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“Cães de caça” de Jorn Lier Horst

A verdade escondida nas estrelas

Polícia de formação, o norueguês Jorn Lier Horst tem-se dedicado a tempo inteiro à escrita desde 2013. Autor profícuo, Horst tem desenhado uma muito interessante obra, centrando-se na figura de William Wisting, veterano detetive das forças policiais norueguesas, personagem que o público português ficou a conhecer em Fechada para o Inverno, e que regressa agora em Cães de Caça (D. Quixote, 2017), um livro que valou ao autor arrecadar prémios como o Riverton/ Revólver Dourado 2012 (o melhor romance policial norueguês), o Chave de Vidro 2013 (melhor policial escandinavo) e Martin Beck 2014, atribuído pela Academia Sueca de Escritores de Policiais.

Tido como um bom agente, honesto e moralmente íntegro, William Wisting é surpreendido quando o informam que está suspenso de funções e alvo de uma investigação após ser acusado de falsificar provas de um caso que remonta há 17 anos e que levou o detetive à resolução do homicídio da jovem Celilia Linde, que entretanto se tornou como um dos crimes mais mediáticos do país.

A acusação de corrupção vem de dentro do próprio departamento e Wisting encontra-se numa encruzilhada e provar a sua inocência torna-se na sua demanda restando-lhe fazer a sua própria investigação e para isso irá contar com a preciosa colaboração de Line, sua filha e obstinada jornalista de investigação num jornal de Oslo. No cerne da questão e da suspensão de Wisting estão algumas provas que terão levado à condenação de Rudolf Haglund, o homem errado.

Empenhada em ajudar o pai, Line fica a saber que Haglund vai ser libertado depois de quase duas décadas a cumprir pena e que o seu advogado, um tipo sem grandes escrúpulos e muito bem relacionado com o Ministro da Justiça, tudo fará para recuperar a inocência do seu cliente, colocando assim toda em causa uma vida de trabalho do detetive e do seu departamento.

Enquanto isso, outra jovem desaparece e o caos assombra as autoridades policiais norueguesas e vai remexer com o passado de alguns dos seus agentes, trazendo à tona memórias dolorosas, feridas que se queriam esquecidas, e que agora doem mais que nunca pois as dúvidas assombram aqueles que se dizem do lado da justiça, restando apenas lutar contra a injustiça com todas as energias que sobram.

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Ler Cães de Caça é entrar num complexo jogo de detalhes processuais mas também de dúvidas que ameaçam a sanidade e veracidade de algumas decisões. Horst desenha uma extraordinária teia narrativa, realista, sob a forma de curtos e dinâmicos capítulos, catapultados por elevadas doses de suspense e intriga.

As investigações de William e Linde, a eterna dicotomia entre as investigações policias e dos media, à mistura com os entraves da burocracia oficial, conferem um andamento (quase) cinematográfico à narrativa e conferindo uma solidez invejável à escrita de Horst que também ganha muito com a “exploração” da envolvência familiar, principalmente entre pai e filha, mas também à boleia da relação agora conturbada entre William e a sua atual companheira.

O personagem de Wisting em particular assume uma áurea estóica, forte mas silenciosa, com diálogos reféns de uma saudosa linha subtilmente metafórica, evitando-se assim longas conversas, e são esses os momentos mais significativos do livro, seja eles situações relacionadas com eventos desportivos, o som de um barco perdido no nevoeiro ou a referência a uma constelação de estrelas. Pormenores que fazem a diferença entre a banalidade e um (muito) bom livro.



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