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Bruno Schiappa

"Gosto de saborear o palco até à medula". Entrevista com uma das figuras mais importantes das Artes do Espectáculo.

Numa tentativa (ingrata) de resumir o percurso profissional de Bruno Schiappa para introduzi-lo enquanto figura de destaque nas Artes do Espectáculo, pegámos no seu curriculum vitae que conta com mais de 100 espectáculos que inclui actuações em Palco (Teatro, Dança, Sapateado, Música…), Cinema e Televisão. Schiappa é actor profissional e coreógrafo desde 1987 (tem a sua formação como Actor/Encenador pela Escola Superior de Teatro e Cinema e em dança e sapateado em New York e Paris); é mestre em Estudos de Teatro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (nota de tese: Muito Bom); é Bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia para doutorar-se em Estudos Artísticos na Especialidade de Estudos de Teatro (pela mesma faculdade que realizou o mestrado); já publicou um artigo para a revista “Sinais de Cena” (Mulheres fora do Teatro); fez o prefácio a “Histórias à Volta da Mesa”, de Óscar Wilde, da editora Coisas de Ler; é professor de Expressão Dramática desde 1993 nas instalações do Chapitô e desde 2005 no Centro Cultural Município do Cartaxo; é Organizador e Acessor dos cursos avançados anuais “Sobre O Método, com Marcia Haufrecht” desde 2000 (membro do Actors’studio); dirigiu um workshop sobre o Método em Montreal, no estúdio dos Pigeons International e foi membro desta companhia de 2000 a 2008. Em 2007 foi distinguido pelo Guia dos Teatros com os prémios de Melhor Espectáculo a Solo (“(I)mortal”) e Melhor Actor num Papel Secundário (“Frozen”).

Quando inquirido sobre o seu percurso profissional e a sua versatilidade, Bruno Schiappa afirma: “Tenho a mesma profissão em várias modalidades, ou seja, sempre ligado à concepção e à interpretação, mas umas vezes mais na área da coreografia, outras na área da encenação, outras como actor, exclusivamente, outras como bailarino, outras como cantor-actor… Se uma pessoa abraça a profissão da arte performativa, tem que saber assegurar, pelo menos tecnicamente, todas as vertentes porque senão corres o risco de, quando não há a tua especialização, ficas sem trabalho. De qualquer modo se a nossa aposta é vestir várias peles, como diz o senso comum, temos de saber vesti-las ou conseguir vesti-las nas várias vertentes que as pessoas no quotidiano também vestem. É preciso ter versatilidade, no sentido de trabalhar o lado complexo das possibilidades que tens, para criar ou recriar algo em cena ou em tela.” E acrescenta “a arte performativa é una; depois daí é que podemos ter vários escapes.

RDB: Como surge a opção pela carreira de actor?

Bruno Schiappa: A essa pergunta nunca sei muito bem responder. Eu não sei se fui eu que optei por ela ou foi ela que optou por mim (risos). Sempre estive ligado a esta forma de estar na vida que é expressar coisas, é marcar coisas, e tentar perceber o que é o comportamento humano: aquilo que é ideal, o que é concreto. Acho que nunca escolhi, foi uma coisa que esteve sempre ligada a mim.

Com seis anos participei na minha primeira peça de Teatro. Era uma peça de Natal em que havia um grupo de crianças pobres, e eu fazia uma dessas crianças. Nela surgia uma figura, que dotada de uma grande humanidade, satisfazia os desejos dessas crianças, oferecendo brinquedos e coisas a que elas não tinham acesso. Depois, a partir daí, continuei, em Angola (onde nasci), a fazer pequenos apontamentos nas peças de escola. Quando vim para Portugal, continuei no grupo do liceu Maria Amália e frequentei o primeiro curso de Expressão Dramática do “Kaos”, que só durou um ano. Depois abriu um curso de Dança-Jazz com uma professora londrina, quando na altura estava em voga a série “Fama”, e por achar importante continuei.

Portanto não sei. Acho que sempre fui muito insatisfeito com a linearidade. Mesmo quando ainda não sabia o que era isso, já sabia que havia qualquer coisa que não me satisfazia. Se calhar é um mundo espécie de “Terra do Nunca”, é uma espécie de “Terra das maravilhas”…

É isso que é para ti o Teatro?

O Teatro tem dois aspectos que estão intrinsecamente ligados: é o lado da fantasia, o lado do ideal, mas ao mesmo tempo, sempre a função de mostrar e inscrever, o que é o marco humano; o perfeito e o imperfeito: a procura da perfeição e da imperfeição, onde cabem personagens. O Teatro fala da vida humana, não fala de outra vida. Mesmo quando são efabulações de animais, estes são humanizados, para haver sempre uma perspectiva humana. Portanto, eu acho que o Teatro tem isso, não só a função de entreter, para usar um termo muito em voga (que eu não sublinho nem subscrevo), mas também uma função de registar, de dar a ver aquilo que é este conjunto de pessoas, que é esta massa móvel.

As ideias para os teus espectáculos procuram sempre passar uma mensagem para o público. Tens uma necessidade constante de crítica social nas tuas representações?

Para mim, não faz sentido estar a dizer coisas, a cantar e a representar, senão tiver ali um sumo social qualquer. Aquilo que está muitíssimo bem, pode integrar também as peças, mas de qualquer modo, tem que haver sempre um questionar. Não quer dizer que o facto de não haver um direito, o direito conexo, seja evidente para o cidadão que não é actor, que tem de saber que essa luta existe. Depois, fará o seu próprio juízo. Pode não ser uma crítica, nesse sentido negativo de dizer “isto é mau”, mas mostrar ou dizer: “Atenção que isto acontece! Por causa disto acontecer, muitas vezes as pessoas que vocês acham que estão na maior, se calhar não estão.”

Já que falamos da problemática envolvendo os direitos dos actores: como encaras as alterações recentes do estatuto para profissionais do espectáculo?

A legislação que existe ainda não está muito clara. As alterações recentes não nos interessam muito porque continuamos a depender de um contrato. Neste momento para além do contrato, a nossa realidade maior é o recibo verde. Nesse sentido, tem de haver qualquer coisa que contempla essa modalidade que participa de muitos cidadãos, tem de ser debatida mais uma vez a questão da segurança social e a questão dos intermitentes no estatuto dos actores neste país (que são a maior parte deles). Não pode acontecer uma pessoa estar a pagar sempre, sempre, sempre, por coisas que não está a receber. Se calhar fazer-se como o modelo francês que as pessoas pagam de acordo com aquilo que ganham nesse ano. É um facto que ninguém tem culpa de nós não termos um emprego permanente, mas nós não temos culpa do nosso trabalho não ser permanente. Tem que haver um equilíbrio.

Achas que essa condição profissional faz com os actores portugueses tenham a tentação de ir para o estrangeiro?

Não se se prende só com essa instabilidade ou irregularidade. Acho que se prende, mais do que tudo, com a Indústria. É um facto não haver uma Indústria. Neste momento, a produção nacional, em termos televisivos, já cresceu bastante, mas não há uma indústria cinematográfica, por exemplo. Não há uma aposta constante no trabalho do actor como um processo também identificativo da Nação. Então, como não há essa questão industrial, a questão da formação continuada também se coloca muitas vezes. Não existe essa perspectiva nos próprios actores, porque senão estão a trabalhar constantemente, muitas vezes desistem de estar a reciclar-se ou a dar continuidade a essa formação. Então vão para fora, no caso dos Estados Unidos ou de Inglaterra ou até de Espanha. Por exemplo em Espanha, as pessoas podem não ser de topo mas sabem que não vão estar sem trabalhar, não vão ter períodos em que passem fome. E todos os anos há os cursos de Verão, de reciclagem, onde vai o Javier Bardem, Madrid. Pessoas do topo e outras pessoas não de topo, mas porque há uma indústria. Sabem que vai haver trabalho para aplicarem isso. Aqui é sempre uma incógnita. Se não estás durante um ano a fazer televisão, não tens praticamente uma continuidade de trabalho. No Teatro também isso ainda não acontece, e cada vez menos porque os teatros também deixaram de ter companhias residentes. Têm dois ou três elementos no máximo, que são normalmente os sócios fundadores, que têm sempre de estar a ir buscar actores de fora, num período que se limita àquela produção. Portanto, acho que não é só o estatuto intermitente, porque isso também existe noutros países. É mais por não ser considerada uma profissão a tempo inteiro, uma profissão “séria”.

Como é para ti subir ao palco como actor?

A profissão em palco envolve sempre algum nervosismo, que me chateia se for muito, porque quero saborear aquilo até à medula, como se costuma dizer.Um actor está-se sempre a sacrificar, mais que não seja ao nível nervoso. Para transmitir qualquer coisa e veicular aquela mensagem, mas ao mesmo tempo saboreia porque está a fabricar emoções e sensações, e ver como é que aquilo funciona, nesta ou naquela zona do corpo ou no corpo todo, como é que a palavra sai por causa dessa alteração de sensações. É livre.

Um dia que me aconteça não ter isto, é porque falhei redondamente como actor na construção daquela personagem ou porque a peça já não tem mais nada para dizer.

Como vês a dinâmica do actor que se insere em vários formatos, nomeadamente do palco para o ecrã?

Eu tenho visto actores no Teatro que passam pela Televisão, mas quando chegam lá, provam que são actores, ou seja, o que eles estão a fazer é Arte. Não é uma espécie de “Naturalismo deslavado”, como um conceito pejorativo, porque aquilo a que eles chamam de “Naturalismo” é uma coisa sem ponto de interesse, é o falar quase por monossílabos, isso não faz sentido nenhum. Se esses não aparecem no Teatro, eu não dou sequer por falta deles porque eles não me chamaram sequer a atenção na televisão. Foram acenados com a fama imediata e efémera e esqueceram-se da importância da formação. Aqueles que são actores de Teatro, que são bons actores de Teatro, quando aparecem na Televisão, marcam a diferença. E acho que o Teatro não se esqueceu deles. Eventualmente o Teatro está a sofrer com uma coisa: a Escola Superior de Teatro e Cinema está a uniformizar as pessoas. Sai muita gente de lá, a falar da mesma maneira, a ter a mesma inflexão quando o actor, como qualquer artista, deve sobretudo desenvolver uma personalidade própria.

Fala-nos um pouco da tua experiência como professor de Expressão Dramática.

Já dei aulas de Sapateado e Dança Contemporânea e há 18 anos que dou aulas nos cursos de final de tarde no Chapitô. Não houve nenhum dia que não me apetecesse ir dar aulas. Ainda hoje me fascino com os resultados e saio sempre de lá alimentado. Aprendo muito a ensinar. É uma troca e um intercâmbio de conhecimento. Fico sempre na expectativa quando entrego a peça de final de ano lectivo para os alunos representarem. Agora já há uma maior distância porque tenho 44 anos e há sempre o nervosismo até na dúvida se vão gostar ou não, se estou no patamar de escrever sobre coisas que lhes possam interessar. Até agora tem sido fantástico porque eles conseguem sair deles e perceber a dimensão daquilo e do impacto que aquilo pode ter. Depois ao vê-los a trabalhar e a abordar a personagem, o texto a sair do papel e ir para os corpos ganha uma dimensão muito maior. Fica uma coisa viva.

O meio teatral é difícil?

Não é que seja difícil. Acho que é composto por pessoas maravilhosas individualmente. Elas são generosas, senão não podiam estar a dar aquelas emoções ao público. Infelizmente, é uma classe muito pouco unida. Às vezes tens aquela sensação de estar a lutar sozinho. Mas isto que eu digo, dizem todos. Também tenho a minha quota-parte de culpa nisso, apesar de fazer os possíveis para dar o meu apoio aos intermitentes. Existem pessoas conflituosas em todo o lado.

O que acho que é notoriamente mau em Portugal é a falta de aposta na dramaturgia portuguesa. Tirando o Teatro Aberto, é raro haver uma companhia que faça um teatro português contemporâneo. E temos muito bons dramaturgos portugueses a escrever. O Teatro português em Avignon era muito bem recebido. Estamos a falar de festivais muito exigentes.

Como é que um artista pode se sentir concretizado?

Um artista se se concretizar vai deixar de ser artista. Ser artista é uma fome de dizer e manifestar coisas. Mesmo depois de ter feito a maior parte dos meus projectos pessoais e falar sobre que eu tenho para dizer quando quero, através dos meus espectáculos, não me concretiza. Ainda tenho muito para fazer.

Os prémios ajudam a chegar mais perto dessa concretização?

É óptimo receber prémios, mas não é pela questão do “prémio” como distinção, mas pelo reconhecimento do público, de gostarem do nosso trabalho, de conseguir dizer qualquer coisa.

Como artista, qual o legado que gostarias de deixar?

Que ficasse bem claro que o ser humano tem muita coisa boa mas não nasce com humanidade. A humanidade é um modelo que se procura, a perfeição. Para atingi-lo há muita crueldade. E é exactamente por isso que ele é humano. Gostaria que a minha marca enquanto artista fosse ligada a essa visão. A visão de que a lógica não tem que ser um espartilho. Não olhar para as coisas como sendo lineares porque senão não vamos ver nada. Não deixar de olhar para o feio, porque às vezes ele leva-nos ao belo. O ser humano é muito o sublime na lama.



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