhões e de repente as pessoas queriam era ouvir os DJs mais populares, entende-se um pouco a amargura. Mas num lugar como a Nigéria ninguém estava a ganhar milhões, portanto quando descobriram que o público queria ouvir discos, não ficaram zangados, começaram foi a tentar fazer discos melhores.

Dás bastante destaque a Kris Okotie, que é descrito como uma espécie de baladeiro, influenciado por Cat Stevens e artistas semelhantes. Mas a música desta compilação, incluindo a faixa dele, não tem nada a ver. Havia um movimento concorrente de pessoas a lançarem cenas mais nesses moldes?

Não sei se o chamaria um movimento, mas havia bastante gente. Algo que costumo mencionar é que as pessoas têm uma percepção errada e bastante estranha do que é o gosto musical africano. Toda a gente pensa “ok, a música ocidental tem a ver com melodia e letras profundas, e a música africana valoriza principalmente o ritmo”. Mas a verdade é que os africanos adoram música melódica, reflectiva e meditativa. A música Country, por exemplo, sempre foi muito popular na Nigéria. Era na altura, continua a ser e acho que sempre será. As pessoas adoram o Jim Reeves, o Don Williams, Kenny Rogers. E adoramos John Denver, Cat Stevens, James Taylor. As pessoas adoram esse tipo de cena, portanto havia alguns artistas a especializarem-se nesse tipo de música, e outras bandas mais funky que experimentavam esse estilo por uma faixa ou duas. A faixa do Kris Okotie que incluí na compilação não tem nada a ver com esse estilo, porque queria lançar algo numa onda mais funky, mas muito do seu material tem essa textura de que estamos a falar.

Foi difícil arranjar os direitos para as faixas?

Foi fácil e difícil ao mesmo tempo. Começou por ser desafiante encontrar os detentores dos direitos, mas foi ficando mais fácil. Às vezes foi difícil convencê-los a cederem os direitos, mas nada de mais.

Houve alguma faixa que teve de ficar para trás?

Sim, umas quantas. Mas para ser honesto o verdadeiro desafio que me levou a excluir faixas não tinha tanto a ver com encontrar os donos dos direitos, mas sim com encontrar as próprias faixas. Nas liner notes menciono que as grandes editoras entraram em decadência durante os anos 80. Empresas como a EMI e a Decca quando abandonaram a Nigéria lavaram as mãos do assunto completamente, deitaram as master tapes para o lixo, portanto já não existem. Consequentemente, para uma compilação como esta tens que masterizar a partir do vinil original, e pode ser difícil encontrar um exemplar em condições. Pode ter havido uma faixa ou outra que me lembrava de ter ouvido nos anos 80, ou até uma que tenha ouvido recentemente, mas não tinha o disco em condições boas o suficientes para masterizar, e se não encontras outro exemplar melhor simplesmente não podes usar a faixa.

Quem foram, na tua opinião, os artistas mais importantes desse período? Alguém de que valha a pena fazer uma compilação?

Depende bastante do mercado de que estás a falar, porque há gostos bastante diferentes dos gostos africanos, como referi. Por exemplo, o Kris Okotie, as pessoas ainda se lembram dele e continua muito activo na Nigéria, só que agora como clérigo e político. Uma compilação dele seria fixe para o mercado nigeriano, mas não sei se o mercado ocidental responderia com o mesmo entusiasmo. Porque, como disse, muitos dos seus êxitos são mais mellow, e não sei se isso é algo que as pessoas queiram ouvir da música Pop africana.

Porque não entra no estereótipo.

Essencialmente é isso. O Dizzy K. (Falola) seria uma boa escolha, produziu muita música fixe, uptempo, inovadora e funky ao longo dos anos 80.

Os artistas incluídos na compilação ainda estão no activo?

O Chris Mba de certa forma sim, lança um disco de vez em quando. O Dizzy K. agora vive no Reino Unido e faz Gospel. Há muita gente que ainda está activa, mas não ao mesmo nível e certamente não com o mesmo tipo de sonoridade. O Amas continua muito activo, vive no País de Gales e é escritor, realizador, escultor, pintor… e continua a fazer música, mas não o tipo de música que encontras em “Brand New Wayo”.

É visto como sendo um momento que passou?

Exactamente. Foi um momento, foi o sabor do dia, as pessoas curtiram e quando saiu de moda as pessoas perderam o interesse. Por isso, quando comecei a procurar os direitos, havia muita gente surpreendida, tipo “porque é que as pessoas querem saber desta música, foi só uma cena que fiz em 1981 porque estava na moda, porque é que não querem ouvir o que estou a fazer agora?”. Para eles é extremamente frustrante. E ainda mais frustrante é a tal diferença de gostos entre África e o Ocidente; muitas vezes a faixa que foi um êxito na Nigéria não foi necessariamente a canção funky e dançável, podem ter posto uma coisa mais sentimental no lado A do single e a cena mais funky no lado B. E chego eu a pedir os direitos do lado B, e eles perguntam “mas porquê não queres o lado A, que foi um sucesso enorme?”. E eu respondo, bem, é o que o público quer.

Focas bastante a Phonodisk, uma editora independente nigeriana, e como acabou por ir abaixo. Dás tempo de antena a várias das partes envolvidas, mas no fim uma pessoa fica sem saber… sem te pedir para dares uma posição oficial, o que é que achas que aconteceu com a Phonodisk ao certo?

Acima de tudo aconteceu a má administração. Acho que falhei em traçar o paralelismo que queria, por medo de as liner notes ficarem demasiado longas. Queria comparar a má administração da Phonodisk, que foi uma entidade bastante empreendedora, e a má administração da economia nigeriana, que na altura era vista como tendo o potencial para se tornar numa super-potência em tempos futuros. A corrupção e a má administração eram endémicas nessa altura e a Phonodisk, de qualquer ponto de vista (e podes culpar muitas pessoas diferentes), foi vítima disso.

Mencionas bastantes vezes que foi uma fase de optimismo na Nigéria, e acho que isso se ouve bastante bem na música, esse sentido da possibilidade de virarem uma força a nível mundial…

Até certo ponto é verdade, mas acho que para além de um certo período durante os anos 90 nunca houve uma altura em que os nigerianos não sentissem isso. Os nigerianos como povo têm bastante auto-confiança. A Nigéria é um país muito dinâmico, relativamente rico apesar da má gestão da enorme riqueza que tem, portanto os nigerianos sempre se sentiram assim. A diferença é que nesse período também houve pessoal fora da Nigéria a notar nisso.

Como é o cenário musical nigeriano actualmente?

A indústria musical nigeriana está melhor do que alguma vez esteve em toda a sua história. Uma coisa que para mim é fascinante é que, pela primeira vez, ao menos desde que eu sou vivo, vejo a juventude nigeriana mais interessada na música produzida na Nigéria do que na do estrangeiro. O grande som do momento é algo a que chamam Naija Hip-Hop, é uma mistura de Hip-Hop, Reggae, Reggaeton e alguns sons locais… é um estilo muito moderno e toda a gente está a curtir, em outros países africanos e até nos E.U.A. há muita gente a curtir. Está a começar a receber mais atenção, tens artistas como D’Banj a assinar contracto com o Kanye West. Estou muito contente com o estado da indústria musical nigeriana, o problema é só que não gosto muito da música (risos). Gosto em certos contextos, é fixe numa discoteca, mas não é algo que oiça sozinho ou compre. Tenho os meus problemas com o estilo, mas ainda bem que está a ter sucesso.

Que outras sonoridades pretendes explorar com a Comb & Razor?

No início do próximo ano vamos ter um relançamento de um álbum de uma banda de Afro-Rock chamada Semi-Colon. E depois disso uma compilação de música de dança do Sudeste do país, vai ser Highlife, Afro-Beat e cenas que suponho que possas chamar música Soul.

Mencionaste muitas vezes as diferenças de gostos entre a Europa e a África. Porque é que achas que tanta música africana, tirando o Afro-Beat e talvez algum Highlife, tenha tão pouca popularidade?

Tem a ver com o público actual. No passado quem ouvia música africana no Ocidente eram pessoas artísticas, ligadas à World Music que se queriam ligar a uma tradição exótica. E eles também interpretaram mal a música, porque a África é moderna, tem gostos modernos, ouvem coisas de outros países e imitam e é isso que se torna popular, mas a maioria do público ocidental não estava interessada em Rock africano, Soul africano, Disco africano ou nada que se parecesse. Queriam ouvir coisas tradicionais, que parecessem puras, mas claro que essa pureza no mundo moderno é impossível. E é a isso que se resumia a música africana no Ocidente. Mas agora quem apoia a música africana é principalmente um público que vem do Funk, da música Dance e da DJ culture, e que quer ouvir coisas do mesmo estilo. Não os culpo, têm interesse no que têm interesse, e sem sombra de dúvida aprecio o apoio que dão à música africana. Gosto é de acreditar que mesmo só ouvir as cenas mais Funk poderá abrir os ouvidos das pessoas para algumas das outras sonoridades que existem.

 



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