“BY HEART”

“BY HEART”

Uma peça para ver com o coração

Depois da reposição dos espectáculos “Tristeza e alegria na vida das girafas”, “Se uma janela se abrisse” e “Três dedos abaixo do joelho”, eis que é chegado o dia de estreia da nova peça escrita, encenada e interpretada por Tiago Rodrigues.

Foi no dia 20 de Novembro que a peça “By Heart” pisou o palco do Teatro Maria Matos fazendo-se acompanhar pelo seu autor e por outras 10 pessoas. Pessoas que não pertencem à escola da representação, da performance, das artes do palco. São antes actores sociais, pessoas do público, pessoas como tu e eu. São pessoas habituadas a pisar aqueles que são os palcos da vida, do amor e da memória e que, neste dia, se arriscaram a embarcar numa aventura que se passa no palco da dramaturgia.

“Se há algum substituto para o amor, esse substituto é a memória.” Usemo-la, então. O Tiago precisa de 10 pessoas do público e da capacidade de memorização que existe em cada uma delas. Essas 10 pessoas vão aprender um poema em frente a todos nós que eram também eles há minutos atrás. Em frente ao público. A peça não terminará enquanto não tiverem aprendido o poema. E não, ainda nenhum deles – de nós – assistiu à peça. Tiago, no entanto, tenta acalmar possíveis receios: “O texto está ao alcance de qualquer um”. Nas cadeiras do Teatro ficam pendurados os casacos e deixam-se as malas junto à amiga do lado. Passaram para o lado de lá da peça (existirá, mesmo, este lado de lá e de cá?). Estão em palco, cada um rodeado por 9 desconhecidos. Vão representar. Vão aprender um texto com o coração. “A maior homenagem que podemos fazer a um texto é decorá-lo, pelo coração, não pelo cérebro [by heart, not by brain], porque a expressão é vital.”

No centro do palco estão caixotes de fruta, só que sem fruta. Os caixotes têm antes livros. Muitos e de muitos tamanhos, espessuras, capas e contracapas. O Tiago explica-nos que trouxe os livros da casa da sua avó. “Bem, nem todos. Só alguns.” Ou será que foram todos? Tiago presenteia-nos com uma interpretação absolutamente arrebatadora e vai semeando a dúvida em cada um de nós sobre quando é que estamos a assistir à leitura de um texto ensaiado para a peça ou antes a assistir a interpretações pessoais que se deixam assinalar por breves improvisações. Através de um monólogo incrível Tiago explica-nos que a sua avó Cândida adorava ler e que, certo dia, lhe foi diagnosticada uma doença. Em breve ficará cega, disse-lhe o médico. Perante este cenário asfixiante para quem tão bem conhece ao que sabe ler um livro, Cândida toma uma decisão: irá decorar um livro para que, quando esse dia chegar, o possa ler na sua cabeça. Ao Tiago coube a tarefa da escolha da obra.

“Quando em meu mudo e doce pensamento / Chamo à lembrança as coisas que passaram”. Esquecemo-nos desta parte? As 10 pessoas ainda têm de aprender um poema. E, à medida que cada par de versos vai sendo ensinado, o monólogo do Tiago vai relatando algumas histórias reais intercaladas por outros tantos episódios ficcionais, textos e pensamentos eternizados por escritores que já exploraram estes complexos temas da memória, da recordação, do pensamento e da lembrança. Pelas mãos das 10 pessoas em palco e pelo próprio corpo do Tiago chegam-nos as mais variadas referências, que vão desde o Prémio Nobel Boris Pasternak ao lado mais artístico de Hitler, com tempo ainda para revivermos um trecho do romance “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, entre tantos outros.

Voltamos agora ao poema que tem de ser decorado e aos 10 voluntários em palco. É um momento único que se desenha diante de nós, ao vivo e a cores, numa representação que ganha vida sem que tenham existido ensaios ou pré-avisos. As unidades por que vai passando a acção da peça vão-se moldando habilmente à medida que cada uma das 10 pessoas entra em cena. E isto é, de facto, o que mais cativa e seduz em todo o espectáculo: são actores sociais, são do campo da vida real e, ali, adequam-se ao poema e à peça, cada um com a sua postura e expressão corporal muito próprias. O mais tímido que durante todo o espectáculo se deixa ficar muito firme, hirto e silencioso e a rapariga que se senta ao lado do Tiago e que vai brincando com o cabelo enquanto, de olhos fechados, tenta decorar o seu verso. Do lado oposto do autor está o rapaz que vai cruzando e descruzando as pernas emitindo sinais visíveis de um nervosismo miudinho e há ainda aquele que tenta parecer tranquilo mas que se deixa denunciar pela inquietude das suas mãos. Temos ainda aquele que podia bem ter sido actor pela excelente capacidade de decorar que demonstra logo nos primeiros versos. Será por decorar… pelo coração?

É de facto uma peça imperdível; é a vida real contada em forma de poema, é um olhar sobre a forma como nos posicionamos enquanto público, enquanto indivíduos e enquanto colectivo. E é através deste cenário que nos é ensinada a maior lição da peça: aquela que nos lembra (ou relembra?) que nós somos, em última estância, o melhor esconderijo para guardarmos e protegermos aquilo que amamos.

A importância da transmissão de ideias, da memorização, do decorar textos, trechos e poemas. Uma vez em nós, no nosso coração, estão salvaguardados. É a única certeza que ainda nos resta de que algo pode perdurar no tempo.

Obrigada Tiago. A tua peça ficou guardada no nosso coração.

Para ver até ao dia 23 de Novembro, sempre às 21h30, no Teatro Maria Matos.



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