Brincando aos Clássicos

Análise da versão de Jekyll & Hyde apresentada pela Klássikus no Teatro da Comuna.

Esteve em cena no Teatro da Comuna a peça Jekyll & Hyde, baseada na obra de Robert L. Stevenson “The strange case of Dr. Jekyll and Mr Hide”.

O diálogo entre o bem e o mal, as dúvidas sobre as suas essências, a magna questão sobre a natureza humana, são temas eternos que acompanham e inspiram desde as mais vãs filosofias à mais refinada das Artes.

A obra na qual se inspira esta peça é uma obra trágica, inquietante, dramática. Torná-la riso será pretensão a mais ou aspiração ao alcance de todos?

Entramos na sala da Comuna e o décor, a postura dos actores que nos conduzem, as palavras introdutórias, provocam em nós os risos iniciais, nascidos do embaraço e da perplexidade. Então afinal isto não é um drama?

Os actores avisam: se pensam que isto é uma comédia, enganam-se. É drama, e se surgirem risos será por causa de uma ou outra ironia. A peça começa. O cenário é decadente: a doença, a enfermidade, a solidão na noite natalícia. É-nos apresentado Dr. Jekyll, um médico bem intencionado, mal visto pelos seus pares pela ética que segue. E temos o primeiro momento musical da noite a lembrar o Cats ou qualquer outro espectáculo da Broadway.

A peça continua, com momentos cénicos agradáveis ao olhar e ilustrativos da dicotomia constante entre bem e mal. E há um momento, para mim um dos melhores conseguidos da peça, quando temos no mesmo espaço e, umas vezes intercaladas, outras vezes em uníssono, personagens de lados diferentes da vida, em geografias distantes da cidade, com as mesmas interrogações e medos. O que descontrói a barreira entre estes dois mundos, não tão opostos como se pensa.

A primeira parte acaba por ser uma prova de fogo para quem está a assistir, não só porque é longa, mas também porque as cadeiras são desconfortáveis. Um pormenor alheio ao grupo de actores, mas que influencia, sem duvida, a receptividade do público.

Já no final da primeira parte, assistimos à “transformação” do Dr. Jekyll em Mr. Hide , cujas consequências e desenvolvimentos são o mote para a segunda parte. Nesta cena, em que o simpático, educado e bem intencionado Dr. Jekyll toma a poção e “nasce” o rude, bruto e amoral Mr. Hide, sentimos que o actor, por momentos, entra em over acting. Concentrando toda a alteração comportamental no tom de voz, o actor descura outros recursos, como a própria postura, o andar, o olhar, entre outros, e torna-se demasiado… como hei de dizer? Digamos “ensurdecedor”.

A segunda parte não traz muitas novidades, apenas um inusitado final que quebra um eventual peso dramático que a peça poderia (atenção, poderia, não quer dizer que tenha de facto) ter naquele momento.

O grupo de teatro Klássikus traz-nos assim uma abordagem interessante de um clássico, com algumas “actualizações” e remissões contemporâneas. Duas horas e meia com algum interesse, sem demasiada pretensão, com poucos recursos cénicos bem aproveitados, e actores com bons momentos.

De lamentar que a crítica social se tenha cingido tanto aos devaneios e comportamentos sexuais e pouco mais noutros vícios sociais, o que acaba por incorrer na piada fácil. O que não retira o mérito de levar a cena aquilo que se tem consciência que se pode levar. Há que tirar o melhor partido do que se tem e é essa a honestidade do trabalho deste grupo.

No geral, gostei ou não?

Quebrando a lógica maniqueísta que subjaz ao tema, não é bom, mas também não é mau.



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